domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crônica (14)

QUATRO CRONISTAS CONVIDADOS
Mais quatro crônicas linguísticas para os leitores do blogue. 

As duas primeiras foram produzidas por alunas do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2014-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA, assunto de nosso curso.


01. FLEXÃO DOS POSSESSIVOS (por Jakeline de Melo Fenna)


O ano letivo estava começando, e Margarida, pela primeira vez, iria dar aula de Língua Portuguesa. Ela formara-se há pouco e estava muito nervosa. O assunto nem era tão complexo, mas como falar de  pronomes possessivos para adolescentes numa segunda-feira 7h da manhã?

Na faculdade, aprendera que um bom professor deve cativar, atrair a atenção dos alunos, que ele tem de ser, acima de tudo, um artista. Então, Margarida decidiu fazer de sua primeira aula uma diversão, algo bem marcante. Recortou de revistas e jornais exemplos de frases com uso dos possessivos. Fez cartazes coloridos  até com fotos de artistas. Selecionou algumas músicas em que os possessivos ganhavam destaque e preparou uma dinâmica de grupo para fechar "com chave de ouro" sua primeira aula.

Chegou então o aguardado dia. Margarida levou todos os cartazes, as músicas, explicou com muita clareza que os pronomes  possessivos expressam um vínculo qualquer, constante ou eventual, entre o objeto ou assunto de que se fala e cada uma das pessoas do discurso. Ainda acrescentou que as gramáticas escolares brasileiras em geral apresentam um paradigma de formas pronominais possessivas que não corresponde, como conjunto, nem mesmo ao uso padrão escrito corrente do  português do Brasil. Depois  dividiu a turma em três grupos para a dinâmica. Os alunos deveriam estourar os balões que continham tiras de papéis com frases e organizá-las. Venceria a competição o grupo que montasse primeiro e mais corretamente o texto, com direito a  brindes.

Foi uma diversão, balões estourando, alunos lendo as frases invertidas, tentando organizar o texto de forma coerente, uma confusão. Para surpresa de Margarida, dois grupos conseguiram montar o texto ao mesmo tempo e leram em voz alta: Os pronomes possessivos se flexionam em gênero e número, concordando com o substantivo (a parte possuída) que determinam, com exceção das formas dele, dela, deles, delas e de vocês, que concordam com o possuidor.

Quando o sinal soou anunciando o fim da aula, os alunos lamentaram e muitos se despediram de Margarida dizendo que estavam ansiosos pela aula seguinte.

Margarida não conseguiu esconder a emoção e, antes mesmo  de fechar a porta da sala, já começava a imaginar como seria a próxima aula.

02. UMA QUESTÃO DE GÊNERO (por Jorginete Roux da Costa)

Uma distinção amplamente utilizada nos estudos linguísticos é a que opõe formas marcadas (feminino) e formas não marcadas (masculino). Nessa distinção entre marcado e não marcado, um dos termos do par é o uso mais amplo e dominante do não marcado, enquanto o outro, o marcado, é mais restrito e limitado.

Trata-se, como se vê, de uma relação assimétrica. Sua utilidade foi reconhecida também para outras áreas de estudo, como a sociologia, a antropologia e os estudos culturais.

Quando o assunto é gênero, a forma considerada marcada é sempre a feminina. Por exemplo: quando alguém diz que tem onze filhos, no caso a minha própria mãe, heroína, por formar um time de futebol no próprio lar, a gente não sabe se todos são homens ou se há algumas mulheres. No entanto, se a pessoa disser que tem 11 filhas, a ambiguidade desaparecerá. Assim, como a forma não marcada é muito mais usual, ela é considerada neutra.

Vale aqui, então, ressaltar que a dominação da forma marcada (masculina) se reflete na língua de forma preponderante. Afinal, se quatro mulheres e um cachorro sofrem um acidente ao atravessar a rua, diremos que eles foram atropelados. Ou seja, basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de quatro mulheres e jogá-las dentro do mesmo "balaio de gatos ou de cães” da forma neutra do masculino.

Outra curiosidade importante de ser lembrada é que os textos pedagógicos sempre se referem aos professores, embora as mulheres constituam a esmagadora maioria da profissão docente. Existem, também, por todo o país sindicatos de trabalhadores domésticos, ainda que saibamos que 99,9% desses trabalhadores sejam do sexo feminino.

No Brasil, logo após a posse de Dilma Rousseff na presidência da República em 2011, um debate linguístico emergiu quanto ao uso da palavra presidenta usada para designá-la. O debate na verdade era de cunho sociocultural e político. A própria Dilma declarou que desejava ser chamada de presidenta, para deixar bem marcada a significação histórica, inédita, nunca vista antes na história do PT, quero dizer do Brasil, de uma mulher no cargo máximo de um país como o nosso.

Em suma, tudo gira em torno da questão do gênero, e isso muitas vezes exacerba os ânimos de maiorias e/ou de minorias que se sentem excluídas dentro desse status quo, querendo mudar um comportamento sociocultural que vem de longe na história da humanidade.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2014

As duas próximas foram produzidas por alunos de períodos variados de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2014-2 do Instituto de Letras). O tema era LÉXICO & SEMÂNTICA, assunto de nosso curso.

03. A LINGUAGEM DAS FIGURAS (por Anna Carolina Matos)

Quando peguei uma folha em branco para escrever esta crônica, não senti inspiração alguma. Sem ideias, parei, peguei, pensei... e dei de cara com um assíndeto e uma paronomásia. Mas falar sobre figuras de linguagem? Muito difícil! Continuei me concentrando. Distraída, passei direto por uma elipse pronominal e me questionei como os estudantes continuamos com essa falta de imaginação ainda na faculdade. A silepse de pessoa passou batida e me vi inerte sob a luz fria da luminária apoiada em minha bancada. Sem notar a sinestesia, olhei para a folha de papel na minha frente e vi que a caneta já havia rabiscado algumas palavras.

Nem me dei conta da personificação quando reconheci na tevê, que falava sozinha em um canto do quarto, o rei do futebol dando uma entrevista para um canal de esportes. Quase notei a antonomásia, mas bem a tempo me desconcentrei com o “toc-toc-toc” vindo do outro lado da porta fechada. Por meio segundo penso em onomatopeia, mas logo concentro minhas forças em reclamar: – Meu Deus! Dai-me paciência! Assim a bendita crônica não sai! – Mas o que sai é a apóstrofe no mesmo momento em que entra minha mãe perguntando: – Carolina, minha filha, vamos jogar preto no branco. Você vai ou não arrumar esse quarto? – Nem me preocupei com a antítese, com o zeugma muito menos. De que adianta? Não vou mesmo escrever sobre figuras de linguagem, ué.

Diz minha mãe que eu escrevo bem, mas sabe como é mãe, né... é puxa-saco, é incentivadora, é piegas. Pensando nessas coisas de mãe, perdi a inversão e a anáfora bem ali. E o tempo passava, e eu não me concentrava, e do namorado lembrava, e a inspiração não chegava. Fiquei nesse vai, vem, volta, vai não volta sei lá por quanto tempo. Cega, deixei passar polissíndeto e aliteração.

Concentrando-me para não chorar rios de lágrimas e alagar meu quarto, me escapava a hipérbole, mas decidi que, em vez de chorar, xingar e  me desesperar, eu deveria me render a um tema bem óbvio. Afinal (sem notar a gradação), a mim só me importava que a nota na tal crônica fosse tão boa como as das outras matérias. Um pleonasmo ali, uma símile aqui, e continuei seguindo. Pensei em olhar na internet, nesses “googles” da vida. Quem sabe alguma crônica pronta, de algum autor desconhecido? Mas achei melhor não. Eu realmente não queria fazer um bom texto utilizando meios ilícitos.

Eufemismos à parte, me desprendi lentamente dos braços da confortável cadeira em que estava e caminhei pensativamente até a estante em busca do bom e velho Aurélio. Estavam ali catacrese e metonímia, mas meu foco era o dicionário. Quem sabe eu não encontraria alguma palavra mágica que me inspirasse? Mas eu estava mesmo frita, nada me ocorria! Talvez o tema fosse óbvio e só eu é que não percebia. A metáfora também ficou esquecida. Como pode usarmos figuras de linguagem o tempo inteiro, e eu só me lembrar da ironia?


04. CRONIQUINHA (por Childerico Fernandes)

Garçom! A maquininha, por favor! A máquina usada em restaurantes para pagamento com cartão é pequena. O sufixo “-inha” cumpre sua função primária: diminuir o tamanho das coisas. Da mesma forma, existem casinhas de boneca, garfinhos de sobremesa, copinhos de plástico (aqueles que carregam comprimidos em hospitais), passarinhos e carrinhos de brinquedo. Entretanto, existem alguns outros empregos semânticos do diminutivo em nossa língua. Vejamos.

Oi, Samanta, sou eu, o Paulinho! Beleza? Tá a fim de pegar um cineminha? Quem sabe depois a gente vai naquele bistrozinho, senta naquela mesinha que a gente adora, bebe um vinhozinho, come uma coisinha... Cineminha? Vinhozinho? Comidinha? Tudo fofurismo. Paulinho não está necessariamente chamando a Samantha para ir ao Cine Joia. Nem beber uma versão em miniatura de um Merlot. Ao diminuir as coisas, Paulinho quer ser carinhoso, sedutor, fofo. Beber um vinhozinho sugere muito mais intimidade do que beber um vinho. Pegar um cineminha é muito mais gostoso do que pegar um cinema. Talvez Paulinho pegasse um cinema com seu amigo Paulão. Com a Samantha, ele pega um cineminha. Paulinho é fofo. Por isso lhe chamam de Paulinho.

Ao fim da sessão, Samanta diz ter odiado o filme. Que filminho, hem, Paulinho? Chatinho pacas, braveja. Samanta detestou "A Volta Da Múmia IV". Aqui, o uso do sufixo “-inho” amplifica o desprezo pelo filme e sua chatice. Aliás, Paulinho não sabe mais o que fazer para agradar a amada. Às vezes pensa: que namoradinha que fui arrumar! E assim vai levando sua vidinha, seu empreguinho e o transitozinho infernal que enfrenta todos os dias ao pegar a Brasil.

Existe o uso do diminutivo para enfatizar a inteireza de uma coisa, a completude de algo. Como na vez em que Paulinho ficou bebinho e teve uma baita de uma ressaca no dia seguinte. Samanta lhe fez um chá de boldo com alho e ficou muito feliz quando seu amado tomou tudinho. Tudinho mesmo. Não ficou uma gota de chá na xícara. Curou-se tão rápido que logo Samanta lhe entregou um balde e um esfregão pra limpar a vomitada que dera no corredor. Eu quero tudo limpinho, viu Paulinho!! Usa o Brilux pra lavar o pano depois. Quero ver ele branquinho!! Paulinho aprendeu sua lição. E hoje bebe direitinho.

De vez em quando, usa-se o diminutivo para atenuar uma qualidade ruim e diminuir o impacto da crítica. Quando falou do namorado para sua melhor amiga pela primeira vez e mostrou sua foto, Samanta disse que ele era feinho, mas supermegalegal, ser humano incrível, uma alma boníssima. Paulinho é um homem feio. Mas pra Samanta, ele é feinho. Paulinho tem um narigão. Pra Samanta ele é narigudinho. Barrigudo? Barrigudinho. Careca? Carequinha. Pesudo. Pesudinho. Paremos por aí.

Paulinho e Samanta vão se casar em breve. Já compraram uma casinha. Já juntaram um dinheirinho. Já escolheram os padrinhos e a cerimônia será numa igrejinha linda que fica pelos lados de Manguinhos. Será de tardezinha e a Samanta vai usar um vestidinho lindo! Vestidinho mesmo... curtinho... sabemos como são essas moças moderninhas. Paulinho já reservou um hotelzinho em Poços de Caldas para a lua de mel. Mas ele acha que ainda é muito cedo pra ter um filhinho; por isso, levará um estoque de camisinhas na viagem. Samanta concorda, os dois ainda são muito jovens e querem curtir a vida um pouquinho. 

Voltemos ao restaurante. O garçom traz a maquininha. Paulinho paga pelo jantarzinho com seu cartão e vão ele e Samanta de mãos dadinhas para casa. Mãos dadinhas? Não!!! Chega!!! Aí já é demais!!!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2014