domingo, 18 de fevereiro de 2018

Poesia e Música (13)

JOÃO E JOSÉ (Martinho da Vila e João Nogueira)
lp "Rosa do Povo", 1976

Ô João, ô João
Seu xará batizou Cristo
Cristo batizou João
Lá no Rio Jordão... lá no Rio Jordão

Se João também soubesse
Quando em junho é seu dia
Viria do céu pra Terra
Todo cheio de alegria
Soltando foguetes João
Fazendo festejos
E tanta fogueira
Que queimava o mundo
Diz a lenda
Que queimava o mundo

Por falar em mundo,João
Como vai o mundo, João?
Esse nosso mundo, João
Que é de todo mundo, João
Anda, João, vamos, João, diga, João
Fala

Não tá mole não, José
Esse mundo louco
A televisão mostra sempre um pouco
Bala de canhão e bomba de troco
Bem pertinho, irmão, lá do Rio Jordão
Bem pertinho, irmão, lá do Rio Jordão
Mas a salvação, José, é nossa Rosa do Povo
Que dá ao povão
Horizonte novo
Jogo do Barão é Rosa do Povo
O nosso sambão é Rosa do Povo
Esse seu sorriso, José, é Rosa do Povo
O Vasco, o Mengão, é Rosa do Povo
Rosa do violão é Rosa do Povo


– Então o que seria, João, do povo sem rosa?
– É, nem haveria, José, essa nossa prosa
– É José, é João, é Drummond, é paixão.
É o irmão, é o amor, linda flor em botão.

Obs.: Na complemento virtual da 2a. edição do livro Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desse texto,

O linque para o vídeo desta música é este:

https://www.youtube.com/watch?v=AWPay1sIBRo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Poesia e Música (12)

CODINOME BEIJA-FLOR (Cazuza)
cd “Exagerado”, 1985

Pra que mentir, fingir que perdoou,
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou, que coincidência é o amor:
A nossa música nunca mais tocou

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel, devagarzinho, flor em flor,
Entre os meus inimigos, Beija-Flor

Eu protegi seu nome por amor,
Em um codinome Beija-Flor
Não responda nunca, meu amor,
pra qualquer um na rua Beija-Flor

Que só eu que podia,
Dentro da tua orelha fria,
Dizer segredos de liquidificador.

Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor,
Prendia o choro e aguava o bom do amor.
Prendia o choro e aguava o bom do amor.

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desse texto,

Poesia e Música (11)

SONHO IMPOSSÍVEL (versão Chico Buarque e Ruy Guerra)
Original de: Joe Darion e Mitch Leigh
lp “A Cena Muda”, de 1974 (Maria Bethania)

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender.

Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão.

É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz.

E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão.

E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação. 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desse texto,

Poesia e Música (10)

O QUERERES (Caetano Veloso)
lp “Velô”, 1984

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão.

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres caubói, eu sou chinês.

Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução
E onde queres bandido, eu sou o herói.

Eu queria querer-te amar o amor
Construirmos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres como és...

Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!

Onde queres comício, flipper vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
E onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus.

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim!

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desse texto,

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Poesia e Música (09)

OLHOS NOS OLHOS, de Chico Buarque
lp "Meus Caros Amigos", 1976

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.

Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de atividade léxico-semântica desse texto,

Poesia e Música (08)

"FOGO E GASOLINA", de Pedro Luís e Carlos Rennó
cd "Passione", 2010

Você é um avião e eu sou um edifício
Eu sou um abrigo e você é um míssil
Eu sou a mata e você é a motosserra
Eu sou um terremoto e você a Terra.

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina.

Você é o fósforo e eu sou o pavio
Você é um torpedo e eu sou um navio
Você é o trem e eu sou o trilho
Eu sou o dedo e você é o meu gatilho.

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gás.

Eu sou a veia e você é a agulha
Eu sou o gás e você é a fagulha
Eu sou o fogo e você é a gasolina
Eu sou a pólvora e você a mina.

O nosso jogo perigoso combina
Nós somos fogo, nós somos fogo

Nós somos fogo e gasolina.

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desse texto,

Poesia (07)

SONETO, de Mário Faustino


Mário Faustino (1930-1962), poeta, tradutor e crítico literário nascido em Teresina. 

E sonhou a mulher que se cumprira.
E sonhou que no ventre da guitarra
Silente uma semente se partira
Em pranto, riso e música, fanfarra

De dor e glória por delfim nascido.
E sonhou a mulher que, enfim florido,
Seu trato de terreno roxo, aberto,
Dormia sem sonhar sobre o deserto

Passado que em futuro então se abria
Frutificando em palmas de alegria.
Na lira umbilical Orfeu tocava

Acalanto ilusório à que dormia
E entre árvores de sonho balançava
A rede filial inda vazia.

Fonte: Poesia de Mário Faustino. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
Obs.: José Carlos de Azeredo interpreta este soneto em artigo publicado no livro Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação (Rio de Janeiro: GEN, 2018).

Poesia e Música (06)

COMPARANDO METADES (Oswaldo Montenegro & Ferreira Gullar)

TEXTO I
Metade (Oswaldo Montenegro)
gravado no lp “Trilhas”, de 1977.

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta

Mesmo que ela não saiba.

TEXTO II
Traduzir-se (Ferreira Gullar) - extraído de Na Vertigem do Dia, 1980
Fonte: Poesia Completa e Prosa, 2008, p. 293-4.
gravado por Fagner no lp “Traduzir-se”, de 1981.

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Fonte: Léxico e Semântica, 1a edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desses dois textos,


Acadêmico (06)

INTERPRETANDO "POEMA DO BECO"

Manuel Bandeira (1886-1968), em 1933, escreveu o “Poema do Beco”, que dizia concisamente em dois versos:

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
– O que eu vejo é o beco.

O pobre “beco” onde Bandeira morava, na rua Moraes Vale, perto da Lapa, no Rio de Janeiro, não deixa de ser uma rua estreita e curta, por vezes sem saída, uma ruela, como dizem os dicionários. O beco é uma ponta do poema; a outra ponta é a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte: ruela versus horizonte. Mas o poeta diz que aquela amplidão não lhe importa, pois o que ele vê é o beco.

A “linha do horizonte” é o antônimo do “beco” na pertinência ou na impertinência? Em ambas? O poeta vê o beco porque o enxerga, avista, divisa? Ou porque o contempla, reconhece, analisa? Cabe discutir as escolhas sobre o verbo ou mesmo juntar esses significados diante da frase seca do segundo verso. O contraste fica resolvido na expressão “que importa” que inicia o poema, mas sabemos que o beco não é, a princípio, metonímia de nada (o poeta morava mesmo num beco). Não precisava ser... se não assumisse no texto o lugar de “meu mundo”, “meu habitat”, diante da grandeza da outra ponta, nada menos do que a “linha do horizonte”.

Manuel Bandeira, nove anos depois do “Poema do Beco”, resolveu retornar a ele e escreveu a “Última Canção do Beco”, agora com 49 versos.

Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhãs,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhãs!

Beco das minhas tristezas.
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobres quando,
Pobre, vim morar aqui.

Lapa – Lapa do Desterro –
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)

Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmolas para os pobres,
– Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vêm nas portas do templo
De noite se agasalhar.

Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas.
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!

Vão demolir a casa do beco (e aqui o sentido é literal), mas seu quarto (agora metonimicamente como “as lembranças do quarto”) vai permanecer “na eternidade, com seus livros, seus quadros”. O quarto vai ficar intacto, suspenso no ar.

A sequência de estrofes enumera características que entremeiam a subjetividade do eu-lírico e a descrição de pessoas e figuras, imagens e experiências. Numa delas, fala-se das paixões; noutra, das mulheres; adiante, da Lapa; a penúltima, de Nossa Senhora do Carmo; a última, do seu amor pelo beco. Carregados de contradições, os versos reafirmam as mesmas elipses do dístico. A outra ponta do beco, porém, mudou. Sumiu a paisagem da Glória, que realmente nunca importara mesmo. Agora a outra ponta vem da Lapa, paisagem para cima, diferente da paisagem para baixo ou para frente da Glória, do horizonte. Já que o beco nasceu “à sombra de paredes conventuais”, ele é como a vida (“que é santa”), assiste a todas as quedas, consola-as, é amado e saudado pela última vez: “Adeus para nunca mais!”[1]

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).


[1] Manuel Bandeira escreveria ainda dois poemas conjugados sob o título “Duas Canções do Tempo do Beco”, a saber:”Primeira Canção do Beco” e “Segunda Canção do Beco”. Integram o livro “Estrela da Tarde”, que reúne poesias (a maioria sem data) escritas entre 1957 e 1966.

Acadêmico (05)

INTERPRETANDO "PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES"

Como nossa “antena” reagiria diante da palavra “canhão”? Ela está presente numa música de Geraldo Vandré que se tornou um hino de resistência à ditadura: “Pra não dizer que não falei das flores” (1968, lp “Festival da Canção”).

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer - (2 vezes)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão...

A palavra “canhão” está usada metonimicamente nessa música. Aliás, há duas metonímias se confrontando nesse trecho: as flores, que representam a paz, e o canhão, que representa a guerra.
Observemos agora o trecho final:

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não...

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer...

A letra de Geraldo Vandré está quase toda em linguagem figurada. Se repararmos no estribilho a expressão “Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer”, é claro que não tomaremos seu sentido literalmente, pois ninguém faz a hora. A metonímia aqui se refere ao que simboliza essa palavra: “hora” é “tempo” e “tempo” é a própria vida. Quem sabe, age, decide sua vida; não espera acontecer...

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Acadêmico (04)

INTERPRETANDO "LOVE"

Tomemos a letra da canção intitulada “Love”, de Paulo Padilha (cd “Simone: Na Veia”, 2010). Nela, o enunciador apresenta apenas uma lista de ações que pretende ver praticadas pela pessoa amada (“Quero que você...”). Completam esse comando sintático dois itens lexicais: (a) um pronome objeto que faz a ação do verbo da segunda oração retornar para o sujeito de “quero”; e (b) verbos transitivos (apenas “baby” foge desse quesito) selecionados a partir de seus traços, prioritariamente, fônicos e, secundariamente, semânticos:

Quero que você me traga
Que você me trague
Quero que você me trombe
Que você me estrague

Quero que você me beije, baby
Que me beba e babe
Quero que você me pinte
Que me pegue e pague
Que você me cubra
Que você me cobre
Que você me cure
Que você me core
Que você me cace
E que você me coce
Quero que você me adote
Que você me adore
Quero que você me exploda
Que você me explore
Quero que você me cheire
Que você me chore
Quero que você me xingue
Que você me choque
Que você me livre
Que você me leve
Que você me lavre
Que você me lave
Que você me louve
E que você me love


A lista de desejos gera polissemia ou ambiguidade, conforme o gosto do analista. Mas, como dizia Saussure, a linguagem é a capacidade que os homens têm de comunicar-se por meio de signos (1972, p. 18). Devemos observar então que todas as ações pedidas/apresentadas pelo enunciador são, a princípio, favoráveis à consumação amorosa pretendida, pois até as metáforas de “trombar”, “caçar”, “explodir”, “xingar” podem ser facilmente convertidas em atos comprobatórios de uma paixão sem limites, físicos ou espirituais. Neste caso, porém, não interessam mais os signos, mas suas significações, que culminam na original solução morfossemântica da proposta de “que você me love”. Na simetria da estrofe terminada por verbos da 1a. conjugação (livrar>livre, levar>leve, lavrar>lavre, lavar>lave e louvar>louve) no presente do subjuntivo (com VT -e), a palavra inglesa “love” vira o verbo “lovar” do português, conjuga-se no paradigma da estrofe e resume como hiperônimo todos os verbos hipônimos dos versos anteriores.
Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018)
- no prelo, vrs. expandida.

Charge (01)

ISTO É UM ASSALTO, de Millôr Fernandes. Esta charge faz intertextualidade com a conhecida crônica de Carlos Drummond de Andrade, intitulada "Assalto". O comentário completo está publicado na 2a edição do livro "Léxico e Semântica" (Rio de Janeiro: GEN, 2018 - no prelo).



Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Académico (03)

DITOSA LÍNGUA (Hélia Correia)

A escritora portuguesa HÉLIA CORREIA recebeu no dia 7 de julho de 2015 o Prémio Camões em Lisboa. Este é o texto que a escritora leu na entrega.

A escritora portuguesa O peso destes nomes curvaria gente bem mais robusta do que eu, não fosse o caso de a leveza ser o primeiro atributo de um escritor. Aliás, quanto mais os frequentamos, menor pavor inspira a sua sombra. Não venho aqui como parceira mas como íntima, como alguém mais ligado pelo amor do que por ambições identitárias. Com Luis de Camões passeio em Sintra, enquanto ele espera o jovem rei que anda pelos bosques, enfeitiçado, já um pouco ensandecido. E a ligação aos meus contemporâneos, Sophia e Saramago, Eduardo Lourenço, Maria Velho da Costa, Mia Couto, feita de encantamento e aprendizagem, toca-me infantilmente o coração quando me traz afinidades, uma flor de frangipani que esvoaça num jardim de Maputo, as palavras que não partiram com quem já partiu, uma tão querida voz ao telefone, uma carta enfeitada de papoulas. Estou com eles, não entre eles. E assim estou bem.

Devo falar de tripla gratidão: a gratidão aos promotores deste prémio ao qual foi dado o nome maior das nossas letras, a gratidão aos membros do júri que escolheram a minha escrita para tamanha dádiva, a gratidão a um acaso de nascimento que me deu como língua materna o português. 

Também com gratidão evoco a tão citada, e mal, passagem escrita por Pessoa, aliás Bernardo Soares, pois que, achando-se escrita, e por ele escrita, me abre um certo caminho à ousadia: que amo mais a língua do que a pátria. Que me imagino armada, a defendê-la contra quem a quisesse aniquilar. As lutas pela independência que travámos deixam-me o arrepio de pensar que o português se perderia, se perdêssemos. Que morte há de ter sido a de Camões, julgando que morria com a pátria, isto é, com o lugar dos seus poemas!

Rodrigues Lobo formulou-lhe o elogio de maneira concisa e musical ("branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver") durante a ocupação filipina. Os rumos da política eram uns, o castelhano em palácio havia muito que se fazia ouvir, mas essa língua da nação, tão acabada que sem esforço hoje a lemos, tão fadada para arrebatamentos de oratória como para a sátira, como para o lirismo, cultivando sem vénia a erudição para logo a seguir brincar com ela, essa língua era a grande resistente – não a expressão de um povo: a sua essência.

Faz agora oito séculos esta língua. É a prosa formal de um testamento que atesta a data. E prosas há tão belas naquele dealbar, tão saborosas ainda quando anónimas, que dir-se-iam um bom pressentimento sobre o tanto e o tão grandioso que depois ia ser escrito. Mas é na poesia que parece avistar-se um destino, no sentido não de fatalidade mas daquilo a que alguns chamam o talento colectivo e que talvez não passe de especial, convidativa variedade na fonética.

Fácil é para nós esta função de herdeiros de tesouro tão diverso e tão bem acabado, tão antigo e, no entanto, tão reconhecível. Enquanto noutras línguas a pronúncia se foi modificando, a ponto de uma rima do século XIX já não se efectivar passadas décadas, nós cantamos Camões sem que se torne necessária qualquer adaptação. Como se cada uma das palavras reconhecesse o seu momento de perfeição e nele se detivesse, porque o quis. O apetite pelos estrangeirismos, moderado que foi, não lhe fez mal. Incorporou-os elegantemente. Não me refiro às condições presentes, pois, do que ninguém sabe, ninguém fala. E ninguém sabe o que está hoje a acontecer.

Esta paixão pela língua portuguesa, que aqui confesso, cega não será, superlativa muito menos. Entendo-a rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu multiplicou. Mas nunca afirmarei que é a mais rica ou a mais bela do mundo. Cada povo verá no seu idioma mais virtudes que em idiomas alheios. Que a disputa, se a houver, seja festiva, pois que os idiomas não ocupam espaço e não geram rivais mas poliglotas. Anterior à festa, está, porém, aquilo que dizem História. E a História é bruta e territorial.
Para abordar o assunto do domínio da língua portuguesa sobre os povos são necessários delicadeza e conhecimento, inteligência e desassombro em dose máxima. Dou-me por incapaz e renuncio a uma tentativa de discurso. Sei, sim, que houve opressão e apagamento. Mas talvez não nos caiba desculparmo-nos pelos conceitos e acções de antepassados, visto que não nos assumimos legatários e o continuum moral já foi cortado. Algum dia teremos, quero crer, a congratulação como vingança.

As línguas são os únicos seres vivos que não têm origem natural. O erro humano pode prolongar-se, mesmo inocentemente, por descuido. O português carregará ainda alguma febre imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica progride.

Que desígnio será o seu, agora, se não o de trocar e conviver, isto é, integrar a plenitude, reconhecendo e respeitando a alteridade? Com os nossos instrumentos humanistas, seremos nós os capazes de "Medir", como escreve o Professor Eduardo Lourenço, "esse impalpável mas não menos denso sentimento de distância cultural que separa, no interior da mesma língua, esses novos imaginários"?

Como num pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média que nos ameaça não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se, tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.

O nosso mundo de sobreviventes está seguro por laços muitos finos. Eu vejo os fios que unem os textos nas diversas versões do português, leves fios resistentes e aplicados a construírem uma teia que não rasgue. Quando o angolano Ondjaki dedica um poema ao brasileiro Manoel de Barros, quando Mia Couto reconhece a influência que teve Guimarães Rosa na sua escrita transfiguradora e transfigurada pelas africanas narrativas do seu povo; quando a portuguesa Maria Gabriela Llansol considera Lispector «uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro», vemos a língua portuguesa a ocupar – não como o invasor ocupa a terra, mas como o sangue ocupa o coração – um espaço livre, um sítio para viver, uma comunidade de diferenças elástica, simbiótica e altiva. Esta é a ditosa língua, minha amada.

Eu dedico este prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, "não seríamos nada". Viva a Grécia!

Fonte: Jornal PÚBLICO, 07 de julho de 2015.




quarta-feira, 29 de abril de 2015

Crônica (15)

CONTÁVEIS X INCONTÁVEIS, de CCH

“Na língua o que vale é o uso”, dizia o professor numa sala de aula, mas logo acrescentava: “o uso prestigiado pelas pessoas letradas”. Ele recomendava cuidado com os desvios estigmatizados e com as acusações promovidas pelos pseudoproprietários da correção de linguagem.

O conselho tinha sido motivado pelo debate trazido por um aluno, a partir da resposta encontrada num livro didático. O certo era “ele fez o máximo de cesta” ou “o máximo de cestas”? O livro dizia que era “cesta”, mas o aluno também queria aceitar “cestas”. Nessa hora, não vale adotar nenhum raciocínio lógico, filosófico sobre se a palavra pode ou não estar no singular (afinal, a ideia aí é plural). O caso não era de confronto entre certo e errado, pois se precisava verificar duas coisas: o uso e a tipologia dos substantivos nessa posição do sintagma.

Há uma diferença clara entre substantivos contáveis e não contáveis. São incontáveis nomes como sal, água, arroz, pipoca, honestidade... e são contáveis nomes como batata, livro, feijão, bala, sorriso... Assim, nunca (?) diremos “Coloque na comida o máximo de sais”, “Guardei no reservatório o máximo de águas”, “Você precisa agir com o máximo de honestidades”, etc. Por outro lado, poderemos dizer “Coloquei no prato o máximo de feijão/feijões”, “Enchi o bolso com o máximo de bala/balas”, “O jogador fez o máximo de cesta/cestas”.

A conclusão quanto a essas estruturas deverá mostrar que, quando se emprega um substantivo do grupo “não contável”, prevalece a forma singular. Prefere-se “Tenho um monte de pipoca para te oferecer” a “Tenho um monte de pipocas para te oferecer”, que não está errado (pois “pipoca” também se pode contar), mas não é a forma mais praticada. Ou “O armazém vendia um saco de arroz e outro de batata” a “O armazém vendia um saco de arrozes e outro de batatas”, que são igualmente corretos, pois “arroz” e “batata” também podem ser contados, embora dificilmente se veja alguém contabilizando quantos arrozes vão para a panela.

O mesmo critério de observação deve acontecer quando o substantivo pertence ao grupo das coisas “contáveis”. Parece que o uso preferido é o do plural, mas isso pode ser apenas um engano do ouvido autoritário de alguns. Devemos pedir um saco de balas e doces só porque esses substantivos são contáveis e porque o saco, obviamente, conterá um número plural de guloseimas? Se alguém pedir um saco de bala e doce, estará falando errado ou apenas exercendo o seu direito de usar a forma singular com valor plural?
Já dizia Mário Barreto, renomado filólogo da primeira metade do século passado: “A língua é o que é e não o que ela deveria ser ou o que quereríamos que ela fosse.” (Últimos Estudos, 1986, p. 229)

Ao final da aula, o professor mandou o máximo de lembretes (no plural) aos alunos, dizendo-lhes que deveriam fazer o máximo de esforço (no singular) para garantir com o máximo de certeza/certezas (no singular ou no plural) o que aprenderam sobre os usos prestigiados pela comunidade letrada.

Fiquem bem!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 29/04/2015.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crônica (14)

QUATRO CRONISTAS CONVIDADOS
Mais quatro crônicas linguísticas para os leitores do blogue. 

As duas primeiras foram produzidas por alunas do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2014-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA, assunto de nosso curso.


01. FLEXÃO DOS POSSESSIVOS (por Jakeline de Melo Fenna)


O ano letivo estava começando, e Margarida, pela primeira vez, iria dar aula de Língua Portuguesa. Ela formara-se há pouco e estava muito nervosa. O assunto nem era tão complexo, mas como falar de  pronomes possessivos para adolescentes numa segunda-feira 7h da manhã?

Na faculdade, aprendera que um bom professor deve cativar, atrair a atenção dos alunos, que ele tem de ser, acima de tudo, um artista. Então, Margarida decidiu fazer de sua primeira aula uma diversão, algo bem marcante. Recortou de revistas e jornais exemplos de frases com uso dos possessivos. Fez cartazes coloridos  até com fotos de artistas. Selecionou algumas músicas em que os possessivos ganhavam destaque e preparou uma dinâmica de grupo para fechar "com chave de ouro" sua primeira aula.

Chegou então o aguardado dia. Margarida levou todos os cartazes, as músicas, explicou com muita clareza que os pronomes  possessivos expressam um vínculo qualquer, constante ou eventual, entre o objeto ou assunto de que se fala e cada uma das pessoas do discurso. Ainda acrescentou que as gramáticas escolares brasileiras em geral apresentam um paradigma de formas pronominais possessivas que não corresponde, como conjunto, nem mesmo ao uso padrão escrito corrente do  português do Brasil. Depois  dividiu a turma em três grupos para a dinâmica. Os alunos deveriam estourar os balões que continham tiras de papéis com frases e organizá-las. Venceria a competição o grupo que montasse primeiro e mais corretamente o texto, com direito a  brindes.

Foi uma diversão, balões estourando, alunos lendo as frases invertidas, tentando organizar o texto de forma coerente, uma confusão. Para surpresa de Margarida, dois grupos conseguiram montar o texto ao mesmo tempo e leram em voz alta: Os pronomes possessivos se flexionam em gênero e número, concordando com o substantivo (a parte possuída) que determinam, com exceção das formas dele, dela, deles, delas e de vocês, que concordam com o possuidor.

Quando o sinal soou anunciando o fim da aula, os alunos lamentaram e muitos se despediram de Margarida dizendo que estavam ansiosos pela aula seguinte.

Margarida não conseguiu esconder a emoção e, antes mesmo  de fechar a porta da sala, já começava a imaginar como seria a próxima aula.

02. UMA QUESTÃO DE GÊNERO (por Jorginete Roux da Costa)

Uma distinção amplamente utilizada nos estudos linguísticos é a que opõe formas marcadas (feminino) e formas não marcadas (masculino). Nessa distinção entre marcado e não marcado, um dos termos do par é o uso mais amplo e dominante do não marcado, enquanto o outro, o marcado, é mais restrito e limitado.

Trata-se, como se vê, de uma relação assimétrica. Sua utilidade foi reconhecida também para outras áreas de estudo, como a sociologia, a antropologia e os estudos culturais.

Quando o assunto é gênero, a forma considerada marcada é sempre a feminina. Por exemplo: quando alguém diz que tem onze filhos, no caso a minha própria mãe, heroína, por formar um time de futebol no próprio lar, a gente não sabe se todos são homens ou se há algumas mulheres. No entanto, se a pessoa disser que tem 11 filhas, a ambiguidade desaparecerá. Assim, como a forma não marcada é muito mais usual, ela é considerada neutra.

Vale aqui, então, ressaltar que a dominação da forma marcada (masculina) se reflete na língua de forma preponderante. Afinal, se quatro mulheres e um cachorro sofrem um acidente ao atravessar a rua, diremos que eles foram atropelados. Ou seja, basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de quatro mulheres e jogá-las dentro do mesmo "balaio de gatos ou de cães” da forma neutra do masculino.

Outra curiosidade importante de ser lembrada é que os textos pedagógicos sempre se referem aos professores, embora as mulheres constituam a esmagadora maioria da profissão docente. Existem, também, por todo o país sindicatos de trabalhadores domésticos, ainda que saibamos que 99,9% desses trabalhadores sejam do sexo feminino.

No Brasil, logo após a posse de Dilma Rousseff na presidência da República em 2011, um debate linguístico emergiu quanto ao uso da palavra presidenta usada para designá-la. O debate na verdade era de cunho sociocultural e político. A própria Dilma declarou que desejava ser chamada de presidenta, para deixar bem marcada a significação histórica, inédita, nunca vista antes na história do PT, quero dizer do Brasil, de uma mulher no cargo máximo de um país como o nosso.

Em suma, tudo gira em torno da questão do gênero, e isso muitas vezes exacerba os ânimos de maiorias e/ou de minorias que se sentem excluídas dentro desse status quo, querendo mudar um comportamento sociocultural que vem de longe na história da humanidade.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2014

As duas próximas foram produzidas por alunos de períodos variados de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2014-2 do Instituto de Letras). O tema era LÉXICO & SEMÂNTICA, assunto de nosso curso.

03. A LINGUAGEM DAS FIGURAS (por Anna Carolina Matos)

Quando peguei uma folha em branco para escrever esta crônica, não senti inspiração alguma. Sem ideias, parei, peguei, pensei... e dei de cara com um assíndeto e uma paronomásia. Mas falar sobre figuras de linguagem? Muito difícil! Continuei me concentrando. Distraída, passei direto por uma elipse pronominal e me questionei como os estudantes continuamos com essa falta de imaginação ainda na faculdade. A silepse de pessoa passou batida e me vi inerte sob a luz fria da luminária apoiada em minha bancada. Sem notar a sinestesia, olhei para a folha de papel na minha frente e vi que a caneta já havia rabiscado algumas palavras.

Nem me dei conta da personificação quando reconheci na tevê, que falava sozinha em um canto do quarto, o rei do futebol dando uma entrevista para um canal de esportes. Quase notei a antonomásia, mas bem a tempo me desconcentrei com o “toc-toc-toc” vindo do outro lado da porta fechada. Por meio segundo penso em onomatopeia, mas logo concentro minhas forças em reclamar: – Meu Deus! Dai-me paciência! Assim a bendita crônica não sai! – Mas o que sai é a apóstrofe no mesmo momento em que entra minha mãe perguntando: – Carolina, minha filha, vamos jogar preto no branco. Você vai ou não arrumar esse quarto? – Nem me preocupei com a antítese, com o zeugma muito menos. De que adianta? Não vou mesmo escrever sobre figuras de linguagem, ué.

Diz minha mãe que eu escrevo bem, mas sabe como é mãe, né... é puxa-saco, é incentivadora, é piegas. Pensando nessas coisas de mãe, perdi a inversão e a anáfora bem ali. E o tempo passava, e eu não me concentrava, e do namorado lembrava, e a inspiração não chegava. Fiquei nesse vai, vem, volta, vai não volta sei lá por quanto tempo. Cega, deixei passar polissíndeto e aliteração.

Concentrando-me para não chorar rios de lágrimas e alagar meu quarto, me escapava a hipérbole, mas decidi que, em vez de chorar, xingar e  me desesperar, eu deveria me render a um tema bem óbvio. Afinal (sem notar a gradação), a mim só me importava que a nota na tal crônica fosse tão boa como as das outras matérias. Um pleonasmo ali, uma símile aqui, e continuei seguindo. Pensei em olhar na internet, nesses “googles” da vida. Quem sabe alguma crônica pronta, de algum autor desconhecido? Mas achei melhor não. Eu realmente não queria fazer um bom texto utilizando meios ilícitos.

Eufemismos à parte, me desprendi lentamente dos braços da confortável cadeira em que estava e caminhei pensativamente até a estante em busca do bom e velho Aurélio. Estavam ali catacrese e metonímia, mas meu foco era o dicionário. Quem sabe eu não encontraria alguma palavra mágica que me inspirasse? Mas eu estava mesmo frita, nada me ocorria! Talvez o tema fosse óbvio e só eu é que não percebia. A metáfora também ficou esquecida. Como pode usarmos figuras de linguagem o tempo inteiro, e eu só me lembrar da ironia?


04. CRONIQUINHA (por Childerico Fernandes)

Garçom! A maquininha, por favor! A máquina usada em restaurantes para pagamento com cartão é pequena. O sufixo “-inha” cumpre sua função primária: diminuir o tamanho das coisas. Da mesma forma, existem casinhas de boneca, garfinhos de sobremesa, copinhos de plástico (aqueles que carregam comprimidos em hospitais), passarinhos e carrinhos de brinquedo. Entretanto, existem alguns outros empregos semânticos do diminutivo em nossa língua. Vejamos.

Oi, Samanta, sou eu, o Paulinho! Beleza? Tá a fim de pegar um cineminha? Quem sabe depois a gente vai naquele bistrozinho, senta naquela mesinha que a gente adora, bebe um vinhozinho, come uma coisinha... Cineminha? Vinhozinho? Comidinha? Tudo fofurismo. Paulinho não está necessariamente chamando a Samantha para ir ao Cine Joia. Nem beber uma versão em miniatura de um Merlot. Ao diminuir as coisas, Paulinho quer ser carinhoso, sedutor, fofo. Beber um vinhozinho sugere muito mais intimidade do que beber um vinho. Pegar um cineminha é muito mais gostoso do que pegar um cinema. Talvez Paulinho pegasse um cinema com seu amigo Paulão. Com a Samantha, ele pega um cineminha. Paulinho é fofo. Por isso lhe chamam de Paulinho.

Ao fim da sessão, Samanta diz ter odiado o filme. Que filminho, hem, Paulinho? Chatinho pacas, braveja. Samanta detestou "A Volta Da Múmia IV". Aqui, o uso do sufixo “-inho” amplifica o desprezo pelo filme e sua chatice. Aliás, Paulinho não sabe mais o que fazer para agradar a amada. Às vezes pensa: que namoradinha que fui arrumar! E assim vai levando sua vidinha, seu empreguinho e o transitozinho infernal que enfrenta todos os dias ao pegar a Brasil.

Existe o uso do diminutivo para enfatizar a inteireza de uma coisa, a completude de algo. Como na vez em que Paulinho ficou bebinho e teve uma baita de uma ressaca no dia seguinte. Samanta lhe fez um chá de boldo com alho e ficou muito feliz quando seu amado tomou tudinho. Tudinho mesmo. Não ficou uma gota de chá na xícara. Curou-se tão rápido que logo Samanta lhe entregou um balde e um esfregão pra limpar a vomitada que dera no corredor. Eu quero tudo limpinho, viu Paulinho!! Usa o Brilux pra lavar o pano depois. Quero ver ele branquinho!! Paulinho aprendeu sua lição. E hoje bebe direitinho.

De vez em quando, usa-se o diminutivo para atenuar uma qualidade ruim e diminuir o impacto da crítica. Quando falou do namorado para sua melhor amiga pela primeira vez e mostrou sua foto, Samanta disse que ele era feinho, mas supermegalegal, ser humano incrível, uma alma boníssima. Paulinho é um homem feio. Mas pra Samanta, ele é feinho. Paulinho tem um narigão. Pra Samanta ele é narigudinho. Barrigudo? Barrigudinho. Careca? Carequinha. Pesudo. Pesudinho. Paremos por aí.

Paulinho e Samanta vão se casar em breve. Já compraram uma casinha. Já juntaram um dinheirinho. Já escolheram os padrinhos e a cerimônia será numa igrejinha linda que fica pelos lados de Manguinhos. Será de tardezinha e a Samanta vai usar um vestidinho lindo! Vestidinho mesmo... curtinho... sabemos como são essas moças moderninhas. Paulinho já reservou um hotelzinho em Poços de Caldas para a lua de mel. Mas ele acha que ainda é muito cedo pra ter um filhinho; por isso, levará um estoque de camisinhas na viagem. Samanta concorda, os dois ainda são muito jovens e querem curtir a vida um pouquinho. 

Voltemos ao restaurante. O garçom traz a maquininha. Paulinho paga pelo jantarzinho com seu cartão e vão ele e Samanta de mãos dadinhas para casa. Mãos dadinhas? Não!!! Chega!!! Aí já é demais!!!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2014