quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poesia (04)

PONTO FINAL , de Affonso Romano de Sant'Anna

Eu, ponto de observação
eu, ponto de interrogação
eu, ponto.
Discurso sem conclusão.


Fonte: Poesia Reunida 1965-1999.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Crônica (05)

TRÊS CRONISTAS CONVIDADOS: turma da UERJ, janeiro de 2010

Compartilho com vocês um trabalho que propus aos meus alunos do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2009-2). Eles deveriam redigir uma crônica linguística sobre um tema qualquer de MORFOLOGIA do português, assunto de nosso curso. O limite era uma página.

As três crônicas publicadas abaixo foram selecionadas pela turma de 29 alunos para reprodução neste blogue. Estão na versão final, ajustada após pequenos retoques, seguindo as orientações que dei para a redação do texto definitivo.

Leiam... aproveitem... comentem!

O XARARÁ DO XERERÉU (por Ariane Oliveira de Sousa)

A caminhada acadêmica é sempre uma caixinha de surpresas. Durante os primeiros anos da graduação, há momentos vividos em sala de aula que são especialmente marcantes. Eu os divido em duas principais categorias: aqueles em que seu “vasto” conhecimento de ensino médio é totalmente desconstruído e você fica com uma sensação de Maysa (“meu mundo caiu”), e aqueles em que você se surpreende e fala “nossa, como não pensei nisso antes?!”. Nessa minha não tão longa jornada de quatro períodos da graduação, já passei por muitos desses episódios, mas há um que merece destaque.

No segundo período, certa professora de linguística, que já não precisa de muito esforço para marcar qualquer aluno, apresentou a seguinte frase para que fizéssemos a análise sintática: O xararativo xarará do xereréu xararou o xiriri do xororó xararativamente. Num primeiro momento, pensamos “Pronto, enlouqueci de vez!”, mas depois percebemos certas coisas para as quais, até então, não tínhamos dado conta.

Ora, como saber a que classe gramatical pertencia e que função exercia a palavra “xarará” se ela não existe no léxico da língua portuguesa? Mesmo sem ter estudado estrutura e formação das palavras, fomos capazes de responder a questões como estas: “xararativo” é adjetivo; “xararou” é verbo; “xararativamente” é advérbio; “xarará”, “xereréu”, “xiriri” e “xororó” são substantivos. Éramos gênios da morfossintaxe! Tudo bem... nem tanto... eu sei. O importante é que, mesmo sem conhecimentos morfológicos mais específicos, conseguimos fazer a análise, principalmente por sermos falantes nativos da língua portuguesa. Fomos capazes de supor que do verbo “xararar” poderia surgir o adjetivo “xararativo”, que daria origem ao advérbio “xararativamente”, por exemplo.

Afinal, como isso acontece? Agradeça aos morfemas de nossa língua! Naquela frase, voltamos nossa atenção para os sufixos, que têm a capacidade de modificar o significado do radical a que são acrescidos. Uma de suas principais características é mudar a classe gramatical das palavras, pois também podemos dizer que eles contêm uma significação externa. O sufixo -(t)ivo transforma um verbo em adjetivo; -mente, um adjetivo em advérbio de modo. Além disso, a posição que as palavras ocupam na oração também pode ser um indicativo de sua classe gramatical. Dissemos que “xarará” é substantivo, pois funciona como sujeito da oração. Do contrário, poderia ser também um verbo conjugado no futuro do presente do indicativo, com desinência modo-temporal -ra tônica e vogal temática -a. Concluímos, então, que são os morfemas os principais culpados pela formação de novas palavras, mantendo e renovando o léxico de nossa língua.

E assim seguimos a nossa caminhada. Mais experientes? Xararativamente! Mas sempre esperando novas surpresas xararativas. Afinal, se não fosse assim, que graça teria?

DESABAFANDO SOBRE O CASO DA EPONÍMIA (por Felipe Araujo Gomes)

No começo de 2009, uma polêmica foi criada em torno do uso de gírias gays por uma das personagens do cartunista Maurício de Souza, na quarta edição em quadrinhos de “Turma da Mônica Jovem”. As expressões “tô passada!”, “a louca!”, “abafa o caso!”, “se joga!”, “dar o truque”, “uó” foram ditas por Denise – jovem descolada, influenciada pela cultura clubber, antenada com o mundo atual – e provocaram a desaprovação de alguns leitores e de parte da crítica.

Conquanto a adoção de características ou temáticas do universo gay acarrete discussões passionais no âmbito da literatura infantil, em outros seguimentos da arte e da mídia, a cultura LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) conquistou espaço e força ao longo das últimas décadas. O escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996) imprimiu na juventude de toda uma época corajosas concepções sobre a sociedade de seu tempo, utilizando em seus textos uma linguagem ousada e original, impregnada de neologismos e gírias, para falar abertamente sobre homossexualidade, sexo livre, drogas, solidão. Ainda hoje as expressões criadas por Caio são correntes e conhecidas por seus leitores dos mais variados tipos. Entre as mais reproduzidas estão “lasanha”, para designar rapaz muito bonito, e “jacira”, para se referir a homossexual escrachado, de baixo nível social.

Como “jacira”, algumas gírias se formam a partir da conversão de substantivos próprios em substantivos comuns. “débora kerr” e “betty faria” são exemplos desse processo. Talvez o mais disseminado de todos seja a expressão “elza”, significando furto. Segundo o jornalista Victor Ângelo, autor de Aurélia – A Dicionária da Língua Afiada, dicionário que traz 1.300 verbetes usados pelo universo gay, a expressão “dar a elza” teria origem num antigo boato corrido entre travestis cariocas afirmando ser a cantora Elza Soares uma cleptomaníaca “glamourosa” (num estilo Winona Ryder)! Esse processo de “coisificação” através do qual nomes de pessoas passam a ser tomados como substantivos comuns, que denominam significações sem palavras próprias que as expressem ou às quais se deseja atribuir novos significantes, trata-se de um neologismo semântico e é conhecido como eponímia. Cabe ressaltar que os epônimos não são exclusividade do vocabulário LGBT. O substantivo “gari”, por exemplo, é uma homenagem ao francês Aleixo Gary, empresário que se destacou na história da limpeza da cidade do Rio de Janeiro, no século XIX, bem antes dos “babados” de nossa época.

Entretanto, antes de provocarem polêmicas ou caírem no gosto popular, as gírias gays praticadas pela personagem Denise existem há mais tempo do que se imagina (ainda que ninguém desconfiasse disso na década de 1990) e, hoje, além de enriquecerem com muito humor nossa forma de nos comunicarmos, são interessantes exemplos para o estudo dos processos de formação de palavras.

GERUNDIANDO (por Jacqueline dos Santos Fernandes)

“Vou estar enviando”, “Vou estar retornando”, “Vamos estar registrando”. Provavelmente, você já ouviu essas pérolas de algum operador de telemarketing.

Se algum deles lhe falar que vai estar providenciando o seu pedido, esqueça! Ou espere deitado. Hoje em dia, ninguém envia mais nada, vão sempre estar enviando. Ninguém retorna sua ligação, vão sempre estar retornando. Ninguém registra nada, vão sempre estar registrando.

Gerundismo é o nome dado ao uso indiscriminado do gerúndio para indicar uma ação momentânea. Por conta disso, há quem queira abolir da língua portuguesa o gerúndio, como aconteceu com o governador do Distrito Federal, que “demitiu” o gerúndio de todos os órgãos do seu Estado. Enquanto isso, escolas sem infraestrutura, sem alimentação para as crianças são só pequenos detalhes da realidade de sua cidade – temas certamente menos importantes do que sua cruzada contra o gerundismo.

Relembrando: gerúndio é a forma nominal do verbo terminada em “ndo” que indica continuidade da ação: cantando, beijando, abraçando, escrevendo, gerundiando.

Dizem que o gerundismo na nossa língua foi importado da língua inglesa. Teria surgido de traduções mal feitas de frases como “We will be sending”, que acabou virando “Nós vamos estar enviando”. O gerundismo, dessa forma, não passaria de um mero modismo para inglês ver. Contudo, o Ministério da Saúde adverte: “A diferença entre remédio e veneno é a dose”. E o mal da superdosagem não é culpa da dose, porém de quem faz mau uso dela e exagera.

“Caminhando e cantando”, o gerúndio continua vivo, resiste! É enorme a lista dos seus usos aceitáveis: concessivo, explicativo, modal, causal, temporal, condicional. Como cantou Gilberto Gil, o bom gerúndio, como o Rio de Janeiro, “continua lindo, continua sendo...”.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2009.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dica de Ortografia (03)


ACENTUAÇÃO GRÁFICA

Eis a tabela de acentos pelo que diz o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras.
É a mesma que acompanha a quinta edição do livro "A Nova Ortografia". Se o seu livro é anterior, basta substituir esta tabela.

CLIQUE NA IMAGEM E IMPRIMA.

Dica de Ortografia (02)


EMPREGO DO HÍFEN (II)

Eis a tabela de emprego do hífen em palavras começadas por ANTEPOSITIVOS (também chamados prefixoides ou pseudoprefixos). Está atualizada pelo que diz o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras.
É a mesma que acompanha a quinta edição do livro "A Nova Ortografia". Se o seu livro é anterior, basta substituir esta tabela.

CLIQUE NA IMAGEM E IMPRIMA.

Dica de Ortografia (01)


EMPREGO DO HÍFEN (I)

Eis a tabela de emprego do hífen em palavras começadas por PREFIXO. Está atualizada pelo que diz o Vocabulário Oortográfico da Academia Brasileira de Letras.
É a mesma que acompanha a quinta edição do livro "A Nova Ortografia". Se o seu livro é anterior, basta substituir esta tabela.

CLIQUE NA IMAGEM E IMPRIMA.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Crônica (04)

É TEMPO DE METÁFORAS

Que a linguagem nos oferece motivos de sobra para discussões e especulações não é novidade para ninguém. Vivemos em torno dessa inesgotável forma de expressão, a um tempo ilimitada para nos servir em nossa necessidade de dizer e de não dizer o que pensamos e queremos, mas tam-bém – paradoxal que seja – insuficiente para dar conta de toda a complexidade de nossa natureza de seres pensantes instáveis, contraditórios e eternamente insatisfeitos – ou não.

Uma lata existe para conter algo. Mas, quando o poeta diz "lata", pode estar querendo dizer o incontível. Gilberto Gil, em versos simples (seriam simples?), refere-se a uma figura de linguagem velha conhecida, dessas que nos acompanham em nossas tentativas de comunicação com nossos semelhantes. Eu, como ele, referimo-nos à metáfora...

Abrindo qualquer jornal, de qualquer dia, lá está ela – viva, presente, divulgada. Pode ser uma metaforazinha corriqueira, tipo "chuva de pedras" (numa notícia que fala de jovens palestinos atirando pedras em escavadeira israelense), "o santuário da Amazônia" (em reportagem sobre declaração do presidente ao inaugurar gasoduto no Amazonas), "feirão de jogadores" (em matéria sobre evento futebolístico reunindo empresários interessados na contratação de atletas).

No entanto, a metáfora é uma forma de expressão que também pode ser original – e daí se explica a "lata" do poeta contendo o incontível. Quando vemos, por exemplo, na imprensa um artigo cujo título é "A linguiça democrática", é preciso ler o texto todo para compreender que o articulista estava, na verdade, comparando as sutilezas do regime democrático com a inusitada decisão de uma fábrica de automóveis alemã, que passou a produzir mais linguiças do que carros.

Observem na publicidade, nas letras de música e em nossa literatura como a criatividade dá conta desse recurso expressivo. Jornalistas, escritores, políticos, esportistas e artistas, todos praticam e divulgam metáforas, mas o mesmo fazem nossos amigos, vizinhos, parentes e colegas de trabalho. Estamos cercados pelas metáforas – eis aí mais uma, explorando a relação de similaridade entre elas (as metáforas) e as cercas, como se estivéssemos confinados num espaço dominado por elas, as poderosas metáforas. Nesse caso então, se estamos rodeados de metáforas por todos os lados, então façamos outra e nos vejamos numa ilha imaginária em pleno oceano metafórico.

É um tempo tão rico de metáforas – mas certamente não é o primeiro – que até o que não é metáfora quer às vezes receber o status retórico. Nesse caso, fiquemos atentos, pois tudo corre o risco de não querer dizer literalmente o que diz. "A gasolina vai subir dez por cento" seria uma metáfora? "Ministério público investiga suspeita de fraude" na verdade seria a transposição de quê? Quando o treinador fala "ficou parado, chuta o tornozelo dele", devemos pensar que ele só fez uma metáfora, sem nenhuma apologia à violência?

Por isso, o estudo e a observação dos textos, orais e escritos, de qualquer modalidade e registro são matéria rica para uma reflexão crítica. O leitor precisa estar atento e ser experto – isso mesmo, com X – para não ser envolvido pelas artimanhas do redator ou do orador. A não ser que assim o deseje, por opção consciente e deliberada.

Mostram os livros que o primeiro registro por escrito da palavra metáfora em nossa língua ocorreu no século XIV, mas o termo é de origem grega. Reconheçamos, pois, que durante esse tempo todo muito pouco deveria ter sobrado para a inventividade humana produzir metáforas.

Há quem ache que sim; há quem ache que não. Pelo sim, pelo não, cantemos a metáfora e, parodiando o compositor popular, entoemos a ela um hino de fogo e paixão: Você é luz, é raio, estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô...

Fiquem bem!

Fonte: publicado no Jornal de Vila Isabel (n. 327), em agosto de 2004.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Poesia (03)

QUESTÃO DE PONTUAÇÃO, de João Cabral

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca)

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política)

o homem só não aceita do homem
que use a pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive,
o inevitável ponto final.

Fonte: Poesia Completa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Crônica (03)

DUAS ESTRADAS ACADÊMICAS

Saber preparar profissionais capazes de transformar o aluno de nível médio em um usuário competente da linguagem é um dos principais objetivos do ensino de língua portuguesa nos cursos de Letras. Ser um usuário competente da linguagem não é apenas ser capaz de ler criticamente qualquer tipo de texto, mas também ter a capacidade de produzir textos dotados de tal significado e estrutura que seu eventual leitor os receba de modo natural, isto é, concentrando-se na mensagem transmitida, embora eventualmente possa mesmo deter-se sobre alguma construção ou escolha de palavras que lhe pareça passível de uma reflexão metalinguística. Todavia, ser um usuário competente da linguagem é igualmente saber explicar como ela funciona, e isto ultrapassa os limites mais específicos das atividades didático-pedagógicas voltadas para as aulas de redação e alcança um campo dito “minado”, qual seja a tarefa de apresentar tópicos de teoria gramatical direcionados para que se possa atingir aquele a que chamo, no início deste parágrafo, um dos principais objetivos do ensino de língua portuguesa – e agora não apenas nos cursos de Letras, mas em todas as salas de aula onde atue um professor de Português.

Vislumbro, neste ponto, duas estradas paralelas que levam ao mesmo destino, a uma cidade imaginária (Éden?), habitada por cidadãos conscientes, expressivos e críticos, construtores de sua cidadania plena a partir do direito que lhes foi assegurado de ter o domínio de sua própria língua nacional, com a autonomia e a faculdade de distinguir os usos que melhor lhes aprouverem.

Os futuros profissionais da área de Letras recebem um bilhete ao ingressar no curso superior, iniciam sua viagem e, durante todo o trajeto, se abastecem dos princípios norteadores de sua pretendida opção de ensinar Português. Na estrada que percorrem, param em oficinas sintagmáticas e paradigmáticas, veem outdoors estruturalistas e transformacionais, lojas funcionalistas de peças discursivas e até um minishopping com coesas e coerentes butiques pragmáticas. É uma rodovia razoavelmente conservada, nem sempre bem sinalizada, com pedágios e postos de fiscalização comandados por professores de Língua Portuguesa e de Linguística, vários entroncamentos que levam para outros destinos e placas indicativas de retorno a cada mil metros. Nem sempre os que conseguem terminar a jornada acham a cidade que procuram e muitos acabam chegando à conclusão de que talvez tivesse sido melhor consultar um mapa antes de começar o percurso.

Diz a lenda da região que vários deles procuram ajuda numa pequena mercearia de beira de estrada, que também serve de posto de informações. Lá, se dão conta de que, para chegar à cidade, ainda será preciso seguir pela outra estrada, a que chamam vicinal... Ficam sabendo inclusive que, ao longo da rodovia pela qual vieram, eles passaram por vários acessos a essa outra estrada, embora isso não lhes garantisse chegar ao lugar pretendido. Perguntam onde estão e se surpreendem quando lhes dizem que aquele lugarejo tem o nome de Burrosnágua – neologismo que teria sido criado em homenagem a seus fundadores, um casal analfabeto beberrão que ali se estabeleceu no início da década de setenta.

Há os que fixam residência nesse pequeno povoado, mas há também os que partem, enfim, em direção àquela estradinha secundária, obcecados em alcançar Éden. Estes ficam se indagando por que, quando lhes falavam dela, diziam: - Ah, sim. É uma estrada que já teve a sua importância, mas que, hoje em dia, está meio posta de lado. Falam que é mal assombrada... Até seu nome é estranho, Estrada do Sermão...

Nessa outra estrada há muitas curvas, pistas estreitas, poucos acostamentos, mas o asfalto é liso e são bem visíveis as faixas amarelas que indicam os pontos onde é permitida a ultrapassagem. As lojinhas que a margeiam vendem lembranças estilísticas e enfeites semântico-expressivos. Uma delas é especializada em discutíveis suvenires ortográficos e curiosos berrantes sintáticos de difícil colocação. Os postos de fiscalização parecem abandonados. Alguns dão a impressão de terem sido alvo de pichadores rodoviários. Na subida da serra, há uma fonte de água transparente e alguns vendedores de frutas da estação. Há várias placas que apontam em direção à rodovia principal, todas elas com um lembrete muito sugestivo: “Cuidado ao adentrar!”.

Retomo, então, o prumo desta prosa e busco nessa Estrada do Sermão o tema da correção gramatical, que é, para o profissional da área de Letras, a um só tempo, instigante e paradoxal. Digo desafiador, porque me reporto à inevitável cobrança de conhecimento acerca das noções de “certo” e “errado” de que é alvo todo especialista em questões de língua. E digo contraditório, pois transfiro para essa sua “decisão soberana” todo o drama de um juiz que, a cada instante, se vê enredado pelas tranças de regras e de intransigências legais acerca das adequações e inadequações desta ou daquela construção.

A norma culta é um enigma. Onde se esconde essa criatura tão decantada em enunciados de provas, programas de concursos e orientações para monografias? Será que ela ainda mora naquelas mesmas gramáticas conceituadas que há uma ou duas dezenas de anos vêm sendo acusadas de ranços retrógrados de uma língua que não se usa mais? Observo que, na verdade, essa tal norma culta já nem representa mais a sociedade culta porque esta já não fala nem escreve em língua culta.

Lembro também que, ao longo de sua formação, o futuro profissional da área de Letras terá de comprovar na prática que é possuidor de duas qualidades: detém o conhecimento crítico da teoria gramatical e exercita plena e satisfatoriamente esse conhecimento na produção de seus próprios textos acadêmicos, algo que é concreto e que precisa ser enfrentado, a partir de uma preocupação autoritária e conservadora.

Friso, ademais, a atenção que se deve dar aos registros normalmente inseridos em trabalhos de graduação e de pós-graduação: citações, ilustrações, notas bibliográficas e pessoais, etc. Costuma-se, para estes itens, seguir uma série de outras determinações. Muitas delas tomam, às vezes, ares de paranoia formal e, por esse motivo, se juntam harmoniosamente aos ataques psicóticos naturais daquelas regras obsessivas impostas pelos detentores da presumida sabedoria científica. Menos mal que já é possível constatar que, atualmente, a padronização dos trabalhos acadêmicos está merecendo um tratamento mais pedagógico do que carcerário, o que garante alguma tranquilidade para o estudante-autor.

Porém acrescento que, se no nível médio a gramática não pode mesmo ser enfocada unicamente como um estudo metalinguístico, exceto nas ocasiões explícitas de necessidade, o mesmo não se pode dizer em relação ao seu estudo nos cursos de Letras. Neste nível, é vital dar ao futuro professor de Português a ferramenta de sua atividade profissional, sob pena de se estar colocando no mercado de trabalho um especialista que não domina sua especialidade. Alguém que corrigirá redações sem saber fazê-las ou que cobrará regras que não explica e muito menos entende.

E, por fim, se este texto, que se aproxima de seu desfecho, puder servir para alguma coisa, que seja pelo menos para exemplificar uma modalidade de expressão dotada de “estruturas bem formadas”, adequadas gramaticalmente aos seus objetivos – caso explícito de metalinguagem, mesmo que artesanal e de valor literário discutível...

Para chegar a Éden, falta juntar as duas estradas, pavimentá-las por igual e percorrer o trajeto com a velha certeza de que a sinalização, as lojas e oficinas, os postos de serviço e de fiscalização constituem um patrimônio comum. Só assim Burrosnágua poderá desaparecer do mapa.

Fiquem bem!

Fonte: extraído, com adaptações, de A Produção de Monografias (Dialogarts, 1998).

sábado, 29 de agosto de 2009

Crônica (02)

QUE PALAVRA GRANDE! , de CCH

A pessoa está radiante porque acaba de conquistar uma grande vitória na vida ou porque se emociona com um triunfo no esporte, na política ou com o sucesso de um familiar. Passar num concurso, ver o filho receber um diploma, vibrar com o resultado de uma eleição, fazer o gol do título, comemorar o campeonato do seu time, a medalha de ouro da seleção.

Sentimentos podem ser mesmo a “disposição afetiva em relação a coisas de ordem moral ou intelectual”, como está no dicionário. Eles representam a capacidade de conhecer, perceber, apreciar. Expressam-se por meio de palavras e gestos nos momentos de tristeza, pesar, desgosto, mágoa. E também nas situações que envolvem afeto, afeição, amor; entusiasmo, emoção, alma.

Para expressar nossos sentimentos – e aqui vamos nos concentrar mais nas situações de extrema alegria –, não basta pular, gritar, chorar. Usamos também palavras, não é? Todas elas significam, rigorosamente, a mesma coisa: “Estou felicíssimo!” ou “Como é bom passar por isso!”. Esses significados, porém, dificilmente são ditos com tais palavras. Geralmente, proferimos interjeições, palavras soltas, pequenas locuções, frases curtas: Parabéns! Uau! Valeu! Maravilha! É isso aí! Não tem pra ninguém! É o maior! Fera! Beleza! Agora quero ver! Vão ter que me engolir!

Nessa hora, as palavras pronunciadas nem sempre identificam o nível social, educacional ou a faixa etária de quem transborda de emoção. De suas gargantas, sonoro e potente, o sinônimo de “Maravilha!” e de “Valeu!” pode ser um aumentativo de palavra. Isso mesmo: nossos tão conhecidos palavrões, identificados nos estudos linguísticos como “termos chulos” ou “palavras de baixo calão”.

O campeão olímpico grita no pódio da medalha de ouro: “– Campeão! Brasil! Porra!” Os microfones captam outros “sinônimos”. Outrora impublicáveis, os palavrões perderam muito do antigo cerceamento. Foram levados para dentro das casas pelas transmissões de tevê e pelos filmes em VHS e DVD. Jornais e revistas os promoveram como elementos naturais a serem reproduzidos nas entrevistas ou conversas com artistas, atletas e políticos.

Mas, afinal, que encanto e impacto têm os palavrões na língua falada? Na verdade, podemos dizer que todos eles representam de modo concreto uma associação entre seu significado de partida, seus valores figurados e seu significado pragmático.

Explico: qualquer listagem de palavrões reunirá vocábulos que direta ou indiretamente se referem a sexo. Os valores figurados que essas palavras assumem quando não dizem respeito a sexo são geralmente relacionados a situações afetivas ou emotivas – daí, sua proximidade metonímica ou metafórica com sexo. Seu significado pragmático gira em torno de duas bases principais, uma positiva, outra negativa. Ambas se apresentam sob uma destas quatro possibilidades: interjeições (como a do campeão olímpico), frases imperativas (geralmente iniciadas com a forma “Vai...”), vocativos (em geral com os possessivos “seu” ou “sua”) e autoinvocações (também com possessivos, “meu” ou “minha”).

Essa associação tem muito a ver com os componentes sombrios de parte da história da sexualidade humana, sobretudo pela pregação de que “sexo” e "pecado" eram palavras do mesmo campo semântico. Em consequência, os desejos e as realizações possuíam (e ainda possuem) algo mais do que perturbador. E, por isso, se o sexo sempre foi “mal visto, escondido e deturpado” por moralistas de toda a sorte em todos os tempos, o efeito histórico natural seria a proliferação de usos linguísticos considerados típicos de pessoas de “baixo nível", “sujas e vulgares", causando aversão, constrangimento, reação. Isso explica inclusive o disfarce praticado para encobrir sua utilização, como nos casos de cacilda, pô, cdf, pqp...

A sociedade e a linguagem, porém, seguem seu rumo. A liberação sexual dos anos 70 e 80 não tratou do sexo somente do ponto de vista cultural ou biológico. Ajudou a rever também os hábitos da expressão oral, ampliando o uso dos “palavrões”, agora não apenas sinônimos de ofensas e xingamentos. Continuam, é lógico, a funcionar como tal. Todos conhecemos formas muito mais fortes para substituir “Me deixe em paz!”, “Não gosto de você!” ou “Você é um velhaco!”. O interessante é verificar que hoje, quando alguém quer dizer “Como estou feliz!” ou “Que beleza!”, pode escolher (sem sentir?) um palavrão-interjeição.

Caraca!

Fiquem bem!

Fonte: publicado no Jornal de Vila Isabel (n. 328), em setembro de 2004.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Poesia (02)

POEMA, de Eugénio de Andrade

Escuta
Escuta
Tenho ainda uma coisa a dizer
Não é importante, eu sei
Não vai salvar o mundo
Não mudará a vida de ninguém
Mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
Ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?

Escuta
Não te demoro
É coisa pouca
Como a chuvinha que vem vindo devagar
São três, quatro palavras
Pouco mais
Palavras que te quero confiar
Para que não se extinga o seu lume
O seu lume breve
Palavras que muito amei
Que talvez ame ainda
Elas são a casa,
O sal da língua.

Fonte: transcrito da abertura do documentário Além-Mar, GNT, 1999.