TRÊS CRONISTAS CONVIDADOS: turma da UNESA, julho de 2010
O trabalho sobre crônicas linguísticas continua. Compartilho agora três textos produzidos por meus alunos do terceiro período de Língua Portuguesa da Universidade Estácio de Sá (turma de 2010-1 do campus Niterói). O tema era MORFOLOGIA do português, assunto de nosso curso.
Os 35 alunos fizeram a escolha das três crônicas abaixo, que vocês lerão na versão final, com os ajustes dados por mim conforme as orientações do curso.
Não deixem de mandar seus comentários!
E O GRITO SE FEZ CANTO (por Alana Carvalho Perez)
São duas da tarde e preciso escrever uma crônica sobre morfologia. Verdadeiramente não sei onde está o substantivo, o adjetivo, o advérbio, o verbo. Quero gritar! Não! Se gritasse, seria tida como louca pelos meus vizinhos. Afinal, ninguém em condições normais anda gritando por aí.
Talvez eu possa cantar. Sim, o verbo expressa uma ação. Mas o meu cantar, que nesse caso é um substantivo, também não agradaria ninguém. E assim é a vida. Se eu canto, posso não agradar, porque o meu canto não é dos melhores. De canto em canto percebo como as palavras são maleáveis e brincam conosco. Ou somos nós que brincamos com elas?
As palavras estão a nossa disposição para serem usadas, abusadas, reutilizadas. Tanto faz de que “caixinha” elas façam parte. Somos nós, os falantes, que vamos moldando e encaixando-as de acordo com nosso interesse. Não sei se estou ficando louca, ou se sou uma louca já há algum tempo. Pensando assim, vejo que adjetivo vira substantivo. O contrário também pode acontecer.
Volto aos tempos do colégio. A grande dúvida dos alunos era o uso do “por que”. Junto ou separado? Com acento ou sem acento? Vai saber?, dizíamos nós. E sofria o pobre professor que tentava em vão explicar que essa palavrinha tão usada, e comumente classificada como advérbio, também pode ser substantivo e até mais do que isso. “Não se esqueçam de que, nessa posição, ele deverá estar junto e com acento circunflexo” dizia o mestre, ou seja, é preciso explicar o porquê do por quê.
Lembro-me por um momento do grito e do canto. Não sei se grito ou se canto. Acalmo-me. Olho pela janela e vejo a Enseada de Botafogo, o mar, o céu. Tudo está calmo; a natureza não compartilha a minha aflição. Silêncio e tranquilidade. Vou então silenciar meu grito e cantarolar baixinho só para relaxar...
No final, tudo se resolve. Pelo menos é o que dizem. E como sou crente... creio.
CERTO OU ERRADO, EIS A QUESTÃO (por Juliana Gomes Miranda)
Estou aqui sentada em frente ao meu computador num dia chuvoso e frio tentando fazer a crônica que o professor de Língua Portuguesa III designou à turma. Não é nada fácil, mas começo a pensar... Penso em escrever sobre a ditongação dos verbos irregulares quando os conjugamos; mas tento milhões de vezes e não consigo escrever nada que seja tão sofisticado e completamente correto. E aí começa o meu problema, ou melhor, o nosso problema!
Escrevendo, acabo por me lembrar de como é comum ouvirmos pelas ruas expressões como “Nós vai amanhã lá”, “Vai dar pra mim ir sim”, “As criança lá da rua são terrível” ou então “Os pessoal tá esperando a gente pro almoço”. A nossa base de conhecimentos nos diz que a utilização de “vai” juntamente com o “nós” está morfossintaticamente incorreta, pois o certo seria “Nós vamos” já que sabemos que a desinência número-pessoal do verbo "ir" no presente do indicativo é –MOS. Também sabemos que o “mim” usado antes do verbo não pode ocupar a função de sujeito. Quanto aos artigos definidos, a regra manda que sejam flexionados de forma a determinar os substantivos com os quais se relacionam.
Esses erros são figurinhas repetidas que ferem a língua padrão e até mesmo nossos ouvidos. São desvios que decorrem da falta de estudo ou da falta de interesse em aprender? Erros de pessoas que não se importaram em estudar? Será mesmo?
Se alguém disser “Ele pediu pra mim digitar isso até amanhã!”, ainda assim não entendemos o que a pessoa quis dizer? Se alguém falar “Me dá dois pastel”, por mais que esteja fora do padrão, não entendemos, não sabemos o que significa? Então, por que esses desvios precisam ser tão repudiados? Por que precisam ser vistos apenas como vocabulário da escória? Ambas as formas, a condizente com a norma padrão, e a que não é, são verdades, são passíveis de entendimento. A diferença está nos fatores sociais, em como e onde são faladas! Enquanto nos meios mais cultos e elitizados a variante prestigiada é a que se encaixa na forma padrão do português, em lugares menos favorecidos, onde se encontram pessoas mais simples e menos escolarizadas, a variante de prestígio é exatamente aquela que renegamos e vemos como estigmatizada.
Isso não quer dizer que todos possamos e devamos falar sem nos importarmos com o que a linguagem padrão do português nos diz. Isso quer dizer que precisamos parar de valorizar as classificações “certo” e “errado”, porque toda língua possui suas variações e cada uma delas é prestigiada em determinados lugar e situação.
E então aqui estou eu, sentada à frente do computador num dia frio e chuvoso, olhando para a tela do Word com novos olhos, olhos de alguém que atinou para a realidade de sua visão estrita e discriminatória das formas de expressão de nossa língua.
NEOLOGISMOS (por Vera Lucia Costa de Paula Antunes)
No Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, consta que um neologismo acontece quando uma palavra usada numa acepção nova torna-se uma nova palavra a partir da primeira já existente. Esse tipo de mudança nos permite falar também em diacronia, fenômeno linguístico que se refere ao que acontece ao longo do tempo.
Observando os noticiários, nos deparamos com bons exemplos para isso. O nome “pizza”, que ainda não sofreu um processo de aportuguesamento gráfico, já foi totalmente abrasileirado e transformado em sua acepção. Hoje, “tudo acaba em pizza” não quer dizer necessariamente que iremos comer essa apetitosa iguaria de origem italiana. O povo diz essa frase quando quer se referir à idéia de que “tudo” acaba em “nada”, significando o “tudo” um monte de não cumprimentos da lei, e o “nada” uma festa, nenhuma punição.
Outro nome curioso é “valerioduto”, que é fruto da reunião do nome próprio Valério, personagem processado por desvio de dinheiro público, e do morfema “duto” que significa “cano que conduz resíduos, água, gás”, tais como aqueduto, gasoduto, por exemplo. A palavra “valerioduto”, que não existia na língua portuguesa, tem o significado de “caminho onde deságua ou circula dinheiro roubado”. Trata-se de uma “lavagem” de dinheiro, também em sentido figurado, pois jamais podemos tomar isto ao pé da letra.
Dessa maneira – hoje vou me deter só nesses dois exemplos – podemos observar alguns dos caminhos que a língua percorre para satisfazer a expressão de emoções e acontecimentos, de forma viva, criativa e flexível, ao bel-prazer dos falantes, num dado momento sincrônico. Ela se torce e contorce na sua morfologia, ganha aqui, perde ali, mas nunca deixa o falante sem solução.
Fonte: UNESA, campus Niterói, 2010.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Crônica (06)
TRÊS CRONISTAS CONVIDADOS: turma da UERJ, julho de 2010
De novo compartilho com vocês um trabalho sobre crônicas linguísticas. Desta feita, meus alunos do terceiro período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2010-1) deveriam escrever sobre um tema qualquer de SINTAXE do português, assunto de nosso curso.
A turma de 39 alunos selecionou as três crônicas abaixo. Elas estão na versão final, com pequenos ajustes, de acordo com as orientações que dei para o fechamento do texto.
Espero que vocês apreciem... e comentem!
TRAFEGANDO ENTRE VERBOS: UMA QUESTÃO DE TRANSITIVIDADE (por Felipe Moraes Pereira)
Quando achamos que já vimos de tudo e que nada, mas absolutamente nada mesmo, pode ser novo quanto à aquisição de conhecimentos sobre um assunto já estudado no âmbito acadêmico, vem um professor e nos mostra que estamos errados. Isso recentemente aconteceu comigo e minha turma de graduação quando fomos solicitados a refletir sobre a transitividade verbal. Pensei: para que estudar isso se já sabemos tudo?
Foi então que nos deparamos com o tão assustador “complemento relativo”, estudado nas gramáticas dos professores José Carlos de Azeredo e Rocha Lima, entre outras que também focalizam o assunto. Mais tarde, porém, vimos que ele nem era tão assustador assim. Na verdade, é a maneira mais aceitável de se entender que o termo “objeto indireto” (OI) não poderia ser atribuído a todos os complementos verbais antecedidos por uma preposição.
Na oração “Maria gosta de Ricardo”, não podemos dizer, por exemplo, que “de Ricardo” é OI, pois entende-se por objeto indireto o beneficiário da ação denotada pelo verbo, do mesmo modo que, para ser classificado assim, deveria permitir a sua substituição pelo pronome oblíquo átono “lhe”. No entanto, não podemos produzir essa oração da seguinte maneira: “Maria gosta-lhe”. Logo, acho mais plausível deixar o conceito da NGB de lado e seguir o que dizem os autores que citei acima.
Ainda nessa linha de pensamento, podemos observar mais um caso em que a NGB não dá conta da classificação mais adequada ao termo. Para entendermos melhor, vejamos uma outra oração: “Joaquim foi à praia”. A NGB classifica o termo preposicionado como adjunto adverbial, mas por quê? Segundo ela própria, o adjunto adverbial é um termo acessório na oração. Só que, no caso em questão, podemos observar que há uma relação de coocorrência sintática entre o verbo e o complemento. Por isso, para Rocha Lima (entre outros), esse termo é um termo obrigatório para a oração fazer sentido; é o complemento circunstancial, que seria o determinante do verbo ou a expressão que indica uma circunstância qualquer.
A partir dessa análise, fica a dúvida: seguir a NGB ou aceitar essa outra orientação? Bem, eu já fiz a minha escolha. Sigo esse outro caminho, por entendê-lo como uma questão de conceito e aplicabilidade.
QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO (por Jhone Carlos da Cruz)
É muito comum encontrar, entre os nativos de língua portuguesa, aqueles que têm dificuldade na construção de períodos e, no amontoado de regras e prescrições sintático-gramaticais, destaca-se a correta colocação de sinais de pontuação.
Certa feita, convidada para ir à recepção de um amigo que voltava do hospital, minha antiga professora da escola municipal em que estudei em São Gonçalo surpreendeu-se com um cartaz que dizia: “Sem seja bem-vindo”. O estranhamento identificado pela professora é totalmente plausível, visto que o uso da preposição 'sem', que é utilizada contrariamente a 'com', estava totalmente impróprio para um cartaz de boas vindas da recepção de alguém que estivera internado num hospital e de fato precisava do carinho e atenção dos amigos e família.
Ao analisar, com cautela, a construção “sem (que) seja bem-vindo”, a docente entendeu que a intenção do autor do cartaz jamais fora destratar o amigo doente, apelidado de Sem pelos amigos, fato que ela desconhecia. Na verdade, a construção incoerente se deu pelo esquecimento da vírgula após a forma carinhosa de chamamento do amigo (“Sem”), que transformaria a tal conjunção em um vocativo e, com isso, permitiria o perfeito entendimento do período: “Sem, seja bem-vindo”.
Esse tipo de má construção de frases causada pela colocação incorreta dos sinais de pontuação é corrente nos textos em geral. Também é frequente encontrar tais desvios nos anúncios comerciais, placas indicativas de estradas e até mesmo em textos acadêmicos e jornalísticos.
Exemplo disto é o seguinte dizer de uma placa fixada em uma estrada: “VENHA CONHECER BONITO O LUGAR MAIS LINDO DO MATO GROSSO DO SUL”. Ao iniciar a análise da oração, qualquer leitor se perguntaria qual é o lugar mais lindo do MS e o porquê da exigência de estar 'bonito' para conhecê-lo. Trata-se, na verdade, de mais um caso de não colocação do sinal de pausa (pontuação), aqui após o objeto direto 'BONITO'. Isso revelaria que ‘O LUGAR MAIS LINDO DO MUNDO’, nesse caso, é um aposto caracterizador do objeto direto e ‘BONITO’ não é um adjetivo funcionando como predicativo do sujeito. Afinal, como diz o cartaz, Bonito é o lugar mais lindo do Mato Grosso do Sul.
Evitar casos de desobediência sintática faz parte de um universo a ser estudado e dominado pelo nativo de língua portuguesa. Os vestibulares e concursos estão abarrotados de questões e pegadinhas desse tipo, e para não ficar para trás o candidato deve estar atento às normas e detalhes de cada construção de frase para que não seja prejudicado na hora da elaboração da redação e da resolução de questões nesses exames.
ODISSEIA PRONOMINAL (por Pedro Passidomo)
Engraçado como se vê, cada dia mais, o descaso das pessoas quanto ao uso dos pronomes oblíquos. Pensando nisso, sentei em uma lanchonete grande aqui no Rio de Janeiro, fazendo questão de me colocar bem perto do balcão, pois queria observar claramente o que a atendente falava.
Entre pratos sujos de molho, refrigerante derramado pelo chão, procurava prestar atenção ao que ela dizia. De repente, a moça me surpreendeu, proferindo uma bela frase: - Senhor, pode aguardar na mesa que nossos atendentes já vão entregá-lo a sua refeição.
Como assim!? Alguém treinado para utilizar a língua, que deve estar pronto para dominá-la perfeitamente, como pode cometer um suicídio linguístico desses? A vontade foi de cortar-me os pulsos (com muita ênfase no processo verbal e no adjunto adnominal). A indignação foi tanta que imaginei a cena. A pobre menina levando seu cliente amarrado e encapuzado, por entre chapas ferventes e óleos escaldantes, até chegarem ao fundo escuro da dispensa. Ela repousa o rapaz em frente a uma porta e lhe diz ao pé do ouvido com um sotaque russo e uma voz rouca, como um ruído metálico: - Conheça agora nosso mestre.
Uma porta se abre e a imagem um tanto ou quanto pitoresca se revela. É ele, o grande rei dos reis, o senhor dos sanduíches, o Peitudão. Um robusto sanduíche, com dois hambúrgueres, duas salsichas, queijo cheddar, bacon, salada, sem faltar o pão gigante com gergelim.
Graças a Deus, fui salvo no clímax dessa história. Voltando porém para a fala da atendente, procurei entender o que a moça dissera. Tudo bem, posso até aceitar que ela não foi contratada para entender que não se usa o pronome oblíquo “o” para objetos indiretos. Compreensível que, entre os oblíquos e os retos, alguns os conheçam somente de "ouvir falar". Mesmo com esses “poréns”, a pérola da moça não fez bem ao meu espírito morfossintático aguçado.
Passada a tragédia auditiva que acabara de presenciar, preferi engolir rápido o pouco de batata que ainda restava e sair dali o mais rápido possivel. Daquela situação ficou bastante clara uma coisa para mim: se os objetos não estão em seu lugar, é melhor não tentar arrumá-los.
Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2010.
De novo compartilho com vocês um trabalho sobre crônicas linguísticas. Desta feita, meus alunos do terceiro período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2010-1) deveriam escrever sobre um tema qualquer de SINTAXE do português, assunto de nosso curso.
A turma de 39 alunos selecionou as três crônicas abaixo. Elas estão na versão final, com pequenos ajustes, de acordo com as orientações que dei para o fechamento do texto.
Espero que vocês apreciem... e comentem!
TRAFEGANDO ENTRE VERBOS: UMA QUESTÃO DE TRANSITIVIDADE (por Felipe Moraes Pereira)
Quando achamos que já vimos de tudo e que nada, mas absolutamente nada mesmo, pode ser novo quanto à aquisição de conhecimentos sobre um assunto já estudado no âmbito acadêmico, vem um professor e nos mostra que estamos errados. Isso recentemente aconteceu comigo e minha turma de graduação quando fomos solicitados a refletir sobre a transitividade verbal. Pensei: para que estudar isso se já sabemos tudo?
Foi então que nos deparamos com o tão assustador “complemento relativo”, estudado nas gramáticas dos professores José Carlos de Azeredo e Rocha Lima, entre outras que também focalizam o assunto. Mais tarde, porém, vimos que ele nem era tão assustador assim. Na verdade, é a maneira mais aceitável de se entender que o termo “objeto indireto” (OI) não poderia ser atribuído a todos os complementos verbais antecedidos por uma preposição.
Na oração “Maria gosta de Ricardo”, não podemos dizer, por exemplo, que “de Ricardo” é OI, pois entende-se por objeto indireto o beneficiário da ação denotada pelo verbo, do mesmo modo que, para ser classificado assim, deveria permitir a sua substituição pelo pronome oblíquo átono “lhe”. No entanto, não podemos produzir essa oração da seguinte maneira: “Maria gosta-lhe”. Logo, acho mais plausível deixar o conceito da NGB de lado e seguir o que dizem os autores que citei acima.
Ainda nessa linha de pensamento, podemos observar mais um caso em que a NGB não dá conta da classificação mais adequada ao termo. Para entendermos melhor, vejamos uma outra oração: “Joaquim foi à praia”. A NGB classifica o termo preposicionado como adjunto adverbial, mas por quê? Segundo ela própria, o adjunto adverbial é um termo acessório na oração. Só que, no caso em questão, podemos observar que há uma relação de coocorrência sintática entre o verbo e o complemento. Por isso, para Rocha Lima (entre outros), esse termo é um termo obrigatório para a oração fazer sentido; é o complemento circunstancial, que seria o determinante do verbo ou a expressão que indica uma circunstância qualquer.
A partir dessa análise, fica a dúvida: seguir a NGB ou aceitar essa outra orientação? Bem, eu já fiz a minha escolha. Sigo esse outro caminho, por entendê-lo como uma questão de conceito e aplicabilidade.
QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO (por Jhone Carlos da Cruz)
É muito comum encontrar, entre os nativos de língua portuguesa, aqueles que têm dificuldade na construção de períodos e, no amontoado de regras e prescrições sintático-gramaticais, destaca-se a correta colocação de sinais de pontuação.
Certa feita, convidada para ir à recepção de um amigo que voltava do hospital, minha antiga professora da escola municipal em que estudei em São Gonçalo surpreendeu-se com um cartaz que dizia: “Sem seja bem-vindo”. O estranhamento identificado pela professora é totalmente plausível, visto que o uso da preposição 'sem', que é utilizada contrariamente a 'com', estava totalmente impróprio para um cartaz de boas vindas da recepção de alguém que estivera internado num hospital e de fato precisava do carinho e atenção dos amigos e família.
Ao analisar, com cautela, a construção “sem (que) seja bem-vindo”, a docente entendeu que a intenção do autor do cartaz jamais fora destratar o amigo doente, apelidado de Sem pelos amigos, fato que ela desconhecia. Na verdade, a construção incoerente se deu pelo esquecimento da vírgula após a forma carinhosa de chamamento do amigo (“Sem”), que transformaria a tal conjunção em um vocativo e, com isso, permitiria o perfeito entendimento do período: “Sem, seja bem-vindo”.
Esse tipo de má construção de frases causada pela colocação incorreta dos sinais de pontuação é corrente nos textos em geral. Também é frequente encontrar tais desvios nos anúncios comerciais, placas indicativas de estradas e até mesmo em textos acadêmicos e jornalísticos.
Exemplo disto é o seguinte dizer de uma placa fixada em uma estrada: “VENHA CONHECER BONITO O LUGAR MAIS LINDO DO MATO GROSSO DO SUL”. Ao iniciar a análise da oração, qualquer leitor se perguntaria qual é o lugar mais lindo do MS e o porquê da exigência de estar 'bonito' para conhecê-lo. Trata-se, na verdade, de mais um caso de não colocação do sinal de pausa (pontuação), aqui após o objeto direto 'BONITO'. Isso revelaria que ‘O LUGAR MAIS LINDO DO MUNDO’, nesse caso, é um aposto caracterizador do objeto direto e ‘BONITO’ não é um adjetivo funcionando como predicativo do sujeito. Afinal, como diz o cartaz, Bonito é o lugar mais lindo do Mato Grosso do Sul.
Evitar casos de desobediência sintática faz parte de um universo a ser estudado e dominado pelo nativo de língua portuguesa. Os vestibulares e concursos estão abarrotados de questões e pegadinhas desse tipo, e para não ficar para trás o candidato deve estar atento às normas e detalhes de cada construção de frase para que não seja prejudicado na hora da elaboração da redação e da resolução de questões nesses exames.
ODISSEIA PRONOMINAL (por Pedro Passidomo)
Engraçado como se vê, cada dia mais, o descaso das pessoas quanto ao uso dos pronomes oblíquos. Pensando nisso, sentei em uma lanchonete grande aqui no Rio de Janeiro, fazendo questão de me colocar bem perto do balcão, pois queria observar claramente o que a atendente falava.
Entre pratos sujos de molho, refrigerante derramado pelo chão, procurava prestar atenção ao que ela dizia. De repente, a moça me surpreendeu, proferindo uma bela frase: - Senhor, pode aguardar na mesa que nossos atendentes já vão entregá-lo a sua refeição.
Como assim!? Alguém treinado para utilizar a língua, que deve estar pronto para dominá-la perfeitamente, como pode cometer um suicídio linguístico desses? A vontade foi de cortar-me os pulsos (com muita ênfase no processo verbal e no adjunto adnominal). A indignação foi tanta que imaginei a cena. A pobre menina levando seu cliente amarrado e encapuzado, por entre chapas ferventes e óleos escaldantes, até chegarem ao fundo escuro da dispensa. Ela repousa o rapaz em frente a uma porta e lhe diz ao pé do ouvido com um sotaque russo e uma voz rouca, como um ruído metálico: - Conheça agora nosso mestre.
Uma porta se abre e a imagem um tanto ou quanto pitoresca se revela. É ele, o grande rei dos reis, o senhor dos sanduíches, o Peitudão. Um robusto sanduíche, com dois hambúrgueres, duas salsichas, queijo cheddar, bacon, salada, sem faltar o pão gigante com gergelim.
Graças a Deus, fui salvo no clímax dessa história. Voltando porém para a fala da atendente, procurei entender o que a moça dissera. Tudo bem, posso até aceitar que ela não foi contratada para entender que não se usa o pronome oblíquo “o” para objetos indiretos. Compreensível que, entre os oblíquos e os retos, alguns os conheçam somente de "ouvir falar". Mesmo com esses “poréns”, a pérola da moça não fez bem ao meu espírito morfossintático aguçado.
Passada a tragédia auditiva que acabara de presenciar, preferi engolir rápido o pouco de batata que ainda restava e sair dali o mais rápido possivel. Daquela situação ficou bastante clara uma coisa para mim: se os objetos não estão em seu lugar, é melhor não tentar arrumá-los.
Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2010.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Poesia (04)
PONTO FINAL , de Affonso Romano de Sant'Anna
Eu, ponto de observação
eu, ponto de interrogação
eu, ponto.
Discurso sem conclusão.
Fonte: Poesia Reunida 1965-1999.
Eu, ponto de observação
eu, ponto de interrogação
eu, ponto.
Discurso sem conclusão.
Fonte: Poesia Reunida 1965-1999.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Crônica (05)
TRÊS CRONISTAS CONVIDADOS: turma da UERJ, janeiro de 2010
Compartilho com vocês um trabalho que propus aos meus alunos do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2009-2). Eles deveriam redigir uma crônica linguística sobre um tema qualquer de MORFOLOGIA do português, assunto de nosso curso. O limite era uma página.
As três crônicas publicadas abaixo foram selecionadas pela turma de 29 alunos para reprodução neste blogue. Estão na versão final, ajustada após pequenos retoques, seguindo as orientações que dei para a redação do texto definitivo.
Leiam... aproveitem... comentem!
O XARARÁ DO XERERÉU (por Ariane Oliveira de Sousa)
A caminhada acadêmica é sempre uma caixinha de surpresas. Durante os primeiros anos da graduação, há momentos vividos em sala de aula que são especialmente marcantes. Eu os divido em duas principais categorias: aqueles em que seu “vasto” conhecimento de ensino médio é totalmente desconstruído e você fica com uma sensação de Maysa (“meu mundo caiu”), e aqueles em que você se surpreende e fala “nossa, como não pensei nisso antes?!”. Nessa minha não tão longa jornada de quatro períodos da graduação, já passei por muitos desses episódios, mas há um que merece destaque.
No segundo período, certa professora de linguística, que já não precisa de muito esforço para marcar qualquer aluno, apresentou a seguinte frase para que fizéssemos a análise sintática: O xararativo xarará do xereréu xararou o xiriri do xororó xararativamente. Num primeiro momento, pensamos “Pronto, enlouqueci de vez!”, mas depois percebemos certas coisas para as quais, até então, não tínhamos dado conta.
Ora, como saber a que classe gramatical pertencia e que função exercia a palavra “xarará” se ela não existe no léxico da língua portuguesa? Mesmo sem ter estudado estrutura e formação das palavras, fomos capazes de responder a questões como estas: “xararativo” é adjetivo; “xararou” é verbo; “xararativamente” é advérbio; “xarará”, “xereréu”, “xiriri” e “xororó” são substantivos. Éramos gênios da morfossintaxe! Tudo bem... nem tanto... eu sei. O importante é que, mesmo sem conhecimentos morfológicos mais específicos, conseguimos fazer a análise, principalmente por sermos falantes nativos da língua portuguesa. Fomos capazes de supor que do verbo “xararar” poderia surgir o adjetivo “xararativo”, que daria origem ao advérbio “xararativamente”, por exemplo.
Afinal, como isso acontece? Agradeça aos morfemas de nossa língua! Naquela frase, voltamos nossa atenção para os sufixos, que têm a capacidade de modificar o significado do radical a que são acrescidos. Uma de suas principais características é mudar a classe gramatical das palavras, pois também podemos dizer que eles contêm uma significação externa. O sufixo -(t)ivo transforma um verbo em adjetivo; -mente, um adjetivo em advérbio de modo. Além disso, a posição que as palavras ocupam na oração também pode ser um indicativo de sua classe gramatical. Dissemos que “xarará” é substantivo, pois funciona como sujeito da oração. Do contrário, poderia ser também um verbo conjugado no futuro do presente do indicativo, com desinência modo-temporal -ra tônica e vogal temática -a. Concluímos, então, que são os morfemas os principais culpados pela formação de novas palavras, mantendo e renovando o léxico de nossa língua.
E assim seguimos a nossa caminhada. Mais experientes? Xararativamente! Mas sempre esperando novas surpresas xararativas. Afinal, se não fosse assim, que graça teria?
DESABAFANDO SOBRE O CASO DA EPONÍMIA (por Felipe Araujo Gomes)
No começo de 2009, uma polêmica foi criada em torno do uso de gírias gays por uma das personagens do cartunista Maurício de Souza, na quarta edição em quadrinhos de “Turma da Mônica Jovem”. As expressões “tô passada!”, “a louca!”, “abafa o caso!”, “se joga!”, “dar o truque”, “uó” foram ditas por Denise – jovem descolada, influenciada pela cultura clubber, antenada com o mundo atual – e provocaram a desaprovação de alguns leitores e de parte da crítica.
Conquanto a adoção de características ou temáticas do universo gay acarrete discussões passionais no âmbito da literatura infantil, em outros seguimentos da arte e da mídia, a cultura LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) conquistou espaço e força ao longo das últimas décadas. O escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996) imprimiu na juventude de toda uma época corajosas concepções sobre a sociedade de seu tempo, utilizando em seus textos uma linguagem ousada e original, impregnada de neologismos e gírias, para falar abertamente sobre homossexualidade, sexo livre, drogas, solidão. Ainda hoje as expressões criadas por Caio são correntes e conhecidas por seus leitores dos mais variados tipos. Entre as mais reproduzidas estão “lasanha”, para designar rapaz muito bonito, e “jacira”, para se referir a homossexual escrachado, de baixo nível social.
Como “jacira”, algumas gírias se formam a partir da conversão de substantivos próprios em substantivos comuns. “débora kerr” e “betty faria” são exemplos desse processo. Talvez o mais disseminado de todos seja a expressão “elza”, significando furto. Segundo o jornalista Victor Ângelo, autor de Aurélia – A Dicionária da Língua Afiada, dicionário que traz 1.300 verbetes usados pelo universo gay, a expressão “dar a elza” teria origem num antigo boato corrido entre travestis cariocas afirmando ser a cantora Elza Soares uma cleptomaníaca “glamourosa” (num estilo Winona Ryder)! Esse processo de “coisificação” através do qual nomes de pessoas passam a ser tomados como substantivos comuns, que denominam significações sem palavras próprias que as expressem ou às quais se deseja atribuir novos significantes, trata-se de um neologismo semântico e é conhecido como eponímia. Cabe ressaltar que os epônimos não são exclusividade do vocabulário LGBT. O substantivo “gari”, por exemplo, é uma homenagem ao francês Aleixo Gary, empresário que se destacou na história da limpeza da cidade do Rio de Janeiro, no século XIX, bem antes dos “babados” de nossa época.
Entretanto, antes de provocarem polêmicas ou caírem no gosto popular, as gírias gays praticadas pela personagem Denise existem há mais tempo do que se imagina (ainda que ninguém desconfiasse disso na década de 1990) e, hoje, além de enriquecerem com muito humor nossa forma de nos comunicarmos, são interessantes exemplos para o estudo dos processos de formação de palavras.
GERUNDIANDO (por Jacqueline dos Santos Fernandes)
“Vou estar enviando”, “Vou estar retornando”, “Vamos estar registrando”. Provavelmente, você já ouviu essas pérolas de algum operador de telemarketing.
Se algum deles lhe falar que vai estar providenciando o seu pedido, esqueça! Ou espere deitado. Hoje em dia, ninguém envia mais nada, vão sempre estar enviando. Ninguém retorna sua ligação, vão sempre estar retornando. Ninguém registra nada, vão sempre estar registrando.
Gerundismo é o nome dado ao uso indiscriminado do gerúndio para indicar uma ação momentânea. Por conta disso, há quem queira abolir da língua portuguesa o gerúndio, como aconteceu com o governador do Distrito Federal, que “demitiu” o gerúndio de todos os órgãos do seu Estado. Enquanto isso, escolas sem infraestrutura, sem alimentação para as crianças são só pequenos detalhes da realidade de sua cidade – temas certamente menos importantes do que sua cruzada contra o gerundismo.
Relembrando: gerúndio é a forma nominal do verbo terminada em “ndo” que indica continuidade da ação: cantando, beijando, abraçando, escrevendo, gerundiando.
Dizem que o gerundismo na nossa língua foi importado da língua inglesa. Teria surgido de traduções mal feitas de frases como “We will be sending”, que acabou virando “Nós vamos estar enviando”. O gerundismo, dessa forma, não passaria de um mero modismo para inglês ver. Contudo, o Ministério da Saúde adverte: “A diferença entre remédio e veneno é a dose”. E o mal da superdosagem não é culpa da dose, porém de quem faz mau uso dela e exagera.
“Caminhando e cantando”, o gerúndio continua vivo, resiste! É enorme a lista dos seus usos aceitáveis: concessivo, explicativo, modal, causal, temporal, condicional. Como cantou Gilberto Gil, o bom gerúndio, como o Rio de Janeiro, “continua lindo, continua sendo...”.
Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2009.
Compartilho com vocês um trabalho que propus aos meus alunos do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2009-2). Eles deveriam redigir uma crônica linguística sobre um tema qualquer de MORFOLOGIA do português, assunto de nosso curso. O limite era uma página.
As três crônicas publicadas abaixo foram selecionadas pela turma de 29 alunos para reprodução neste blogue. Estão na versão final, ajustada após pequenos retoques, seguindo as orientações que dei para a redação do texto definitivo.
Leiam... aproveitem... comentem!
O XARARÁ DO XERERÉU (por Ariane Oliveira de Sousa)
A caminhada acadêmica é sempre uma caixinha de surpresas. Durante os primeiros anos da graduação, há momentos vividos em sala de aula que são especialmente marcantes. Eu os divido em duas principais categorias: aqueles em que seu “vasto” conhecimento de ensino médio é totalmente desconstruído e você fica com uma sensação de Maysa (“meu mundo caiu”), e aqueles em que você se surpreende e fala “nossa, como não pensei nisso antes?!”. Nessa minha não tão longa jornada de quatro períodos da graduação, já passei por muitos desses episódios, mas há um que merece destaque.
No segundo período, certa professora de linguística, que já não precisa de muito esforço para marcar qualquer aluno, apresentou a seguinte frase para que fizéssemos a análise sintática: O xararativo xarará do xereréu xararou o xiriri do xororó xararativamente. Num primeiro momento, pensamos “Pronto, enlouqueci de vez!”, mas depois percebemos certas coisas para as quais, até então, não tínhamos dado conta.
Ora, como saber a que classe gramatical pertencia e que função exercia a palavra “xarará” se ela não existe no léxico da língua portuguesa? Mesmo sem ter estudado estrutura e formação das palavras, fomos capazes de responder a questões como estas: “xararativo” é adjetivo; “xararou” é verbo; “xararativamente” é advérbio; “xarará”, “xereréu”, “xiriri” e “xororó” são substantivos. Éramos gênios da morfossintaxe! Tudo bem... nem tanto... eu sei. O importante é que, mesmo sem conhecimentos morfológicos mais específicos, conseguimos fazer a análise, principalmente por sermos falantes nativos da língua portuguesa. Fomos capazes de supor que do verbo “xararar” poderia surgir o adjetivo “xararativo”, que daria origem ao advérbio “xararativamente”, por exemplo.
Afinal, como isso acontece? Agradeça aos morfemas de nossa língua! Naquela frase, voltamos nossa atenção para os sufixos, que têm a capacidade de modificar o significado do radical a que são acrescidos. Uma de suas principais características é mudar a classe gramatical das palavras, pois também podemos dizer que eles contêm uma significação externa. O sufixo -(t)ivo transforma um verbo em adjetivo; -mente, um adjetivo em advérbio de modo. Além disso, a posição que as palavras ocupam na oração também pode ser um indicativo de sua classe gramatical. Dissemos que “xarará” é substantivo, pois funciona como sujeito da oração. Do contrário, poderia ser também um verbo conjugado no futuro do presente do indicativo, com desinência modo-temporal -ra tônica e vogal temática -a. Concluímos, então, que são os morfemas os principais culpados pela formação de novas palavras, mantendo e renovando o léxico de nossa língua.
E assim seguimos a nossa caminhada. Mais experientes? Xararativamente! Mas sempre esperando novas surpresas xararativas. Afinal, se não fosse assim, que graça teria?
DESABAFANDO SOBRE O CASO DA EPONÍMIA (por Felipe Araujo Gomes)
No começo de 2009, uma polêmica foi criada em torno do uso de gírias gays por uma das personagens do cartunista Maurício de Souza, na quarta edição em quadrinhos de “Turma da Mônica Jovem”. As expressões “tô passada!”, “a louca!”, “abafa o caso!”, “se joga!”, “dar o truque”, “uó” foram ditas por Denise – jovem descolada, influenciada pela cultura clubber, antenada com o mundo atual – e provocaram a desaprovação de alguns leitores e de parte da crítica.
Conquanto a adoção de características ou temáticas do universo gay acarrete discussões passionais no âmbito da literatura infantil, em outros seguimentos da arte e da mídia, a cultura LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) conquistou espaço e força ao longo das últimas décadas. O escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996) imprimiu na juventude de toda uma época corajosas concepções sobre a sociedade de seu tempo, utilizando em seus textos uma linguagem ousada e original, impregnada de neologismos e gírias, para falar abertamente sobre homossexualidade, sexo livre, drogas, solidão. Ainda hoje as expressões criadas por Caio são correntes e conhecidas por seus leitores dos mais variados tipos. Entre as mais reproduzidas estão “lasanha”, para designar rapaz muito bonito, e “jacira”, para se referir a homossexual escrachado, de baixo nível social.
Como “jacira”, algumas gírias se formam a partir da conversão de substantivos próprios em substantivos comuns. “débora kerr” e “betty faria” são exemplos desse processo. Talvez o mais disseminado de todos seja a expressão “elza”, significando furto. Segundo o jornalista Victor Ângelo, autor de Aurélia – A Dicionária da Língua Afiada, dicionário que traz 1.300 verbetes usados pelo universo gay, a expressão “dar a elza” teria origem num antigo boato corrido entre travestis cariocas afirmando ser a cantora Elza Soares uma cleptomaníaca “glamourosa” (num estilo Winona Ryder)! Esse processo de “coisificação” através do qual nomes de pessoas passam a ser tomados como substantivos comuns, que denominam significações sem palavras próprias que as expressem ou às quais se deseja atribuir novos significantes, trata-se de um neologismo semântico e é conhecido como eponímia. Cabe ressaltar que os epônimos não são exclusividade do vocabulário LGBT. O substantivo “gari”, por exemplo, é uma homenagem ao francês Aleixo Gary, empresário que se destacou na história da limpeza da cidade do Rio de Janeiro, no século XIX, bem antes dos “babados” de nossa época.
Entretanto, antes de provocarem polêmicas ou caírem no gosto popular, as gírias gays praticadas pela personagem Denise existem há mais tempo do que se imagina (ainda que ninguém desconfiasse disso na década de 1990) e, hoje, além de enriquecerem com muito humor nossa forma de nos comunicarmos, são interessantes exemplos para o estudo dos processos de formação de palavras.
GERUNDIANDO (por Jacqueline dos Santos Fernandes)
“Vou estar enviando”, “Vou estar retornando”, “Vamos estar registrando”. Provavelmente, você já ouviu essas pérolas de algum operador de telemarketing.
Se algum deles lhe falar que vai estar providenciando o seu pedido, esqueça! Ou espere deitado. Hoje em dia, ninguém envia mais nada, vão sempre estar enviando. Ninguém retorna sua ligação, vão sempre estar retornando. Ninguém registra nada, vão sempre estar registrando.
Gerundismo é o nome dado ao uso indiscriminado do gerúndio para indicar uma ação momentânea. Por conta disso, há quem queira abolir da língua portuguesa o gerúndio, como aconteceu com o governador do Distrito Federal, que “demitiu” o gerúndio de todos os órgãos do seu Estado. Enquanto isso, escolas sem infraestrutura, sem alimentação para as crianças são só pequenos detalhes da realidade de sua cidade – temas certamente menos importantes do que sua cruzada contra o gerundismo.
Relembrando: gerúndio é a forma nominal do verbo terminada em “ndo” que indica continuidade da ação: cantando, beijando, abraçando, escrevendo, gerundiando.
Dizem que o gerundismo na nossa língua foi importado da língua inglesa. Teria surgido de traduções mal feitas de frases como “We will be sending”, que acabou virando “Nós vamos estar enviando”. O gerundismo, dessa forma, não passaria de um mero modismo para inglês ver. Contudo, o Ministério da Saúde adverte: “A diferença entre remédio e veneno é a dose”. E o mal da superdosagem não é culpa da dose, porém de quem faz mau uso dela e exagera.
“Caminhando e cantando”, o gerúndio continua vivo, resiste! É enorme a lista dos seus usos aceitáveis: concessivo, explicativo, modal, causal, temporal, condicional. Como cantou Gilberto Gil, o bom gerúndio, como o Rio de Janeiro, “continua lindo, continua sendo...”.
Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2009.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Dica de Ortografia (03)
Dica de Ortografia (02)
.jpg)
EMPREGO DO HÍFEN (II)
Eis a tabela de emprego do hífen em palavras começadas por ANTEPOSITIVOS (também chamados prefixoides ou pseudoprefixos). Está atualizada pelo que diz o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras.
É a mesma que acompanha a quinta edição do livro "A Nova Ortografia". Se o seu livro é anterior, basta substituir esta tabela.
CLIQUE NA IMAGEM E IMPRIMA.
Dica de Ortografia (01)
.jpg)
EMPREGO DO HÍFEN (I)
Eis a tabela de emprego do hífen em palavras começadas por PREFIXO. Está atualizada pelo que diz o Vocabulário Oortográfico da Academia Brasileira de Letras.
É a mesma que acompanha a quinta edição do livro "A Nova Ortografia". Se o seu livro é anterior, basta substituir esta tabela.
Eis a tabela de emprego do hífen em palavras começadas por PREFIXO. Está atualizada pelo que diz o Vocabulário Oortográfico da Academia Brasileira de Letras.
É a mesma que acompanha a quinta edição do livro "A Nova Ortografia". Se o seu livro é anterior, basta substituir esta tabela.
CLIQUE NA IMAGEM E IMPRIMA.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Crônica (04)
É TEMPO DE METÁFORAS
Que a linguagem nos oferece motivos de sobra para discussões e especulações não é novidade para ninguém. Vivemos em torno dessa inesgotável forma de expressão, a um tempo ilimitada para nos servir em nossa necessidade de dizer e de não dizer o que pensamos e queremos, mas tam-bém – paradoxal que seja – insuficiente para dar conta de toda a complexidade de nossa natureza de seres pensantes instáveis, contraditórios e eternamente insatisfeitos – ou não.
Uma lata existe para conter algo. Mas, quando o poeta diz "lata", pode estar querendo dizer o incontível. Gilberto Gil, em versos simples (seriam simples?), refere-se a uma figura de linguagem velha conhecida, dessas que nos acompanham em nossas tentativas de comunicação com nossos semelhantes. Eu, como ele, referimo-nos à metáfora...
Abrindo qualquer jornal, de qualquer dia, lá está ela – viva, presente, divulgada. Pode ser uma metaforazinha corriqueira, tipo "chuva de pedras" (numa notícia que fala de jovens palestinos atirando pedras em escavadeira israelense), "o santuário da Amazônia" (em reportagem sobre declaração do presidente ao inaugurar gasoduto no Amazonas), "feirão de jogadores" (em matéria sobre evento futebolístico reunindo empresários interessados na contratação de atletas).
No entanto, a metáfora é uma forma de expressão que também pode ser original – e daí se explica a "lata" do poeta contendo o incontível. Quando vemos, por exemplo, na imprensa um artigo cujo título é "A linguiça democrática", é preciso ler o texto todo para compreender que o articulista estava, na verdade, comparando as sutilezas do regime democrático com a inusitada decisão de uma fábrica de automóveis alemã, que passou a produzir mais linguiças do que carros.
Observem na publicidade, nas letras de música e em nossa literatura como a criatividade dá conta desse recurso expressivo. Jornalistas, escritores, políticos, esportistas e artistas, todos praticam e divulgam metáforas, mas o mesmo fazem nossos amigos, vizinhos, parentes e colegas de trabalho. Estamos cercados pelas metáforas – eis aí mais uma, explorando a relação de similaridade entre elas (as metáforas) e as cercas, como se estivéssemos confinados num espaço dominado por elas, as poderosas metáforas. Nesse caso então, se estamos rodeados de metáforas por todos os lados, então façamos outra e nos vejamos numa ilha imaginária em pleno oceano metafórico.
É um tempo tão rico de metáforas – mas certamente não é o primeiro – que até o que não é metáfora quer às vezes receber o status retórico. Nesse caso, fiquemos atentos, pois tudo corre o risco de não querer dizer literalmente o que diz. "A gasolina vai subir dez por cento" seria uma metáfora? "Ministério público investiga suspeita de fraude" na verdade seria a transposição de quê? Quando o treinador fala "ficou parado, chuta o tornozelo dele", devemos pensar que ele só fez uma metáfora, sem nenhuma apologia à violência?
Por isso, o estudo e a observação dos textos, orais e escritos, de qualquer modalidade e registro são matéria rica para uma reflexão crítica. O leitor precisa estar atento e ser experto – isso mesmo, com X – para não ser envolvido pelas artimanhas do redator ou do orador. A não ser que assim o deseje, por opção consciente e deliberada.
Mostram os livros que o primeiro registro por escrito da palavra metáfora em nossa língua ocorreu no século XIV, mas o termo é de origem grega. Reconheçamos, pois, que durante esse tempo todo muito pouco deveria ter sobrado para a inventividade humana produzir metáforas.
Há quem ache que sim; há quem ache que não. Pelo sim, pelo não, cantemos a metáfora e, parodiando o compositor popular, entoemos a ela um hino de fogo e paixão: Você é luz, é raio, estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô...
Fiquem bem!
Fonte: publicado no Jornal de Vila Isabel (n. 327), em agosto de 2004.
Que a linguagem nos oferece motivos de sobra para discussões e especulações não é novidade para ninguém. Vivemos em torno dessa inesgotável forma de expressão, a um tempo ilimitada para nos servir em nossa necessidade de dizer e de não dizer o que pensamos e queremos, mas tam-bém – paradoxal que seja – insuficiente para dar conta de toda a complexidade de nossa natureza de seres pensantes instáveis, contraditórios e eternamente insatisfeitos – ou não.
Uma lata existe para conter algo. Mas, quando o poeta diz "lata", pode estar querendo dizer o incontível. Gilberto Gil, em versos simples (seriam simples?), refere-se a uma figura de linguagem velha conhecida, dessas que nos acompanham em nossas tentativas de comunicação com nossos semelhantes. Eu, como ele, referimo-nos à metáfora...
Abrindo qualquer jornal, de qualquer dia, lá está ela – viva, presente, divulgada. Pode ser uma metaforazinha corriqueira, tipo "chuva de pedras" (numa notícia que fala de jovens palestinos atirando pedras em escavadeira israelense), "o santuário da Amazônia" (em reportagem sobre declaração do presidente ao inaugurar gasoduto no Amazonas), "feirão de jogadores" (em matéria sobre evento futebolístico reunindo empresários interessados na contratação de atletas).
No entanto, a metáfora é uma forma de expressão que também pode ser original – e daí se explica a "lata" do poeta contendo o incontível. Quando vemos, por exemplo, na imprensa um artigo cujo título é "A linguiça democrática", é preciso ler o texto todo para compreender que o articulista estava, na verdade, comparando as sutilezas do regime democrático com a inusitada decisão de uma fábrica de automóveis alemã, que passou a produzir mais linguiças do que carros.
Observem na publicidade, nas letras de música e em nossa literatura como a criatividade dá conta desse recurso expressivo. Jornalistas, escritores, políticos, esportistas e artistas, todos praticam e divulgam metáforas, mas o mesmo fazem nossos amigos, vizinhos, parentes e colegas de trabalho. Estamos cercados pelas metáforas – eis aí mais uma, explorando a relação de similaridade entre elas (as metáforas) e as cercas, como se estivéssemos confinados num espaço dominado por elas, as poderosas metáforas. Nesse caso então, se estamos rodeados de metáforas por todos os lados, então façamos outra e nos vejamos numa ilha imaginária em pleno oceano metafórico.
É um tempo tão rico de metáforas – mas certamente não é o primeiro – que até o que não é metáfora quer às vezes receber o status retórico. Nesse caso, fiquemos atentos, pois tudo corre o risco de não querer dizer literalmente o que diz. "A gasolina vai subir dez por cento" seria uma metáfora? "Ministério público investiga suspeita de fraude" na verdade seria a transposição de quê? Quando o treinador fala "ficou parado, chuta o tornozelo dele", devemos pensar que ele só fez uma metáfora, sem nenhuma apologia à violência?
Por isso, o estudo e a observação dos textos, orais e escritos, de qualquer modalidade e registro são matéria rica para uma reflexão crítica. O leitor precisa estar atento e ser experto – isso mesmo, com X – para não ser envolvido pelas artimanhas do redator ou do orador. A não ser que assim o deseje, por opção consciente e deliberada.
Mostram os livros que o primeiro registro por escrito da palavra metáfora em nossa língua ocorreu no século XIV, mas o termo é de origem grega. Reconheçamos, pois, que durante esse tempo todo muito pouco deveria ter sobrado para a inventividade humana produzir metáforas.
Há quem ache que sim; há quem ache que não. Pelo sim, pelo não, cantemos a metáfora e, parodiando o compositor popular, entoemos a ela um hino de fogo e paixão: Você é luz, é raio, estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô...
Fiquem bem!
Fonte: publicado no Jornal de Vila Isabel (n. 327), em agosto de 2004.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Poesia (03)
QUESTÃO DE PONTUAÇÃO, de João Cabral
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca)
viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política)
o homem só não aceita do homem
que use a pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive,
o inevitável ponto final.
Fonte: Poesia Completa.
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca)
viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política)
o homem só não aceita do homem
que use a pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive,
o inevitável ponto final.
Fonte: Poesia Completa.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Crônica (03)
DUAS ESTRADAS ACADÊMICAS
Saber preparar profissionais capazes de transformar o aluno de nível médio em um usuário competente da linguagem é um dos principais objetivos do ensino de língua portuguesa nos cursos de Letras. Ser um usuário competente da linguagem não é apenas ser capaz de ler criticamente qualquer tipo de texto, mas também ter a capacidade de produzir textos dotados de tal significado e estrutura que seu eventual leitor os receba de modo natural, isto é, concentrando-se na mensagem transmitida, embora eventualmente possa mesmo deter-se sobre alguma construção ou escolha de palavras que lhe pareça passível de uma reflexão metalinguística. Todavia, ser um usuário competente da linguagem é igualmente saber explicar como ela funciona, e isto ultrapassa os limites mais específicos das atividades didático-pedagógicas voltadas para as aulas de redação e alcança um campo dito “minado”, qual seja a tarefa de apresentar tópicos de teoria gramatical direcionados para que se possa atingir aquele a que chamo, no início deste parágrafo, um dos principais objetivos do ensino de língua portuguesa – e agora não apenas nos cursos de Letras, mas em todas as salas de aula onde atue um professor de Português.
Vislumbro, neste ponto, duas estradas paralelas que levam ao mesmo destino, a uma cidade imaginária (Éden?), habitada por cidadãos conscientes, expressivos e críticos, construtores de sua cidadania plena a partir do direito que lhes foi assegurado de ter o domínio de sua própria língua nacional, com a autonomia e a faculdade de distinguir os usos que melhor lhes aprouverem.
Os futuros profissionais da área de Letras recebem um bilhete ao ingressar no curso superior, iniciam sua viagem e, durante todo o trajeto, se abastecem dos princípios norteadores de sua pretendida opção de ensinar Português. Na estrada que percorrem, param em oficinas sintagmáticas e paradigmáticas, veem outdoors estruturalistas e transformacionais, lojas funcionalistas de peças discursivas e até um minishopping com coesas e coerentes butiques pragmáticas. É uma rodovia razoavelmente conservada, nem sempre bem sinalizada, com pedágios e postos de fiscalização comandados por professores de Língua Portuguesa e de Linguística, vários entroncamentos que levam para outros destinos e placas indicativas de retorno a cada mil metros. Nem sempre os que conseguem terminar a jornada acham a cidade que procuram e muitos acabam chegando à conclusão de que talvez tivesse sido melhor consultar um mapa antes de começar o percurso.
Diz a lenda da região que vários deles procuram ajuda numa pequena mercearia de beira de estrada, que também serve de posto de informações. Lá, se dão conta de que, para chegar à cidade, ainda será preciso seguir pela outra estrada, a que chamam vicinal... Ficam sabendo inclusive que, ao longo da rodovia pela qual vieram, eles passaram por vários acessos a essa outra estrada, embora isso não lhes garantisse chegar ao lugar pretendido. Perguntam onde estão e se surpreendem quando lhes dizem que aquele lugarejo tem o nome de Burrosnágua – neologismo que teria sido criado em homenagem a seus fundadores, um casal analfabeto beberrão que ali se estabeleceu no início da década de setenta.
Há os que fixam residência nesse pequeno povoado, mas há também os que partem, enfim, em direção àquela estradinha secundária, obcecados em alcançar Éden. Estes ficam se indagando por que, quando lhes falavam dela, diziam: - Ah, sim. É uma estrada que já teve a sua importância, mas que, hoje em dia, está meio posta de lado. Falam que é mal assombrada... Até seu nome é estranho, Estrada do Sermão...
Nessa outra estrada há muitas curvas, pistas estreitas, poucos acostamentos, mas o asfalto é liso e são bem visíveis as faixas amarelas que indicam os pontos onde é permitida a ultrapassagem. As lojinhas que a margeiam vendem lembranças estilísticas e enfeites semântico-expressivos. Uma delas é especializada em discutíveis suvenires ortográficos e curiosos berrantes sintáticos de difícil colocação. Os postos de fiscalização parecem abandonados. Alguns dão a impressão de terem sido alvo de pichadores rodoviários. Na subida da serra, há uma fonte de água transparente e alguns vendedores de frutas da estação. Há várias placas que apontam em direção à rodovia principal, todas elas com um lembrete muito sugestivo: “Cuidado ao adentrar!”.
Retomo, então, o prumo desta prosa e busco nessa Estrada do Sermão o tema da correção gramatical, que é, para o profissional da área de Letras, a um só tempo, instigante e paradoxal. Digo desafiador, porque me reporto à inevitável cobrança de conhecimento acerca das noções de “certo” e “errado” de que é alvo todo especialista em questões de língua. E digo contraditório, pois transfiro para essa sua “decisão soberana” todo o drama de um juiz que, a cada instante, se vê enredado pelas tranças de regras e de intransigências legais acerca das adequações e inadequações desta ou daquela construção.
A norma culta é um enigma. Onde se esconde essa criatura tão decantada em enunciados de provas, programas de concursos e orientações para monografias? Será que ela ainda mora naquelas mesmas gramáticas conceituadas que há uma ou duas dezenas de anos vêm sendo acusadas de ranços retrógrados de uma língua que não se usa mais? Observo que, na verdade, essa tal norma culta já nem representa mais a sociedade culta porque esta já não fala nem escreve em língua culta.
Lembro também que, ao longo de sua formação, o futuro profissional da área de Letras terá de comprovar na prática que é possuidor de duas qualidades: detém o conhecimento crítico da teoria gramatical e exercita plena e satisfatoriamente esse conhecimento na produção de seus próprios textos acadêmicos, algo que é concreto e que precisa ser enfrentado, a partir de uma preocupação autoritária e conservadora.
Friso, ademais, a atenção que se deve dar aos registros normalmente inseridos em trabalhos de graduação e de pós-graduação: citações, ilustrações, notas bibliográficas e pessoais, etc. Costuma-se, para estes itens, seguir uma série de outras determinações. Muitas delas tomam, às vezes, ares de paranoia formal e, por esse motivo, se juntam harmoniosamente aos ataques psicóticos naturais daquelas regras obsessivas impostas pelos detentores da presumida sabedoria científica. Menos mal que já é possível constatar que, atualmente, a padronização dos trabalhos acadêmicos está merecendo um tratamento mais pedagógico do que carcerário, o que garante alguma tranquilidade para o estudante-autor.
Porém acrescento que, se no nível médio a gramática não pode mesmo ser enfocada unicamente como um estudo metalinguístico, exceto nas ocasiões explícitas de necessidade, o mesmo não se pode dizer em relação ao seu estudo nos cursos de Letras. Neste nível, é vital dar ao futuro professor de Português a ferramenta de sua atividade profissional, sob pena de se estar colocando no mercado de trabalho um especialista que não domina sua especialidade. Alguém que corrigirá redações sem saber fazê-las ou que cobrará regras que não explica e muito menos entende.
E, por fim, se este texto, que se aproxima de seu desfecho, puder servir para alguma coisa, que seja pelo menos para exemplificar uma modalidade de expressão dotada de “estruturas bem formadas”, adequadas gramaticalmente aos seus objetivos – caso explícito de metalinguagem, mesmo que artesanal e de valor literário discutível...
Para chegar a Éden, falta juntar as duas estradas, pavimentá-las por igual e percorrer o trajeto com a velha certeza de que a sinalização, as lojas e oficinas, os postos de serviço e de fiscalização constituem um patrimônio comum. Só assim Burrosnágua poderá desaparecer do mapa.
Fiquem bem!
Fonte: extraído, com adaptações, de A Produção de Monografias (Dialogarts, 1998).
Saber preparar profissionais capazes de transformar o aluno de nível médio em um usuário competente da linguagem é um dos principais objetivos do ensino de língua portuguesa nos cursos de Letras. Ser um usuário competente da linguagem não é apenas ser capaz de ler criticamente qualquer tipo de texto, mas também ter a capacidade de produzir textos dotados de tal significado e estrutura que seu eventual leitor os receba de modo natural, isto é, concentrando-se na mensagem transmitida, embora eventualmente possa mesmo deter-se sobre alguma construção ou escolha de palavras que lhe pareça passível de uma reflexão metalinguística. Todavia, ser um usuário competente da linguagem é igualmente saber explicar como ela funciona, e isto ultrapassa os limites mais específicos das atividades didático-pedagógicas voltadas para as aulas de redação e alcança um campo dito “minado”, qual seja a tarefa de apresentar tópicos de teoria gramatical direcionados para que se possa atingir aquele a que chamo, no início deste parágrafo, um dos principais objetivos do ensino de língua portuguesa – e agora não apenas nos cursos de Letras, mas em todas as salas de aula onde atue um professor de Português.
Vislumbro, neste ponto, duas estradas paralelas que levam ao mesmo destino, a uma cidade imaginária (Éden?), habitada por cidadãos conscientes, expressivos e críticos, construtores de sua cidadania plena a partir do direito que lhes foi assegurado de ter o domínio de sua própria língua nacional, com a autonomia e a faculdade de distinguir os usos que melhor lhes aprouverem.
Os futuros profissionais da área de Letras recebem um bilhete ao ingressar no curso superior, iniciam sua viagem e, durante todo o trajeto, se abastecem dos princípios norteadores de sua pretendida opção de ensinar Português. Na estrada que percorrem, param em oficinas sintagmáticas e paradigmáticas, veem outdoors estruturalistas e transformacionais, lojas funcionalistas de peças discursivas e até um minishopping com coesas e coerentes butiques pragmáticas. É uma rodovia razoavelmente conservada, nem sempre bem sinalizada, com pedágios e postos de fiscalização comandados por professores de Língua Portuguesa e de Linguística, vários entroncamentos que levam para outros destinos e placas indicativas de retorno a cada mil metros. Nem sempre os que conseguem terminar a jornada acham a cidade que procuram e muitos acabam chegando à conclusão de que talvez tivesse sido melhor consultar um mapa antes de começar o percurso.
Diz a lenda da região que vários deles procuram ajuda numa pequena mercearia de beira de estrada, que também serve de posto de informações. Lá, se dão conta de que, para chegar à cidade, ainda será preciso seguir pela outra estrada, a que chamam vicinal... Ficam sabendo inclusive que, ao longo da rodovia pela qual vieram, eles passaram por vários acessos a essa outra estrada, embora isso não lhes garantisse chegar ao lugar pretendido. Perguntam onde estão e se surpreendem quando lhes dizem que aquele lugarejo tem o nome de Burrosnágua – neologismo que teria sido criado em homenagem a seus fundadores, um casal analfabeto beberrão que ali se estabeleceu no início da década de setenta.
Há os que fixam residência nesse pequeno povoado, mas há também os que partem, enfim, em direção àquela estradinha secundária, obcecados em alcançar Éden. Estes ficam se indagando por que, quando lhes falavam dela, diziam: - Ah, sim. É uma estrada que já teve a sua importância, mas que, hoje em dia, está meio posta de lado. Falam que é mal assombrada... Até seu nome é estranho, Estrada do Sermão...
Nessa outra estrada há muitas curvas, pistas estreitas, poucos acostamentos, mas o asfalto é liso e são bem visíveis as faixas amarelas que indicam os pontos onde é permitida a ultrapassagem. As lojinhas que a margeiam vendem lembranças estilísticas e enfeites semântico-expressivos. Uma delas é especializada em discutíveis suvenires ortográficos e curiosos berrantes sintáticos de difícil colocação. Os postos de fiscalização parecem abandonados. Alguns dão a impressão de terem sido alvo de pichadores rodoviários. Na subida da serra, há uma fonte de água transparente e alguns vendedores de frutas da estação. Há várias placas que apontam em direção à rodovia principal, todas elas com um lembrete muito sugestivo: “Cuidado ao adentrar!”.
Retomo, então, o prumo desta prosa e busco nessa Estrada do Sermão o tema da correção gramatical, que é, para o profissional da área de Letras, a um só tempo, instigante e paradoxal. Digo desafiador, porque me reporto à inevitável cobrança de conhecimento acerca das noções de “certo” e “errado” de que é alvo todo especialista em questões de língua. E digo contraditório, pois transfiro para essa sua “decisão soberana” todo o drama de um juiz que, a cada instante, se vê enredado pelas tranças de regras e de intransigências legais acerca das adequações e inadequações desta ou daquela construção.
A norma culta é um enigma. Onde se esconde essa criatura tão decantada em enunciados de provas, programas de concursos e orientações para monografias? Será que ela ainda mora naquelas mesmas gramáticas conceituadas que há uma ou duas dezenas de anos vêm sendo acusadas de ranços retrógrados de uma língua que não se usa mais? Observo que, na verdade, essa tal norma culta já nem representa mais a sociedade culta porque esta já não fala nem escreve em língua culta.
Lembro também que, ao longo de sua formação, o futuro profissional da área de Letras terá de comprovar na prática que é possuidor de duas qualidades: detém o conhecimento crítico da teoria gramatical e exercita plena e satisfatoriamente esse conhecimento na produção de seus próprios textos acadêmicos, algo que é concreto e que precisa ser enfrentado, a partir de uma preocupação autoritária e conservadora.
Friso, ademais, a atenção que se deve dar aos registros normalmente inseridos em trabalhos de graduação e de pós-graduação: citações, ilustrações, notas bibliográficas e pessoais, etc. Costuma-se, para estes itens, seguir uma série de outras determinações. Muitas delas tomam, às vezes, ares de paranoia formal e, por esse motivo, se juntam harmoniosamente aos ataques psicóticos naturais daquelas regras obsessivas impostas pelos detentores da presumida sabedoria científica. Menos mal que já é possível constatar que, atualmente, a padronização dos trabalhos acadêmicos está merecendo um tratamento mais pedagógico do que carcerário, o que garante alguma tranquilidade para o estudante-autor.
Porém acrescento que, se no nível médio a gramática não pode mesmo ser enfocada unicamente como um estudo metalinguístico, exceto nas ocasiões explícitas de necessidade, o mesmo não se pode dizer em relação ao seu estudo nos cursos de Letras. Neste nível, é vital dar ao futuro professor de Português a ferramenta de sua atividade profissional, sob pena de se estar colocando no mercado de trabalho um especialista que não domina sua especialidade. Alguém que corrigirá redações sem saber fazê-las ou que cobrará regras que não explica e muito menos entende.
E, por fim, se este texto, que se aproxima de seu desfecho, puder servir para alguma coisa, que seja pelo menos para exemplificar uma modalidade de expressão dotada de “estruturas bem formadas”, adequadas gramaticalmente aos seus objetivos – caso explícito de metalinguagem, mesmo que artesanal e de valor literário discutível...
Para chegar a Éden, falta juntar as duas estradas, pavimentá-las por igual e percorrer o trajeto com a velha certeza de que a sinalização, as lojas e oficinas, os postos de serviço e de fiscalização constituem um patrimônio comum. Só assim Burrosnágua poderá desaparecer do mapa.
Fiquem bem!
Fonte: extraído, com adaptações, de A Produção de Monografias (Dialogarts, 1998).
Assinar:
Postagens (Atom)
.jpg)