sábado, 18 de maio de 2013

Crônica (12)

DUAS CRONISTAS CONVIDADAS
Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por duas alunas do sétimo período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2012-2 do Instituto de Letras). O tema era GRAMÁTICA+LITERATURA, assunto de nosso curso.

ANDORINHA (por Isabela Fornazier)

Nunca fui da poesia, dos poemas. Muito menos do estudo deles. Mas, ao entrar numa faculdade de Letras, estudá-los e lê-los tornam-se obrigação. Eis que entrei. Passei a sê-lo menos ainda.

Os primeiros contatos não foram muito bons, como era de se esperar. Eles repeliam-me, o que eu podia fazer? Passaram desordenados Gonçalves, Casimiros, Mários, Adélias, Castros – Cruzes! Nem sequer Machado, de cuja prosa sempre fui grande admiradora, deu-me jeito. Poesia, para mim, apenas dissolvida na prosa. Chegou então o Manuel.

Andorinha, andorinha, minha cantiga não é mais triste, não! No momento certo, o Manuel chegou-me com a Andorinha. Poema breve: duas estrofes, dois versos em cada uma. Na primeira estrofe, a andorinha lá fora e seu dia à toa, à toa. Na segunda, o eu lírico lá dentro e sua vida à toa, à toa. Separação de estrofes e de melancolias. Enquanto lia repetidas vezes, eu me lembrava do pensamento clichê que me impulsionara, felizmente, para tantas decisões na vida. Foi como se o Manuel, com o perdão pelo infame trocadilho, tivesse hasteado uma enorme bandeira na minha memória, que tendia a falhar, dizendo: cante, andorinha.

No encontro com a tal ave, não houve modo de não a relacionar também à vida de seu autor. O vocativo criado possivelmente serviu-lhe de reflexo ao que o perseguiu ao longo de sua vida longa: a iminência da morte desde os dezoito. E numa outra época, lugar e situação, estava eu, lendo, lendo, lendo, lidando não mais com a iminência da poesia; ela já havia me alcançado.

A partir dos quatro versos-bandeira, deixei que o resto do livro passasse todas as suas páginas amareladas diversas vezes pelos meus olhos e mãos. E foi impossível não lhes ser: não satisfeito em passá-las, entranhou-as em mim. Ainda eu não era de todos os poemas da literatura (quem os é?), mas ali aparecia o que parecia a primeira faísca de uma talvez futura fogueira.

Se uma andorinha não faz verão no lugar-comum, naquele momento que vivi ela o fez. A andorinha do Manuel, vazia, só, de cantiga triste, ironizada melancolicamente pela cantiga do eu lírico, carregava em si mais um dos dias manuelinos. Para mim, essa mesma andorinha carregou o meu vazio e me trouxe a clareza de volta. Por pura coincidência, era verão lá fora. Agora, era também aqui dentro.

Nunca fui da poesia, dos poemas. Muito menos do estudo deles. Mas, ao entrar numa faculdade de Letras, estudá-los e lê-los tornam-se obrigação. Eis que entrei. Passei a ser andorinha feliz.

NO MEIO DO CAMINHO (por Vanessa Gomes Teixeira)

Um dia qualquer. Uma ida qualquer ao trabalho. Sete horas da manhã. O ônibus lotado. Um trânsito infernal. Parece que houve um acidente e há um carro no meio da pista. Ao organizar esse pensamento, lembro imediatamente do poema do Carlos Drummond de Andrade, aquele que fala sobre a pedra no meio do caminho. Entediada por causa do calor e dos carros que não andam, fico com estes versos na cabeça: “tinha uma pedra no meio do caminho” / “no meio do caminho tinha uma pedra”.

Por que será que Drummond repete tantas vezes as palavras “pedra” e “caminho”? Apesar de o poema ter apenas dez versos, “pedra” é repetida sete vezes e “caminho” é repetida seis vezes... Afinal, o que será que essa observação do poeta significa? Sei que há estudos que explicam que a pedra, na verdade, é uma metáfora dos problemas da vida... E se for, será que o poema fala que os problemas nunca acabam, já que, na própria estrutura textual, a pedra bloqueia o caminho antes e depois nos versos? Será que essa sequência “tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra” cria obstáculos que se desencadeiam sem fim? Além disso, se a pedra representar mesmo os problemas da vida, será que esse trânsito é a pedra do meu caminho?

Tenho meu pensamento interrompido por um barulho de buzina e percebo que o ônibus se aproximou do local do acidente. Na verdade, também tinha um caminhão envolvido na batida: pessoas recebendo ajuda médica, vidros quebrados no chão e muitos espectadores observando de longe (o que causava todo o transtorno, por sinal). Paro para pensar e me questiono de novo: será que os veículos são realmente as pedras no meio do caminho ou sou eu o obstáculo que impede que a ajuda chegue mais rapidamente para os feridos? Concluo que, talvez, "ter problemas" seja uma questão de ponto de vista, já que eu me preocupava apenas em chegar ao trabalho enquanto pessoas tentavam sobreviver a uma tragédia. No final das contas, me sinto mal por ter me preocupado com uma pedrinha enquanto pessoas a poucos metros de mim enfrentavam um pedregulho.

Novamente meu raciocínio é interrompido, agora por um barulho de ambulância. Escuto um passageiro perguntando se alguém teve ferimentos graves: para o alívio de todos, as vítimas estavam bem. Após passar por essa experiência, vou para o trabalho refletindo que, assim como o poeta, acho que nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão estressadas por causa da rotina. Talvez a grande lição de Drummond para nós não foi ter colocado um obstáculo no caminho e, sim, ter colocado a pedra no meio dele, para que pensemos sempre sobre como retirá-la e continuar seguindo a nossa estrada até o fim.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Crônica (11)

ELA ME IRRITA, MAS EU GOSTO
[por Gabrielle Martins Soares, cronista convidada - aluna do quinto período do Instituto de Letras da UERJ]

Não! Respondi sem titubear quando a proposta me foi feita. Como eu poderia aceitar o convite para ser professora de língua portuguesa de um pré-vestibular comunitário, se ainda não me sentia preparada para solucionar as questões problemáticas desse emaranhado de normas que formam a chamada língua culta – ou padrão, para quem tem um maior apreço pelas variações linguísticas?

Para não perder a oportunidade de ganhar o título de professora, peguei a turma de redação, e há três anos me mantenho frente a ela. Ledo engano para quem achou que saber a necessidade de uma introdução, três argumentos e uma conclusão seria o suficiente para dar aulas de produção textual. Ao longo desses anos de “casa”, descobri que, se eu não quisesse me deparar com dúvidas complexas acerca da língua, deveria ser professora de matemática.

Ainda este ano, tive que tirar do bolso a fatídica frase – vou pesquisar e na aula que vem eu te digo – para responder por que malvado é com l, logo após explicar a diferença entre mau e mal. Muitas “aulas que vem” se passaram e eu ainda não descobri. Eventualmente, amorfologia se mostra um problema. Contudo, o que realmente me confunde é a sintaxe, essa bondosa malvada coordenadora de palavras e orações, que assusta desde os pré-vestibulandos até os professores da língua.

Sempre escutei que “nunca se separa sujeito de predicado numa frase escrita na ordem direta” e nunca não permite exceções. E lá estava eu, de frente para um livro que deveria solucionar minhas dúvidas, tentando compreender as regras de subordinação de orações, quando me deparo com um “Quem tudo quer, nada tem”. Opa! Pode isso, Arnaldo? O que aquela virgulazinha está fazendo ali entre o sujeito e o predicado? No canto superior esquerdo do livro está a minha resposta escrita a lápis: a vírgula é por estilo e é permitida. Quando eu escrevi isso? Quando eu aceitei essa explicação sem fazer um escarcéu? A regra é clara. Nunca é nunca. A coordenadora das relações oracionais não deveria permitir isso, mas quando a chefe da empresa, a senhorita Estilística – solteira, nunca se vincula – diz que pode; então, pode.

Eu defendia a ideia de que “toda a regra tem uma exceção”; só que, pelo visto, não ando em consonância com o que costumava afirmar. Não gosto de abrir concessões em alguns casos. Isso me irrita. O verbo ser serve para designar estado, condição, é o famoso verbo de ligação: liga o sujeito ao seu predicativo. Entretanto – tinha que ter um porém –, quando for usado para indicar tempo ou fenômenos meteorológicos, fará parte de uma oração sem sujeito. Em “são duas horas”, por exemplo, são deveria ser verbo de ligação, mas não o é, afinal, está ligando o que, se não há sujeito? E duas horas? Não sendo predicativo, nem objeto direto ou indireto, é o quê? Para finalizar, a parte mais interessante dessa pequena estrutura oracional é que o verbo concorda com o sintagma duas horas, o que quer que este seja. Dentre todos os verbos impessoais que definem tempo, somente o verbo ser varia de acordo com a expressão numérica. Até Hamlet se questionava sobre isso: “Ser ou não ser, eis a questão”.

Expostas algumas das minhas picuinhas com a sintaxe da língua portuguesa, devo confessar que paradoxalmente eu gosto disso tudo. O que me irrita me atrai e quem desdenha quer comprar. O importante é saber que sempre terei uma “aula que vem” e gramáticas não irão me faltar. Dessa vez, quando vier um convite para dar aulas de português, a resposta será sonora. Sim!!!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012.

terça-feira, 6 de março de 2012

Crônica (10)

LOUCOS SOIS, ADVERBIAIS
[por Allex Machado, cronista convidado - aluno do quarto período do Instituto de Letras da UERJ, turma de Morfologia de 2011/2]

Se ter um prazo a cumprir torna qualquer tarefa escrita árdua pelo peso de seu compromisso, um problema maior do que este está justamente em não saber exatamente sobre o que se quer escrever. Tal indecisão faz imaginar-me, então, na posição do colunista morfológico cujas obrigações são de expor, semana após semana, curiosidades, lições, estudos, ensinamentos e experiências gramaticais, faça chuva ou sol. Não tenho dúvidas de que em tal posição meu imediatismo me faria ter como principal alternativa, sempre, a minha sinceridade.

E vos digo: a morfologia é uma ciência extensa – e isso não é novidade para ninguém, eu sei. Mas, se na teoria parece simples escolher um tema dentro dela, sendo tantos, na prática nem sempre o é. E então, por circunstância de tal dúvida, acabei ficando debaixo de uma chuva de papéis com temas morfológicos... Acabei pegando alguns antes que eles tocassem o piso. Foi difícil. Mais simples seria esperá-los encostar o chão; porém, não tive tempo para isso, o que fez com que os temas escritos nos papéis pairassem no texto.

O primeiro papel que catei falava dos pronomes: palavras substitutas, suplentes, praticamente dublês dos substantivos: astros que não banalizam sua imagem e que se usam dos pronomes, coitados, para que façam o trabalho de agir por eles. Pronomes que podem ser até mesmo caracterizados como a morfologização da malandragem, como ocorreu no famoso caso do aluno, que, tentando se omitir ao professor, que havia lhe pedido para que dissesse dois pronomes, respondeu: “Quem? Eu?”. Deus salve tal classe tão operária das palavras.

O segundo papel falava sobre verbos deficientes, ou melhor, especiais. Verbos defeituosos, digo, defectivos, que não são conjugados em todos os tempos e pessoas. Verbos que são por vezes proibitivos - e até opressores! - e que impedem, por exemplo, que minha amada irmã, linda e saudável criança em desenvolvimento, colora um belo desenho. Coitada, desenha, mas não pode colori-los.

O terceiro e último papel falava sobre verbos irregulares: verbos mutantes, que foram mutilados e modificados e aglutinados e misturados – e tudo a que se tem direito – de acordo com o tempo e com as mudanças de nossa língua. Digo isso por crer ser bom saber das agruras pelas quais essas palavras passaram para entender que não foi por acaso que Jardel, ex-atacante do Grêmio, se confundiu tanto ao explicar como havia feito um de seus gols, dizendo que “chutou a bola e ela foi fondo, foi fondo, e iu!”.

E assim é não só a morfologia como toda a gramática: viva. Uma volátil chuva volátil de morfológicos papéis picados que nem sempre chegam ao chão e estagnam-se; que às vezes não se cansam de voar por aí se misturando e se modificando com tudo que passa pelo ar.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Crônica (09)

DUAS CRONISTAS CONVIDADAS

Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por duas alunas do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2010-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA do português, assunto de nosso curso.

A VIDA COM OS ADJETIVOS (por Vanessa Gomes Teixeira)

Acabo de inventar um movimento novo de libertação. Resolvi libertar a classe de palavras mais injustiçada da língua portuguesa, os adjetivos. Não apenas por esse motivo, mas também porque eles são os seres mais bipolares da nossa gramática.

Os adjetivos são tão bipolares que, se não modificarem o substantivo, mudam de classe, como no caso: “Esse homem está doente” e “O doente foi atendido pelo médico”. Na primeira frase, a palavra “doente” funciona como adjetivo, porque modifica o substantivo “homem”; na segunda, como substantivo, pois não muda ninguém, apenas designa o ser sobre o qual queremos falar. Outro exemplo são as frases “O menino rápido comeu seu lanche” e “O menino comeu rápido seu lanche”. Na primeira, “rápido” é adjetivo porque atribui uma característica ao menino citado; já na segunda frase, a palavra desempenha o papel de advérbio porque, nessa sentença, “rápido” não está se relacionando com o substantivo “menino” e sim expressando o modo como ele comeu. O adjetivo muda tanto que, além de mudar o substantivo, ele pode modificar seu próprio sentido – dependendo da posição que ocupa: a expressão “uma menina pobre”, por exemplo, tem o sentido diferente da expressão “uma pobre menina”, mesmo sendo ambas compostas pelas mesmas palavras.

Segundo as gramáticas tradicionais, a definição de adjetivo é “palavra que modifica o substantivo, atribuindo-lhe uma característica”. Vendo dessa forma, ele parece apenas um figurante, que serve de apoio para o protagonista que “designa os seres em geral”. Mas será que ele é um somente um acessório?

O parceiro do adjetivo é o substantivo, classe que tem sua própria independência. Substantivos têm seu sentido completo, adjetivos precisam dos nomes com que irão se relacionar. Porém, não são apenas enfeites, pois afinal são os termos que dão a personalidade de tudo que existe no mundo.

Se a primeira coisa que fizemos foi nomear as coisas, a segunda, com certeza, foi caracterizá-las. Se os substantivos nos permitem categorizar e organizar o mundo, os adjetivos nos permitem especificar esse mundo no qual vivemos. Eles também nos possibilitam esclarecer qual a posição em que nos colocamos ao construir uma sentença e qual é a nossa intenção ao expressá-la. Falar “A menina viu o menino” é bem diferente de “A menina insensível viu o menino triste”. Isso ocorre porque os adjetivos nos permitem demonstrar qual é a nossa visão ao analisarmos uma pessoa ou situação.

Outro recurso que também nos ajuda no processo de posicionamento é a capacidade que essa classe de palavras tem de comparar dois seres ou ressaltar uma qualidade: assim como o comparativo dos substantivos, o superlativo dos adjetivos nos ajuda a individualizar o nome, apresentando características que somente eles possuem ou que eles têm em maior quantidade do que resto do grupo.

De modo geral, os adjetivos não qualificam apenas os nomes, eles transformam a regra em exceção, ou seja, transformam um simples “mais um” em algo único no mundo. Isso porque todos somos categorizados como objetos ou seres, homens ou animais, machos ou fêmeas; mas cada um de nós possui características que nos diferenciam do resto, aquelas que ninguém mais tem e que nos fazem ser exatamente quem somos.

LÍNGUA DINÂMICA (por Claudia Regina de Oliveira)

O perfil das provas de língua portuguesa, seja nos vestibulares, seja nos concursos públicos, vem mudando nos últimos anos. A grande preocupação de outrora era a avaliação dos conhecimentos gramaticais com comandos mais diretos como "Identifique o processo de formação de palavras dos itens abaixo", por exemplo. Atualmente percebemos que há mais questões que integram vários assuntos, podendo uma pergunta de morfologia depender do conhecimento de semântica do concursado. É nesse momento que a percepção da própria língua, por parte do candidato, fará toda a diferença para o seu sucesso.

A derivação imprópria, ou conversão, é um item que costuma figurar nas gramáticas dentro dos processos de formação de palavras. Em suma, trata-se do uso de uma palavra em uma classe gramatical diversa da original. Um caso típico é a transformação de verbo em substantivo com a anteposição de um artigo ou um pronome: "o cantar; meu cantar".

A linguagem coloquial é uma fonte em potencial desse processo. Basta observar frases retiradas do cotidiano tais como: "A garota era crânio" e "Esse Ricardo é muito comédia". Nelas, os substantivos em destaque assumiram valor de adjetivos: crânio pode ser substituído por inteligente e comédia por engraçado. Em “O preço do imóvel caiu bonito”, bonito é um adjetivo com função de advérbio de intensidade, se o interpretarmos como "muito", ou de modo se pensarmos em "rapidamente". Em "Soltou um caraca que o denunciou", uma interjeição típica de um falar regional, uma gíria, foi substantivada. E no exemplo "Vamos esperar papo de meia hora", papo, que é um substantivo, atua como preposição acidental (igual a "em torno de"). Por fim, em "Só aceito o sim como resposta", o advérbio de afirmação funciona como substantivo.

Poderíamos preencher um livro com várias sentenças desse tipo e, mesmo assim, não esgotaríamos os exemplos. A língua é dinâmica e, por isso, os estudantes devem constantemente analisar as expressões que ouvem no dia a dia, pois as bancas têm focado questões de interpretação cujas ferramentas estão nos conhecimentos morfológicos, fonéticos, sintáticos, entre outros e esse saber (eis aí um verbo como substantivo) é um grande diferencial que pode definir a classificação, ou não, do concursando. Por isso, atenção! Pode ser que um trecho do "papo cabeça" que você teve com um amigo apareça numa questão de prova. E, para não perder o ensejo, essa "cabeça" de natureza substantiva, aqui, atuou como adjetivo.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2011

sábado, 30 de julho de 2011

Crônica (08)

A SINTAXE DESIMPORTANTE
[por Pércio Faria Rios, cronista convidado - aluno do terceiro período do Instituto de Letras da UERJ]

Estava lendo Manoel de Barros, dia desses, numa tentativa semidesesperada de encontrar um tema possível para esta crônica sobre sintaxe. Fracassei. Fracassei com o Manoel, como fracassei com o Elomar, como fracassei com os palavrões; e descobri algo importante: não sou do mundo da sintaxe. Na poesia de Manoel de Barros não via sintaxe, só poesia; na música de Elomar só via música e beleza em sua linguagem dialetal sertaneza; quando pensei em palavrões, só conseguia relembrar a emoção de uma palavra “baixa” soltada numa hora alta, de extrema paixão. Senti-me parte das desimportâncias deste mundo, numa espécie de abatimento pitadinho de satisfação. Contudo, continuei lendo o poeta pantaneiro até que me veio o verso: As coisas que não levam a nada têm grande importância.O início, talvez, do meu desfracasso.

Pensei, imediatamente, nos tão desprezados termos acessórios da oração, sem tirar, no entanto, a poesia da cabeça. Esses termos são considerados dispensáveis no contexto oracional; são, em contrapartida, imprescindíveis para o entendimento de certos enunciados. Pensei: um momento! Poesia não se entende. Manoel concordou mais ou menos comigo. Para entender nós temos dois caminhos, disse ele: o da sensibilidade, que é o entendimento do corpo, e o da inteligência, que é o entendimento do espírito. Dei um ok, esperando pelo complemento do poeta, que logo veio: eu escrevo com o corpo. Por trás dessa fala do pantaneiro, entretanto, surgiu-me uma certa visão de uma certa dança: corpo e espírito, num bolero. Manoel escreve com o corpo. Só que não poderia dizer isso sem o auxílio do adjunto adverbial de instrumento, com o corpo. O poeta escreve, mas isso não é poesia. O poeta escreve com o corpo, e isso sim é poesia! Corpo e espírito: poesia e sintaxe!

O adjunto adverbial é esse termo acessório, dispensável, mas que introduz na oração uma circunstância, referindo-se geralmente ao verbo. É indispensável à poesia, que dispensa tudo, menos as coisas dispensáveis deste mundo.

Manoel de Barros não para por aí sua defesa dos oprimidos pela importância: as coisas que não pretendem: pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, se prestam para poesia. O poeta continua contando com as desimportâncias da linguagem para defender as desimportâncias da poesia: não poderia ele, sem o aposto pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, outro termo acessório da oração, fazer uma defesa tão bela. O aposto se relaciona com o termo anterior. Neste caso, o aposto que Manoel ab-usou é enumerativo, vem depois de dois pontos, para explicitar ou exemplificar qualquer coisa.

A poesia encontra-se, de fato, na periferia de todas as coisas, fora do núcleo, das obrigatoriedades. Diria o professor de Português: ah, é como o adjunto adnominal! Manoel mudaria de assunto. As crianças escutam a cor dos passarinhos, diria ele. O professor replicaria: pois é, Manoel, dos passarinhos é adjunto adnominal. Está fora do núcleo do objeto direto, a cor, e indica posse.

Pensei que a poesia delirante da palavra não se desse bem com a sintaxe e me enganei. Manoel de Barros me provou o contrário: os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe que os escorpiões de areia.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2011.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Resenha (01)

UM GUIA PARA A LEXICOGRAFIA PRÁTICA

ATKINS, B.T. Sue & RUNDELL, Michael. The Oxford Guide to Practical Lexicography. Oxford: OUPress, 2008, 540p.

A quantidade de obras voltadas para os aspectos práticos da lexicografia não é das mais numerosas. Na língua inglesa talvez esteja a maior possibilidade de se encontrarem livros que tratem especificamente da prática lexicográfica, na qual quase obrigatoriamente há sempre uma boa parte dedicada à discussão sobre como fazer e como não fazer dicionários, produto que, a princípio, é o que se espera de um lexicógrafo.

Citemos, entre os principais títulos em língua inglesa, os livros Practical Lexicography: as reader, editado por Thierry Fontenelle (Oxford: OUPress, 2008), Lexicography: an introduction, de Howard Jackson (London: Routldege, 2002), Modern lexicography: an introduction, de Henri Béjoint (Oxford: OUPress, 2000), Teaching and Researching Lexicography, de R. K. Hartmann (Essex: Longman, 2001) e Dictionaries: the art and craft of lexicography, de Sidney I. Landau (Cambridge: CUP, 2001).

Nenhum desses trabalhos tem tradução para o português, havendo em nossa língua um número bem mais discreto de obras publicadas nesse campo. Lembremos, a título de ilustração e homenagem, uma das primeiras contribuições para os estudos lexicográficos do português, o livro de Gladstone Chaves de Melo Dicionários Portugueses, publicado em 1947 (Rio de Janeiro: SD/MEC) e o trabalho de Átila de Almeida (e seu pai Horácio de Almeida), com o curioso título Dicionários: parentes e aderentes (João Pessoa: FENAPE, 1988), na verdade uma bibliografia de dicionários “e livros afins”.

O recente desenvolvimento dos estudos de lexicologia, lexicografia e terminologia no Brasil, sobretudo por conta da atuação do GT da ANPOLL que se dedica a essas três áreas, é uma espécie de contrapartida em relação à falta de iniciativa de nossas editoras de colocarem à disposição dos estudantes universitários a tradução das melhores obras publicadas no exterior, mas já podemos começar a encontrar colegas que se dedicam ao trabalho metalexicográfico (a lexicografia teórica), o qual é em síntese o tema do livro de Sue Atkins e Michael Rundell. Afinal, um guia sobre a prática lexicográfica não deixa de ser um estudo teórico sobre os que os lexicógrafos fazem (este é um dos subtítulos da introdução do livro).

Para nossos alunos de graduação, futuros profissionais especializados no emergente campo da dicionarística e na linguística de corpus, são referências hoje os livros de Francisco da Silva Borba, Organização de Dicionários: uma introdução á Lexicografia (São Paulo: UNESP, 2003), de Herbert Andreas Welker, Dicionários: uma pequena introdução à Lexicografia (Brasília: Thesaurus, 2004), e a coletânea de artigos organizada por Devino João Zamboim Estudos sobre lexicografia (Araraquara-SP: UNESP, 1993), além de vários estudos esparsos publicados em periódicos e revistas especializadas.

Sue Atkins e Michael Rundell são dois professores e pesquisadores com bastante experiência no assunto que abordam no livro publicado pela Oxford University Press. Atkins foi presidenta da Associação Europeia de Lexicografia (EURALEX) e desenvolveu um método pioneiro na elaboração de dicionários bilíngues extraídos de bancos de dados. Entre suas contribuições mais recentes para a linguística de corpus inclui-se a criação do British National Corpus.

Michael Rundell, autor de um conhecido Dicionário de Cricket (obviamente não no Brasil), também atua ao lado de Sue Atkins (e de Adam Kilgarriff) num projeto muito bem sucedido. Os três são consultores e professores em cursos e workshops sobre lexicografia e computação lexical oferecidos em várias partes do mundo e organizados pela Lexmasterclass (cf. www.lexmasterclass.com).

The Oxford Guide to Practical Lexicography é um livro-texto sobre a feitura de dicionários. A obra mostra o passo a passo de um curso de treinamento de lexicógrafos, mas também se propõe a refletir junto com os leitores sobre o trabalho das editoras e das universidades e sobre o ensino da lexicografia como disciplina acadêmica.

Dividida em três partes, focaliza em primeiro lugar a “pré-lexicografia” (p. 15-257), discorrendo sobre os tipos de dicionários e seus usuários, a evidência lexicográfica, métodos e pesquisas, o encontro entre a linguística teórica e a lexicografia, o planejamento de um dicionário e a decisão sobre as estruturas de entrada no dicionário. A segunda parte trata da “análise dos dados” (p. 261-380), discorrendo acerca da construção de bancos de dados, a partir, primeiro, das palavras e seus significados e, depois, das unidades lexicais. Por fim, a “compilação das entradas” (p. 383-514), que aborda as alternativas para a construção de entradas monolíngues ou bilíngues e para a etapa de tradução.
Os autores explicam a relevância e a aplicação de teorias linguísticas recentes, como a “teoria dos protótipos” (prototype theory), que postula não serem homogêneas as categorias da língua, e a “moldura semântica” (frame semantics), que consiste em considerar não ser possível compreender o significado de uma palavra sem acessar o conhecimento nela envolvido.

Ao final de cada capítulo, os autores apresentam sugestões de leitura específicas para o assunto principal nele focalizado e acrescentam outras indicações para aprofundamento de tópicos também abordados. Além disso, a Bibliografia final da obra é composta de uma exaustiva relação de referências (p. 514-530), e a ela se segue um índice por assunto bastante pormenorizado (p. 531-540).

“Aprende-se lexicografia fazendo lexicografia, preparando outras pessoas para fazer lexicografia e conversando sobre lexicografia com os colegas” (p. 9) – afirmam os autores logo no início do livro. Eis então três ótimas motivações para nossos estudos lexicografia.

Fonte: Revista MATRAGA, 26, jan.jun/2010 (Rio de Janeiro: Inst. de Letras, UERJ), p. 170-2.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Poesia e música (05)

GRAMÁTICO APAIXONADO, de André Conforte e Walace Cestari

Enrolo a língua e fico à míngua
Não faço uma frase.
Quero de fato fazer desse hiato
De novo uma crase.
Meus versos são feitos em forma de oração
Sem subordinação.
Eu sou sujeito e você minha predicação.

Não leve a mal se eu sou radical nessa minha ideia.
Se você vai embora
O orvalho que chora
É uma prosopopeia.
Não meta fora a mim desse nosso assunto
Nós somos conjunto.
Eu quero ser o seu núcleo
E não adjunto.

De qualquer jeito
Eu quero um tempo perfeito de concordância
Com você a dizer:
"Vem cá, meu amor, que hoje é imperativo
Se concretizar esse substantivo
Artigo que me definiu,
Sem você eu não vivo"

Estou com a Norma
Mas isto não é forma de viver feliz.
A Norma é culta
Mas vê se me escuta
Estou por um triz.
Se você fizer questão
Eu lhe peço clemência
Com a máxima urgência.
Dentro do meu coração
Você faz a regência.

Fonte: CD "Pare, Olhe, Escute", do grupo Passagem de Nível (independente, 2008)

sábado, 20 de novembro de 2010

Entrevista (01)


AO JORNAL PONTO FINAL, de Macau (China)

“Ortografia não é língua portuguesa”

Claudio Cezar Henriques, filólogo e escritor brasileiro, está em Macau para uma palestra sobre a reforma ortográfica, hoje na UMAC. Em entrevista, releva a “importância política” do acordo e vinca o interesse comum em que haja uma única ortografia. Que não significa uma única forma de usar a língua.

Hélder Beja [helderbeja.pontofinal@gmail.com]

O PONTO FINAL sentou o idioma à mesa para, entre português de Portugal e português do Brasil, entender outras nuances do novo acordo ortográfico. A companhia foi a de Claudio Cezar Henriques, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, especialista da língua, autor de vários livros – entre eles “A Nova Ortografia”. Hoje, pelas 17h30 na sala HG03, o membro da Academia Brasileira de Filologia que mantém o blogue blogclaudiocezarhenriques.blogspot.com estará na Universidade de Macau para a palestra “Unificação da Ortografia da Língua Portuguesa: uma questão de Política Linguística e de Identidade”, na companhia da professora Ana Lucia de Souza Henriques. E para defender que “a ortografia é uma decisão política, administrativa, e não interfere na língua”.

- Como é que o Brasil encarou este processo de mudança da ortografia?
Claudio Cezar Henriques – No primeiro dia de entrada em vigor da lei [1 de Janeiro] os jornais brasileiros já estavam com a nova ortografia em funcionamento. Como a mudança é pouca em termos percentuais, é muito simples para nós. Houve uma pequena rejeição, até participei em alguns debates com jornalistas, com escritores… Há um sentimento meio romântico, um apego a uma grafia com trema, com acento circunflexo em certas palavras – coisas que tínhamos no Brasil e não eram praticadas em Portugal. Mas isso não é uma questão técnica, é uma questão sentimental. A coisa aconteceu normalmente, o povo aceitou, não houve rejeição do povo. Houve alguns intelectuais reclamando que achavam que isso era uma interferência, que a reforma não tinha sido debatida suficientemente… Não foi debatida suficientemente porque as pessoas não quiseram debater. De repente descobrem que a lei vai entrar em funcionamento e aí se lembram que gostariam de ter debatido. Hoje em dia, nas escolas, media, televisão, tudo usa a nova norma.

- Os ecos de alguma resistência em Portugal ao acordo chegaram ao Brasil?
C.C.H. – Apareceram notícias de que houve em Portugal mais resistência, mas que essa resistência também tende a ser superada. O prazo para a implantação definitiva em Portugal é maior, houve um manifesto, um abaixo-assinado para a assembleia, mas que também não foi acolhido. Não há como haver o retorno para a divergência ortográfica, até porque é do interesse dos dois governos. O ministro da Cultura de Portugal e o ministro da Cultura do Brasil já pleitearam à ONU que o português seja uma língua oficial, já que agora tem uma ortografia só. Porque antes não era possível, a própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa fazia dois textos – um no português brasileiro, outro no português europeu. A minha pergunta é sempre esta: se uma duplicidade ortográfica fosse uma coisa boa, o inglês teria quantas ortografias? E o espanhol? São 22 países que usam o espanhol como língua oficial e só têm uma ortografia. Porque é que o português tinha duas ortografias? A gente que estuda a língua portuguesa sabe que a história da ortografia da língua portuguesa é sempre uma história de conflitos, de alguém que concorda com outro e depois, como dizemos no Brasil, rói a corda, rompe. A história dos acordos ortográficos da língua portuguesa é muito pitoresca, porque são todos acordos que viram desacordos – e o receio era que este também ficasse assim. Mas, pelo visto, já que agora temos oito países na comunidade, é do interesse de todos que tenhamos essa única ortografia.

- Falava do interesse para os governos. Passa por essa facilidade do português em entrar como língua de instituições internacionais?
C.C.H. – Este é o principal motivo para que a gente acredite nesta unificação.

- E aí já entramos no campo da política linguística, de que falará na palestra.
C.C.H. – Na palestra sempre focalizo em primeiro lugar a relevância política do acordo ortográfico. Como especialista em língua portuguesa, tenho uma série de críticas à parte técnica do acordo ortográfico, mas coloco isso sempre em segundo plano. Em primeiro plano está a importância de haver uma ortografia unificada. Prefiro uma má ortografia unificada a duas ortografias que também eram más. Aliás, não existe uma ortografia perfeita. Este acordo tem alguns problemas, que também vou mostrar amanhã.

- Mas nada disso, a seu ver, se sobrepõe à vantagem de haver uma ortografia comum.
C.C.H. – Exacto. Essa parte é sempre muito difícil. No Brasil, por exemplo, não pronunciamos o ‘l’ no final das sílabas como em Portugal se pronuncia. Em Portugal fala-se ‘Portugal’, ‘Brasil’, e no Brasil fala-se ‘Brasiu’, ‘Portugau’. E aí, que fazer? Vamos escrever com ‘u’ no Brasil e com ‘l’ em Portugal? Não vai dar certo. Temos que continuar escrevendo com ‘l’, porque há zonas do Brasil onde se diz o ‘l’, como no Rio Grande do Sul. Quando se escolhe uma grafia, toma-se em consideração a pronúncia prestigiada. Nesse ponto o acordo ortográfico foi muito feliz, porque todas as vezes em que existe divergência de pronúncia sobretudo entre Portugal e Brasil, sempre que uma pronúncia é prestigiada num dos países e não é no outro, essa grafia é válida. Por exemplo, não faz sentido dizermos no Brasil ‘aspecto’ e em Portugal se dizer ‘aspeto’, e alguém dizer que vai ser ‘aspecto’. Se a pronúncia é prestigiada, as duas grafias são correctas. Então a gente vai conviver com uma flutuação ortográfica em casos como esse, o que acho que foi uma decisão correcta. ‘Facto’ será também uma palavra de dupla grafia: é correcto ‘facto’ e ‘fato’. Mas, por exemplo, não faz sentido alguém escrever a palavra ‘direcção’ com ‘c’ e ‘ç’. Em Portugal ninguém fala ‘direcção’. E essa foi uma resistência que aconteceu em Portugal, que é aquela mesma resistência romântica que eu estava dizendo sobre o Brasil. Nesse ponto o acordo foi perfeito: se essa consoante não é pronunciada em nenhuma das comunidades que usa a língua portuguesa, essa consoante desaparece. E foi nesse ponto que o percentual de mudanças para os portugueses superou o percentual de mudanças para o Brasil. No Brasil houve mudança no trema, na perda do acento agudo em alguns ditongos, a perda do acento circunflexo em alguns hiatos e o hífen.

- A percentagem de mudanças na norma de Portugal é maior. É correcto dizer-se que este acordo aproxima mais a ortografia da norma que se pratica no Brasil?
C.C.H. – Essa crítica também não procede, porque a norma que se pratica no Brasil está preservada, mas a norma que se pratica em Portugal também. Aliás, está mais preservada que no Brasil. O caso das consoantes mudas acaba por virar até uma piada. Se a consoante é muda, para que é que está escrita? Porque é que se escreve uma consoante que é muda? Ela podia ser muda, surda e cega, completamente apagada da grafia. Mas veja só: a norma brasileira está abrindo mão da pronúncia de ditongos abertos. ‘Idéia’ não é igual a ‘aldeia’. Nós nitidamente pronunciamos ‘éi’ e ‘ei’. Para os portugueses, esse acento é desnecessário, mas para os brasileiros um acento agudo indica ‘é’ e a ausência de acento agudo indica ‘ê’. Nós vamos ter que nos arranjar com isso. Tínhamos de aproximar as duas ortografias e temos duas realidades fonéticas muito diferentes. Se formos levar em consideração a realidade fonética, não vamos fazer acordo ortográfico nunca, vamos voltar ao tempo do português arcaico, onde cada um escrevia do jeito que queria. É preciso ceder: o Brasil cede um pouco, Portugal cede um pouco e ganhamos todos com o português conquistando mais espaço no mundo. Essa é a grande meta – que a língua portuguesa se fixe como uma língua oficial, aceite nos organismos internacionais e que a gente possa ter portugueses ou pessoas de outros países de língua portuguesa indo para o Brasil, ou brasileiros indo para Portugal, e todos convivendo com isso.

- Outro lugar comum desta discussão sobre o acordo é dizer-se que a simplificação empobrece a ortografia e, logo, o idioma.
C.C.H. – Não penso assim. E isso foi uma coisa em que houve muita confusão, sobretudo dos não especialistas em língua – jornalistas, escritores. Um membro da Academia Brasileira de Letras deu um pronunciamento num jornal dizendo que era contra o acordo e que não ia seguir, que a editora fizesse o que quisesse com os textos dele. É um depoimento completamente louco, diria até meio irresponsável. Mas justamente por quê? Estava confundindo língua com ortografia. Ortografia não é língua portuguesa. Ortografia não faz parte da gramática. Ensina-se ortografia na aula de português por mera proximidade: cabe ao professor de português ensinar a escrever, mas aquilo que ele ensina pode ser determinado por alguém. No dia que alguém der ordem para que se volte a escrever “ph” em vez de “f”, temos de fazer o quê? Temos de obedecer. A ortografia é uma decisão política, administrativa, e não interfere na língua. A língua não mudou, eu continuo dizendo as mesmas palavras. Imaginemos que nós não escrevêssemos, que só falássemos. A língua mudou porque houve uma reforma ortográfica? Então, essa questão de empobrecer a língua é justamente de confundir ortografia com língua. Vou continuar precisando saber o significado que determinada expressão tem em Portugal e que não é usada no Brasil. Se pegar um livro do Pepetela, vou precisar reconhecer o vocabulário da região dele. O Mia Couto escreve e eu não sei o nome de algumas coisas de Moçambique. A língua não mudou, continuamos com essa multifacetada expressão do português, que é uma língua riquíssima. A reforma, apesar de ter simplificado, não tem a ver com o empobrecimento da língua. O empobrecimento da língua se dá quando essa língua não é valorizada pela própria sociedade que a pratica. Todos nós temos uma grande responsabilidade: Portugal porque é a pátria onde tudo começou, e o Brasil pelo contingente populacional que tem.

- Também em Macau?
C.C.H. – Se Portugal e o Brasil não investirem em Macau no ensino de língua portuguesa, certamente a língua portuguesa vai-se deteriorar aqui. É lógico que há muitos factores que interferem nisso, não é apenas a acção política de um Governo que vai impedir isso, mas pode retardar e, quem sabe, mudar o quadro.

- Macau está numa posição curiosa. O português é língua oficial mas Macau não participou neste processo da reforma ortográfica. Parece haver uma certa vontade de não adoptar a nova norma. Por outro lado, há quem perceba que, como centro de ensino do português, não deve retardar essa introdução da nova norma. É um caso especial, este?
C.C.H. – Tem razão, a questão aqui é que as pessoas que querem estudar o português têm uma finalidade para isso. Hoje [ontem] perguntei para duas meninas: por que é que vocês foram estudar português? Então elas disseram que queriam estudar uma língua estrangeira. Esse sentimento de estudar uma língua estrangeira… Mas o português para todos os efeitos não é tanto assim uma língua estrangeira para o povo de Macau, até 1999 era administrado por Portugal. Acontece que por outro ponto de vista é uma língua estrangeira porque as pessoas daqui não a falam. Está tudo escrito em português, no aeroporto, nas ruas, nas placas, nos hotéis, mas se falarmos com algum recepcionista em português ele não vai entender. Então a segunda língua dele certamente é o inglês. Isto é uma questão que a comunidade de Macau precisa de avaliar. A importância da língua portuguesa para o povo de Macau é algo que compete à cidade decidir o que é que significa. Para nós é muito cómodo dizer que é importante estudar português, o Brasil é um grande país, Portugal tem uma História maravilhosa, mas e para eles? Talvez se a presença brasileira ou portuguesa aqui fosse maior, mas eu não sei… não conheço.

- Ainda assim, como acha que se pode resolver a questão?
C.C.H. – Em Macau, como qualquer local do mundo onde se use a língua portuguesa, como Malaca, Goa, ou mesmo nos países onde há comunidades portuguesas, como o Canadá e os Estados Unidos, o que é que vai acontecer com o português? Vai ficar com uma ortografia só e todos terão de escrever nessa ortografia. O que acontece com o espanhol. Então, onde houver algum grupo usando a língua portuguesa terão de se submeter. Acho que, politicamente, o que seria conveniente seria que alguém de Macau, uma autoridade, alguém ligado ao ensino do português aqui, fosse convidado não necessariamente para debater – porque na verdade não há nada para debater, a coisa já está feita – mas a título de prestígio, porque é prestigiar as comunidades. Embora ainda seja língua oficial percebe-se que está a acontecer esta perda, este afastamento. O que a gente lê nos livros e nas notícias é que aqui o português está sendo suplantado pelo inglês. Enfim, eu acho que essa questão acaba sendo resolvida dessa forma. Há um acordo, é oficial, vai passar o tempo e aí as coisas vão-se acomodar. E para todos os efeitos, na comunidade internacional, o português hoje tem uma ortografia só. Nem que seja só pelo aspecto psicológico. Na prática isso não está acontecendo completamente mas a gente sabe que é para lá que nos estamos encaminhando.



Fonte: Jornal PONTO FINAL, 21 de setembro de 2010 (Macau - China)