quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Poesia e Música (10)

O QUERERES (Caetano Veloso)
lp “Velô”, 1984

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão.

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres caubói, eu sou chinês.

Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução
E onde queres bandido, eu sou o herói.

Eu queria querer-te amar o amor
Construirmos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou
Não te quero e não queres como és...

Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!

Onde queres comício, flipper vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
E onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus.

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim!

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desse texto,

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Poesia e Música (09)

OLHOS NOS OLHOS, de Chico Buarque
lp "Meus Caros Amigos", 1976

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.

Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de atividade léxico-semântica desse texto,

Poesia e Música (08)

"FOGO E GASOLINA", de Pedro Luís e Carlos Rennó
cd "Passione", 2010

Você é um avião e eu sou um edifício
Eu sou um abrigo e você é um míssil
Eu sou a mata e você é a motosserra
Eu sou um terremoto e você a Terra.

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina.

Você é o fósforo e eu sou o pavio
Você é um torpedo e eu sou um navio
Você é o trem e eu sou o trilho
Eu sou o dedo e você é o meu gatilho.

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina
Nós somos fogo, nós somos fogo
Nós somos fogo e gás.

Eu sou a veia e você é a agulha
Eu sou o gás e você é a fagulha
Eu sou o fogo e você é a gasolina
Eu sou a pólvora e você a mina.

O nosso jogo perigoso combina
Nós somos fogo, nós somos fogo

Nós somos fogo e gasolina.

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desse texto,

Poesia (07)

SONETO, de Mário Faustino


Mário Faustino (1930-1962), poeta, tradutor e crítico literário nascido em Teresina. 

E sonhou a mulher que se cumprira.
E sonhou que no ventre da guitarra
Silente uma semente se partira
Em pranto, riso e música, fanfarra

De dor e glória por delfim nascido.
E sonhou a mulher que, enfim florido,
Seu trato de terreno roxo, aberto,
Dormia sem sonhar sobre o deserto

Passado que em futuro então se abria
Frutificando em palmas de alegria.
Na lira umbilical Orfeu tocava

Acalanto ilusório à que dormia
E entre árvores de sonho balançava
A rede filial inda vazia.

Fonte: Poesia de Mário Faustino. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
Obs.: José Carlos de Azeredo interpreta este soneto em artigo publicado no livro Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação (Rio de Janeiro: GEN, 2018).

Poesia e Música (06)

COMPARANDO METADES (Oswaldo Montenegro & Ferreira Gullar)

TEXTO I
Metade (Oswaldo Montenegro)
gravado no lp “Trilhas”, de 1977.

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta

Mesmo que ela não saiba.

TEXTO II
Traduzir-se (Ferreira Gullar) - extraído de Na Vertigem do Dia, 1980
Fonte: Poesia Completa e Prosa, 2008, p. 293-4.
gravado por Fagner no lp “Traduzir-se”, de 1981.

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Fonte: Léxico e Semântica, 1a edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).
Obs.: Na 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018) há uma proposta de análise léxico-semântica desses dois textos,


Acadêmico (06)

INTERPRETANDO "POEMA DO BECO"

Manuel Bandeira (1886-1968), em 1933, escreveu o “Poema do Beco”, que dizia concisamente em dois versos:

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
– O que eu vejo é o beco.

O pobre “beco” onde Bandeira morava, na rua Moraes Vale, perto da Lapa, no Rio de Janeiro, não deixa de ser uma rua estreita e curta, por vezes sem saída, uma ruela, como dizem os dicionários. O beco é uma ponta do poema; a outra ponta é a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte: ruela versus horizonte. Mas o poeta diz que aquela amplidão não lhe importa, pois o que ele vê é o beco.

A “linha do horizonte” é o antônimo do “beco” na pertinência ou na impertinência? Em ambas? O poeta vê o beco porque o enxerga, avista, divisa? Ou porque o contempla, reconhece, analisa? Cabe discutir as escolhas sobre o verbo ou mesmo juntar esses significados diante da frase seca do segundo verso. O contraste fica resolvido na expressão “que importa” que inicia o poema, mas sabemos que o beco não é, a princípio, metonímia de nada (o poeta morava mesmo num beco). Não precisava ser... se não assumisse no texto o lugar de “meu mundo”, “meu habitat”, diante da grandeza da outra ponta, nada menos do que a “linha do horizonte”.

Manuel Bandeira, nove anos depois do “Poema do Beco”, resolveu retornar a ele e escreveu a “Última Canção do Beco”, agora com 49 versos.

Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhãs,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhãs!

Beco das minhas tristezas.
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobres quando,
Pobre, vim morar aqui.

Lapa – Lapa do Desterro –
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)

Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmolas para os pobres,
– Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vêm nas portas do templo
De noite se agasalhar.

Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas.
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!

Vão demolir a casa do beco (e aqui o sentido é literal), mas seu quarto (agora metonimicamente como “as lembranças do quarto”) vai permanecer “na eternidade, com seus livros, seus quadros”. O quarto vai ficar intacto, suspenso no ar.

A sequência de estrofes enumera características que entremeiam a subjetividade do eu-lírico e a descrição de pessoas e figuras, imagens e experiências. Numa delas, fala-se das paixões; noutra, das mulheres; adiante, da Lapa; a penúltima, de Nossa Senhora do Carmo; a última, do seu amor pelo beco. Carregados de contradições, os versos reafirmam as mesmas elipses do dístico. A outra ponta do beco, porém, mudou. Sumiu a paisagem da Glória, que realmente nunca importara mesmo. Agora a outra ponta vem da Lapa, paisagem para cima, diferente da paisagem para baixo ou para frente da Glória, do horizonte. Já que o beco nasceu “à sombra de paredes conventuais”, ele é como a vida (“que é santa”), assiste a todas as quedas, consola-as, é amado e saudado pela última vez: “Adeus para nunca mais!”[1]

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).


[1] Manuel Bandeira escreveria ainda dois poemas conjugados sob o título “Duas Canções do Tempo do Beco”, a saber:”Primeira Canção do Beco” e “Segunda Canção do Beco”. Integram o livro “Estrela da Tarde”, que reúne poesias (a maioria sem data) escritas entre 1957 e 1966.

Acadêmico (05)

INTERPRETANDO "PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES"

Como nossa “antena” reagiria diante da palavra “canhão”? Ela está presente numa música de Geraldo Vandré que se tornou um hino de resistência à ditadura: “Pra não dizer que não falei das flores” (1968, lp “Festival da Canção”).

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer - (2 vezes)

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão...

A palavra “canhão” está usada metonimicamente nessa música. Aliás, há duas metonímias se confrontando nesse trecho: as flores, que representam a paz, e o canhão, que representa a guerra.
Observemos agora o trecho final:

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não...

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição...

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer...

A letra de Geraldo Vandré está quase toda em linguagem figurada. Se repararmos no estribilho a expressão “Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer”, é claro que não tomaremos seu sentido literalmente, pois ninguém faz a hora. A metonímia aqui se refere ao que simboliza essa palavra: “hora” é “tempo” e “tempo” é a própria vida. Quem sabe, age, decide sua vida; não espera acontecer...

Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Acadêmico (04)

INTERPRETANDO "LOVE"

Tomemos a letra da canção intitulada “Love”, de Paulo Padilha (cd “Simone: Na Veia”, 2010). Nela, o enunciador apresenta apenas uma lista de ações que pretende ver praticadas pela pessoa amada (“Quero que você...”). Completam esse comando sintático dois itens lexicais: (a) um pronome objeto que faz a ação do verbo da segunda oração retornar para o sujeito de “quero”; e (b) verbos transitivos (apenas “baby” foge desse quesito) selecionados a partir de seus traços, prioritariamente, fônicos e, secundariamente, semânticos:

Quero que você me traga
Que você me trague
Quero que você me trombe
Que você me estrague

Quero que você me beije, baby
Que me beba e babe
Quero que você me pinte
Que me pegue e pague
Que você me cubra
Que você me cobre
Que você me cure
Que você me core
Que você me cace
E que você me coce
Quero que você me adote
Que você me adore
Quero que você me exploda
Que você me explore
Quero que você me cheire
Que você me chore
Quero que você me xingue
Que você me choque
Que você me livre
Que você me leve
Que você me lavre
Que você me lave
Que você me louve
E que você me love


A lista de desejos gera polissemia ou ambiguidade, conforme o gosto do analista. Mas, como dizia Saussure, a linguagem é a capacidade que os homens têm de comunicar-se por meio de signos (1972, p. 18). Devemos observar então que todas as ações pedidas/apresentadas pelo enunciador são, a princípio, favoráveis à consumação amorosa pretendida, pois até as metáforas de “trombar”, “caçar”, “explodir”, “xingar” podem ser facilmente convertidas em atos comprobatórios de uma paixão sem limites, físicos ou espirituais. Neste caso, porém, não interessam mais os signos, mas suas significações, que culminam na original solução morfossemântica da proposta de “que você me love”. Na simetria da estrofe terminada por verbos da 1a. conjugação (livrar>livre, levar>leve, lavrar>lavre, lavar>lave e louvar>louve) no presente do subjuntivo (com VT -e), a palavra inglesa “love” vira o verbo “lovar” do português, conjuga-se no paradigma da estrofe e resume como hiperônimo todos os verbos hipônimos dos versos anteriores.
Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 2a. edição (Rio de Janeiro: GEN, 2018)
- no prelo, vrs. expandida.

Charge (01)

ISTO É UM ASSALTO, de Millôr Fernandes. Esta charge faz intertextualidade com a conhecida crônica de Carlos Drummond de Andrade, intitulada "Assalto". O comentário completo está publicado na 2a edição do livro "Léxico e Semântica" (Rio de Janeiro: GEN, 2018 - no prelo).



Fonte: Léxico e Semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação, 1a. edição (Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Académico (03)

DITOSA LÍNGUA (Hélia Correia)

A escritora portuguesa HÉLIA CORREIA recebeu no dia 7 de julho de 2015 o Prémio Camões em Lisboa. Este é o texto que a escritora leu na entrega.

A escritora portuguesa O peso destes nomes curvaria gente bem mais robusta do que eu, não fosse o caso de a leveza ser o primeiro atributo de um escritor. Aliás, quanto mais os frequentamos, menor pavor inspira a sua sombra. Não venho aqui como parceira mas como íntima, como alguém mais ligado pelo amor do que por ambições identitárias. Com Luis de Camões passeio em Sintra, enquanto ele espera o jovem rei que anda pelos bosques, enfeitiçado, já um pouco ensandecido. E a ligação aos meus contemporâneos, Sophia e Saramago, Eduardo Lourenço, Maria Velho da Costa, Mia Couto, feita de encantamento e aprendizagem, toca-me infantilmente o coração quando me traz afinidades, uma flor de frangipani que esvoaça num jardim de Maputo, as palavras que não partiram com quem já partiu, uma tão querida voz ao telefone, uma carta enfeitada de papoulas. Estou com eles, não entre eles. E assim estou bem.

Devo falar de tripla gratidão: a gratidão aos promotores deste prémio ao qual foi dado o nome maior das nossas letras, a gratidão aos membros do júri que escolheram a minha escrita para tamanha dádiva, a gratidão a um acaso de nascimento que me deu como língua materna o português. 

Também com gratidão evoco a tão citada, e mal, passagem escrita por Pessoa, aliás Bernardo Soares, pois que, achando-se escrita, e por ele escrita, me abre um certo caminho à ousadia: que amo mais a língua do que a pátriaQue me imagino armada, a defendê-la contra quem a quisesse aniquilar. As lutas pela independência que travámos deixam-me o arrepio de pensar que o português se perderia, se perdêssemos. Que morte há de ter sido a de Camões, julgando que morria com a pátria, isto é, com o lugar dos seus poemas!

Rodrigues Lobo formulou-lhe o elogio de maneira concisa e musical ("branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver") durante a ocupação filipina. Os rumos da política eram uns, o castelhano em palácio havia muito que se fazia ouvir, mas essa língua da nação, tão acabada que sem esforço hoje a lemos, tão fadada para arrebatamentos de oratória como para a sátira, como para o lirismo, cultivando sem vénia a erudição para logo a seguir brincar com ela, essa língua era a grande resistente – não a expressão de um povo: a sua essência.

Faz agora oito séculos esta língua. É a prosa formal de um testamento que atesta a data. E prosas há tão belas naquele dealbar, tão saborosas ainda quando anónimas, que dir-se-iam um bom pressentimento sobre o tanto e o tão grandioso que depois ia ser escrito. Mas é na poesia que parece avistar-se um destino, no sentido não de fatalidade mas daquilo a que alguns chamam o talento colectivo e que talvez não passe de especial, convidativa variedade na fonética.

Fácil é para nós esta função de herdeiros de tesouro tão diverso e tão bem acabado, tão antigo e, no entanto, tão reconhecível. Enquanto noutras línguas a pronúncia se foi modificando, a ponto de uma rima do século XIX já não se efectivar passadas décadas, nós cantamos Camões sem que se torne necessária qualquer adaptação. Como se cada uma das palavras reconhecesse o seu momento de perfeição e nele se detivesse, porque o quis. O apetite pelos estrangeirismos, moderado que foi, não lhe fez mal. Incorporou-os elegantemente. Não me refiro às condições presentes, pois, do que ninguém sabe, ninguém fala. E ninguém sabe o que está hoje a acontecer.

Esta paixão pela língua portuguesa, que aqui confesso, cega não será, superlativa muito menos. Entendo-a rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu multiplicou. Mas nunca afirmarei que é a mais rica ou a mais bela do mundo. Cada povo verá no seu idioma mais virtudes que em idiomas alheios. Que a disputa, se a houver, seja festiva, pois que os idiomas não ocupam espaço e não geram rivais mas poliglotas. Anterior à festa, está, porém, aquilo que dizem História. E a História é bruta e territorial.
Para abordar o assunto do domínio da língua portuguesa sobre os povos são necessários delicadeza e conhecimento, inteligência e desassombro em dose máxima. Dou-me por incapaz e renuncio a uma tentativa de discurso. Sei, sim, que houve opressão e apagamento. Mas talvez não nos caiba desculparmo-nos pelos conceitos e acções de antepassados, visto que não nos assumimos legatários e o continuum moral já foi cortado. Algum dia teremos, quero crer, a congratulação como vingança.

As línguas são os únicos seres vivos que não têm origem natural. O erro humano pode prolongar-se, mesmo inocentemente, por descuido. O português carregará ainda alguma febre imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica progride.

Que desígnio será o seu, agora, se não o de trocar e conviver, isto é, integrar a plenitude, reconhecendo e respeitando a alteridade? Com os nossos instrumentos humanistas, seremos nós os capazes de "Medir", como escreve o Professor Eduardo Lourenço, "esse impalpável mas não menos denso sentimento de distância cultural que separa, no interior da mesma língua, esses novos imaginários"?

Como num pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média que nos ameaça não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se, tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.

O nosso mundo de sobreviventes está seguro por laços muitos finos. Eu vejo os fios que unem os textos nas diversas versões do português, leves fios resistentes e aplicados a construírem uma teia que não rasgue. Quando o angolano Ondjaki dedica um poema ao brasileiro Manoel de Barros, quando Mia Couto reconhece a influência que teve Guimarães Rosa na sua escrita transfiguradora e transfigurada pelas africanas narrativas do seu povo; quando a portuguesa Maria Gabriela Llansol considera Lispector «uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro», vemos a língua portuguesa a ocupar – não como o invasor ocupa a terra, mas como o sangue ocupa o coração – um espaço livre, um sítio para viver, uma comunidade de diferenças elástica, simbiótica e altiva. Esta é a ditosa língua, minha amada.

Eu dedico este prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, "não seríamos nada". Viva a Grécia!

Fonte: Jornal PÚBLICO, 07 de julho de 2015.