quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Crônica (13)

DOIS CRONISTAS CONVIDADOS
Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por dois alunos do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2013-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA, assunto de nosso curso.

GRAMÁTICA, VIDA E FLEXÕES (por Alberto Lopes)

Se repararmos bem, a vida humana e a gramática fazem paralelo em inúmeras situações. Na vida, há pessoas que agem sempre em prol da comunidade. Por isso, nas suas tomadas de decisão, levam sempre em consideração o respeito ao próximo, relativizando suas ideias, aparando arestas, cedendo e revendo seus conceitos, visando sempre chegar a um denominador comum com seus pares. Em contrapartida, há os ensimesmados, os que veem a vida de forma unilateral, absolutos nas ideias, porque – como diz Caetano – “Narciso acha feio o que não é espelho”.

Com a gramática não é diferente. Vejamos, por exemplo, o caso da flexão nominal em que substantivos e adjetivos são capazes de cederem, modificando-se para concordarem entre si em gênero e número, e os casos de derivações em que os nomes se modificam apenas para se destacarem dos outros. Em “o povo sábio unido jamais será vencido”, há concordância entre o substantivo “povo” e seus pares “sábio”, “unido” e “vencido”, mas em “o povo sapientíssimo unido jamais será vencido”, o grau superlativo absoluto sintético “sapientíssimo” difere dos outros elementos para atribuir uma qualidade elevada ao substantivo “povo”.

O interessante, nesse paralelo, é perceber quão descartável é tudo aquilo que vive isolado da sua comunidade. Quem se isola e vive olhando para o próprio umbigo não faz falta a ninguém, da mesma forma que o grau atribuído a uma classe gramatical para singularizá-la também é prescindível. É possível conviver pacificamente com todos os gêneros sociais em qualquer número, mas só até o momento em que uma das partes não se exalta diante da outra. A harmonia entre os termos de uma frase se faz justamente porque há nesses termos a capacidade de cederem para concordarem. Em “ o povo unido jamais será vencido” podemos perceber a ausência do morfema “s”, que só entrará em cena se o substantivo e todos os seus parceiros forem para o plural. Já em “sapientíssimo...”, o adjetivo “sapiente” agrega a si o sufixo “-íssimo”, ou seja, um substantivo ou um adjetivo não cedem para se graduarem, ao contrário, acrescentam para se graduarem e se graduam para se destacarem. Por isso, a única forma de uma palavra se graduar é não concordando com as outras, e só há concordância onde se é capaz de ceder. Flexão é solidariedade, derivação é soledade. Ser flexível é viver em sociedade e perpetuar a vida, ser ensimesmado é viver ilhado em uma autofagia finita.

Mas, se na gramática não há concordância do número e do gênero com o grau, na sociedade vislumbro uma possibilidade. É possível alguém ser graduado e viver em concordância com os outros gêneros sociais. Para isso, é preciso flexibilizar-se, abster-se dos superlativos que o distanciam do homem comum; dessufixar-se e desinenciar-se para relativizar as regras e horizontalizá-las; ter envergadura suficiente para mirar com bons olhos o que tem a seus pés. Quem sabe assim possamos realizar, na vida, um feito impossível no âmbito gramatical, que é concordarmos em gênero, número e grau, possibilitando a frase “O povívissimo, sapientíssimo unidíssimo, jamaisíssimo será vencidíssimo”.

Q VC DISSE? (por Pâmela de Paula da Silva)

Depois de muita relutância, decidi criar uma identidade no tal facebook. Não aguentava mais ouvir e não entender os meus alunos dizendo que mandariam o trabalho via “face”, perguntando se eu tinha visto a página tal, o comentário de não sei quem... E lá fui eu criar um perfil, como se não tivesse mais nada para fazer (naquele dia, eu realmente não tinha).

Minha primeira interação foi com a Carol, uma aluna que mandou a seguinte mensagem: “Oi, prof! Td blz?” Minha resposta foi outra pergunta: “Oi?” Do que ela estava falando? “Prof.” eu até entendi... Mas, o que era “Td” e “blz”? Carol só disse:”OMG! rsrs”. Tudo bem, amanhã vejo isso.

O assunto do dia seguinte era: Siglas e Abreviaturas. Comecei a aula explicando a importância que elas têm na comunicação escrita e também na falada, por conferir economia de letras ao enunciado e facilitar a comunicação entre diferentes línguas. Dei os exemplos clássicos como ONU, já que todos conhecem. Nem todos conheciam. Carol foi a primeira a perguntar o que era aquilo. Patrícia (Paty, como gostava de ser chamada) logo disse que também nunca havia escutado isso. Como assim? Algo tão importante como a ONU não era conhecido? Segui a aula falando das abreviaturas. Dei outros exemplos, clássicos também, como “masc.”, “fem.”, “admin.”... Só o último Paty conhecia. Falou que aparecia no “face”. Ah! O “face”! Lembrei do que Carol falou ontem e não consegui me segurar, fui no automático: “Carol, o que foi aquilo que você me disse ontem?”

Todos riram. Não achei graça. Acho que ela já tinha espalhado a notícia. Mesmo assim, não via motivo para o riso. Jorge, que se mostrava o mais compreensivo entre os colegas, falou: “É a economia, professora!” “Hã?” “É que, quando falamos pelo “chat”, também usamos siglas e abreviaturas para o texto não ficar muito grande. É comum. A professora não sabia porque fugia da internet. Agora, já sabe. Viu? Também podemos ensinar algo!” E deu aquele sorriso maroto.

Quando cheguei a minha casa, abri o facebook. Vi uma mensagem do Jorge: “É q qnd falamos pelo chat, tbm usamos siglas e abrev. p/ o texto ñ ficar mto grd. É comum. A prof ñ sabia pq fugia da net. Agr, já sabe. Viu? Tbm podemos ensinar algo! rsrsrsrsrs”

A lição que tirei disso? De que adianta teoria se não a usamos na prática cotidiana?

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2013

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MORFOLOGIA - PREFÁCIO DA 4a EDIÇÃO



A fase de transição das reformas na nossa ortografia, a fim de ficar paralela com o calendário adotado em Portugal, foi prorrogada até o final de 2015. Essas mudanças, porém, estão de tal modo consolidadas em nosso País que este Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica precisa retomar seu trajeto e se atualizar. A assinatura do Decreto que promulgou o Acordo Ortográfico resultou na necessidade de que modificássemos este livro em relação às três edições anteriores. A mais importante dessas mudanças é a que decorre das determinações do Acordo quanto ao emprego (e ao não emprego) do hífen. Assim, revimos minuciosamente todas as passagens em que os assuntoscomposição de palavras” e “derivação prefixal” estão envolvidos, mas também foi precisorearrumar” muitas afirmações que se referiam a outros aspectos teóricos.
O texto do Acordo interveio na descrição gramatical e gerou situações embaraçosas para o pesquisador, professor, estudiosoespecialmente nos assuntos de morfologia. Por exemplo, não é mais permitido o uso de hífen depois dos elementosnão” e “quase”. Antes, se escrevia “não-agressão”, “não-eu” ou “quase-contrato”, “quase-irmão”. Agora, essas palavras se escrevem sem hífen. Um pequeno problema seria identificar, após a mudança, qual a classe gramatical de “não” e “quase” nesses sintagmas (advérbios? palavras denotativas?). Problema maior mesmo, porém, é explicar quenão” e “quase”, embora separados das suas palavras parceiras por espaço em branco, continuam sendo chamados de “prefixos” (sic) nas páginas de nossas leis ortográficas... Criou-se então a estranha figura do prefixo que não está agregado ao radical (in+feliz = infeliz) nem está separado dele por hífen (pré+barroco = pré-barroco). Existe (?) agora o prefixo que se separa do radical por um espaço em branco (não + cooperação = não cooperação).
Além disso, há casos que apresentam a identificação, descrição e classificação de morfemas pela tradição praticada em Portugal, colocando em xeque o que se consolidou em nossas terras. Pelo texto do Acordo, lê-se que prefixos são elementos que atuam na composiçãoquando para nós, diferentemente, prefixação é um caso de derivação. São situações que precisam ser esclarecidas, como também as que envolvem antigos substantivos compostos (pé-de-moleque, mula-sem-cabeça), que assumem o status de locuções substantivas, expressões idiomáticas ( de moleque, mula sem cabeça). Perdem, portanto, a condição de “palavra”, que o desaparecimento dos hifens tirou delas a feição de unidade lexical.
Outro dado relevante sobre esta edição se refere à atualização das informações bibliográficas, à inclusão da questão de morfologia proposta no Enade 2011 e à inserção de um Índice por Assuntolacuna resolvida com a competente ajuda do colega André Conforte.
*
O leitor desta quarta edição deve então considerá-lo sob essa perspectiva.
Em resumo: novas explicações, novos comentários e novos exercícios, pois também nos estudos da línguaViver é etcétera”...
O Autor

sábado, 18 de maio de 2013

Crônica (12)

DUAS CRONISTAS CONVIDADAS
Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por duas alunas do sétimo período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2012-2 do Instituto de Letras). O tema era GRAMÁTICA+LITERATURA, assunto de nosso curso.

ANDORINHA (por Isabela Fornazier)

Nunca fui da poesia, dos poemas. Muito menos do estudo deles. Mas, ao entrar numa faculdade de Letras, estudá-los e lê-los tornam-se obrigação. Eis que entrei. Passei a sê-lo menos ainda.

Os primeiros contatos não foram muito bons, como era de se esperar. Eles repeliam-me, o que eu podia fazer? Passaram desordenados Gonçalves, Casimiros, Mários, Adélias, Castros – Cruzes! Nem sequer Machado, de cuja prosa sempre fui grande admiradora, deu-me jeito. Poesia, para mim, apenas dissolvida na prosa. Chegou então o Manuel.

Andorinha, andorinha, minha cantiga não é mais triste, não! No momento certo, o Manuel chegou-me com a Andorinha. Poema breve: duas estrofes, dois versos em cada uma. Na primeira estrofe, a andorinha lá fora e seu dia à toa, à toa. Na segunda, o eu lírico lá dentro e sua vida à toa, à toa. Separação de estrofes e de melancolias. Enquanto lia repetidas vezes, eu me lembrava do pensamento clichê que me impulsionara, felizmente, para tantas decisões na vida. Foi como se o Manuel, com o perdão pelo infame trocadilho, tivesse hasteado uma enorme bandeira na minha memória, que tendia a falhar, dizendo: cante, andorinha.

No encontro com a tal ave, não houve modo de não a relacionar também à vida de seu autor. O vocativo criado possivelmente serviu-lhe de reflexo ao que o perseguiu ao longo de sua vida longa: a iminência da morte desde os dezoito. E numa outra época, lugar e situação, estava eu, lendo, lendo, lendo, lidando não mais com a iminência da poesia; ela já havia me alcançado.

A partir dos quatro versos-bandeira, deixei que o resto do livro passasse todas as suas páginas amareladas diversas vezes pelos meus olhos e mãos. E foi impossível não lhes ser: não satisfeito em passá-las, entranhou-as em mim. Ainda eu não era de todos os poemas da literatura (quem os é?), mas ali aparecia o que parecia a primeira faísca de uma talvez futura fogueira.

Se uma andorinha não faz verão no lugar-comum, naquele momento que vivi ela o fez. A andorinha do Manuel, vazia, só, de cantiga triste, ironizada melancolicamente pela cantiga do eu lírico, carregava em si mais um dos dias manuelinos. Para mim, essa mesma andorinha carregou o meu vazio e me trouxe a clareza de volta. Por pura coincidência, era verão lá fora. Agora, era também aqui dentro.

Nunca fui da poesia, dos poemas. Muito menos do estudo deles. Mas, ao entrar numa faculdade de Letras, estudá-los e lê-los tornam-se obrigação. Eis que entrei. Passei a ser andorinha feliz.

NO MEIO DO CAMINHO (por Vanessa Gomes Teixeira)

Um dia qualquer. Uma ida qualquer ao trabalho. Sete horas da manhã. O ônibus lotado. Um trânsito infernal. Parece que houve um acidente e há um carro no meio da pista. Ao organizar esse pensamento, lembro imediatamente do poema do Carlos Drummond de Andrade, aquele que fala sobre a pedra no meio do caminho. Entediada por causa do calor e dos carros que não andam, fico com estes versos na cabeça: “tinha uma pedra no meio do caminho” / “no meio do caminho tinha uma pedra”.

Por que será que Drummond repete tantas vezes as palavras “pedra” e “caminho”? Apesar de o poema ter apenas dez versos, “pedra” é repetida sete vezes e “caminho” é repetida seis vezes... Afinal, o que será que essa observação do poeta significa? Sei que há estudos que explicam que a pedra, na verdade, é uma metáfora dos problemas da vida... E se for, será que o poema fala que os problemas nunca acabam, já que, na própria estrutura textual, a pedra bloqueia o caminho antes e depois nos versos? Será que essa sequência “tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra” cria obstáculos que se desencadeiam sem fim? Além disso, se a pedra representar mesmo os problemas da vida, será que esse trânsito é a pedra do meu caminho?

Tenho meu pensamento interrompido por um barulho de buzina e percebo que o ônibus se aproximou do local do acidente. Na verdade, também tinha um caminhão envolvido na batida: pessoas recebendo ajuda médica, vidros quebrados no chão e muitos espectadores observando de longe (o que causava todo o transtorno, por sinal). Paro para pensar e me questiono de novo: será que os veículos são realmente as pedras no meio do caminho ou sou eu o obstáculo que impede que a ajuda chegue mais rapidamente para os feridos? Concluo que, talvez, "ter problemas" seja uma questão de ponto de vista, já que eu me preocupava apenas em chegar ao trabalho enquanto pessoas tentavam sobreviver a uma tragédia. No final das contas, me sinto mal por ter me preocupado com uma pedrinha enquanto pessoas a poucos metros de mim enfrentavam um pedregulho.

Novamente meu raciocínio é interrompido, agora por um barulho de ambulância. Escuto um passageiro perguntando se alguém teve ferimentos graves: para o alívio de todos, as vítimas estavam bem. Após passar por essa experiência, vou para o trabalho refletindo que, assim como o poeta, acho que nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão estressadas por causa da rotina. Talvez a grande lição de Drummond para nós não foi ter colocado um obstáculo no caminho e, sim, ter colocado a pedra no meio dele, para que pensemos sempre sobre como retirá-la e continuar seguindo a nossa estrada até o fim.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Crônica (11)

ELA ME IRRITA, MAS EU GOSTO
[por Gabrielle Martins Soares, cronista convidada - aluna do quinto período do Instituto de Letras da UERJ]

Não! Respondi sem titubear quando a proposta me foi feita. Como eu poderia aceitar o convite para ser professora de língua portuguesa de um pré-vestibular comunitário, se ainda não me sentia preparada para solucionar as questões problemáticas desse emaranhado de normas que formam a chamada língua culta – ou padrão, para quem tem um maior apreço pelas variações linguísticas?

Para não perder a oportunidade de ganhar o título de professora, peguei a turma de redação, e há três anos me mantenho frente a ela. Ledo engano para quem achou que saber a necessidade de uma introdução, três argumentos e uma conclusão seria o suficiente para dar aulas de produção textual. Ao longo desses anos de “casa”, descobri que, se eu não quisesse me deparar com dúvidas complexas acerca da língua, deveria ser professora de matemática.

Ainda este ano, tive que tirar do bolso a fatídica frase – vou pesquisar e na aula que vem eu te digo – para responder por que malvado é com l, logo após explicar a diferença entre mau e mal. Muitas “aulas que vem” se passaram e eu ainda não descobri. Eventualmente, amorfologia se mostra um problema. Contudo, o que realmente me confunde é a sintaxe, essa bondosa malvada coordenadora de palavras e orações, que assusta desde os pré-vestibulandos até os professores da língua.

Sempre escutei que “nunca se separa sujeito de predicado numa frase escrita na ordem direta” e nunca não permite exceções. E lá estava eu, de frente para um livro que deveria solucionar minhas dúvidas, tentando compreender as regras de subordinação de orações, quando me deparo com um “Quem tudo quer, nada tem”. Opa! Pode isso, Arnaldo? O que aquela virgulazinha está fazendo ali entre o sujeito e o predicado? No canto superior esquerdo do livro está a minha resposta escrita a lápis: a vírgula é por estilo e é permitida. Quando eu escrevi isso? Quando eu aceitei essa explicação sem fazer um escarcéu? A regra é clara. Nunca é nunca. A coordenadora das relações oracionais não deveria permitir isso, mas quando a chefe da empresa, a senhorita Estilística – solteira, nunca se vincula – diz que pode; então, pode.

Eu defendia a ideia de que “toda a regra tem uma exceção”; só que, pelo visto, não ando em consonância com o que costumava afirmar. Não gosto de abrir concessões em alguns casos. Isso me irrita. O verbo ser serve para designar estado, condição, é o famoso verbo de ligação: liga o sujeito ao seu predicativo. Entretanto – tinha que ter um porém –, quando for usado para indicar tempo ou fenômenos meteorológicos, fará parte de uma oração sem sujeito. Em “são duas horas”, por exemplo, são deveria ser verbo de ligação, mas não o é, afinal, está ligando o que, se não há sujeito? E duas horas? Não sendo predicativo, nem objeto direto ou indireto, é o quê? Para finalizar, a parte mais interessante dessa pequena estrutura oracional é que o verbo concorda com o sintagma duas horas, o que quer que este seja. Dentre todos os verbos impessoais que definem tempo, somente o verbo ser varia de acordo com a expressão numérica. Até Hamlet se questionava sobre isso: “Ser ou não ser, eis a questão”.

Expostas algumas das minhas picuinhas com a sintaxe da língua portuguesa, devo confessar que paradoxalmente eu gosto disso tudo. O que me irrita me atrai e quem desdenha quer comprar. O importante é saber que sempre terei uma “aula que vem” e gramáticas não irão me faltar. Dessa vez, quando vier um convite para dar aulas de português, a resposta será sonora. Sim!!!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012.

terça-feira, 6 de março de 2012

Crônica (10)

LOUCOS SOIS, ADVERBIAIS
[por Allex Machado, cronista convidado - aluno do quarto período do Instituto de Letras da UERJ]

Se ter um prazo a cumprir torna qualquer tarefa escrita árdua pelo peso de seu compromisso, um problema maior do que este está justamente em não saber exatamente sobre o que se quer escrever. Tal indecisão faz imaginar-me, então, na posição do colunista morfológico cujas obrigações são de expor, semana após semana, curiosidades, lições, estudos, ensinamentos e experiências gramaticais, faça chuva ou sol. Não tenho dúvidas de que em tal posição meu imediatismo me faria ter como principal alternativa, sempre, a minha sinceridade.

E vos digo: a morfologia é uma ciência extensa – e isso não é novidade para ninguém, eu sei. Mas, se na teoria parece simples escolher um tema dentro dela, sendo tantos, na prática nem sempre o é. E então, por circunstância de tal dúvida, acabei ficando debaixo de uma chuva de papéis com temas morfológicos... Acabei pegando alguns antes que eles tocassem o piso. Foi difícil. Mais simples seria esperá-los encostar o chão; porém, não tive tempo para isso, o que fez com que os temas escritos nos papéis pairassem no texto.

O primeiro papel que catei falava dos pronomes: palavras substitutas, suplentes, praticamente dublês dos substantivos: astros que não banalizam sua imagem e que se usam dos pronomes, coitados, para que façam o trabalho de agir por eles. Pronomes que podem ser até mesmo caracterizados como a morfologização da malandragem, como ocorreu no famoso caso do aluno, que, tentando se omitir ao professor, que havia lhe pedido para que dissesse dois pronomes, respondeu: “Quem? Eu?”. Deus salve tal classe tão operária das palavras.

O segundo papel falava sobre verbos deficientes, ou melhor, especiais. Verbos defeituosos, digo, defectivos, que não são conjugados em todos os tempos e pessoas. Verbos que são por vezes proibitivos - e até opressores! - e que impedem, por exemplo, que minha amada irmã, linda e saudável criança em desenvolvimento, colora um belo desenho. Coitada, desenha, mas não pode colori-los.

O terceiro e último papel falava sobre verbos irregulares: verbos mutantes, que foram mutilados e modificados e aglutinados e misturados – e tudo a que se tem direito – de acordo com o tempo e com as mudanças de nossa língua. Digo isso por crer ser bom saber das agruras pelas quais essas palavras passaram para entender que não foi por acaso que Jardel, ex-atacante do Grêmio, se confundiu tanto ao explicar como havia feito um de seus gols, dizendo que “chutou a bola e ela foi fondo, foi fondo, e iu!”.

E assim é não só a morfologia como toda a gramática: viva. Uma volátil chuva volátil de morfológicos papéis picados que nem sempre chegam ao chão e estagnam-se; que às vezes não se cansam de voar por aí se misturando e se modificando com tudo que passa pelo ar.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Crônica (09)

DUAS CRONISTAS CONVIDADAS

Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por duas alunas do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2010-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA do português, assunto de nosso curso.

A VIDA COM OS ADJETIVOS (por Vanessa Gomes Teixeira)

Acabo de inventar um movimento novo de libertação. Resolvi libertar a classe de palavras mais injustiçada da língua portuguesa, os adjetivos. Não apenas por esse motivo, mas também porque eles são os seres mais bipolares da nossa gramática.

Os adjetivos são tão bipolares que, se não modificarem o substantivo, mudam de classe, como no caso: “Esse homem está doente” e “O doente foi atendido pelo médico”. Na primeira frase, a palavra “doente” funciona como adjetivo, porque modifica o substantivo “homem”; na segunda, como substantivo, pois não muda ninguém, apenas designa o ser sobre o qual queremos falar. Outro exemplo são as frases “O menino rápido comeu seu lanche” e “O menino comeu rápido seu lanche”. Na primeira, “rápido” é adjetivo porque atribui uma característica ao menino citado; já na segunda frase, a palavra desempenha o papel de advérbio porque, nessa sentença, “rápido” não está se relacionando com o substantivo “menino” e sim expressando o modo como ele comeu. O adjetivo muda tanto que, além de mudar o substantivo, ele pode modificar seu próprio sentido – dependendo da posição que ocupa: a expressão “uma menina pobre”, por exemplo, tem o sentido diferente da expressão “uma pobre menina”, mesmo sendo ambas compostas pelas mesmas palavras.

Segundo as gramáticas tradicionais, a definição de adjetivo é “palavra que modifica o substantivo, atribuindo-lhe uma característica”. Vendo dessa forma, ele parece apenas um figurante, que serve de apoio para o protagonista que “designa os seres em geral”. Mas será que ele é um somente um acessório?

O parceiro do adjetivo é o substantivo, classe que tem sua própria independência. Substantivos têm seu sentido completo, adjetivos precisam dos nomes com que irão se relacionar. Porém, não são apenas enfeites, pois afinal são os termos que dão a personalidade de tudo que existe no mundo.

Se a primeira coisa que fizemos foi nomear as coisas, a segunda, com certeza, foi caracterizá-las. Se os substantivos nos permitem categorizar e organizar o mundo, os adjetivos nos permitem especificar esse mundo no qual vivemos. Eles também nos possibilitam esclarecer qual a posição em que nos colocamos ao construir uma sentença e qual é a nossa intenção ao expressá-la. Falar “A menina viu o menino” é bem diferente de “A menina insensível viu o menino triste”. Isso ocorre porque os adjetivos nos permitem demonstrar qual é a nossa visão ao analisarmos uma pessoa ou situação.

Outro recurso que também nos ajuda no processo de posicionamento é a capacidade que essa classe de palavras tem de comparar dois seres ou ressaltar uma qualidade: assim como o comparativo dos substantivos, o superlativo dos adjetivos nos ajuda a individualizar o nome, apresentando características que somente eles possuem ou que eles têm em maior quantidade do que resto do grupo.

De modo geral, os adjetivos não qualificam apenas os nomes, eles transformam a regra em exceção, ou seja, transformam um simples “mais um” em algo único no mundo. Isso porque todos somos categorizados como objetos ou seres, homens ou animais, machos ou fêmeas; mas cada um de nós possui características que nos diferenciam do resto, aquelas que ninguém mais tem e que nos fazem ser exatamente quem somos.

LÍNGUA DINÂMICA (por Claudia Regina de Oliveira)

O perfil das provas de língua portuguesa, seja nos vestibulares, seja nos concursos públicos, vem mudando nos últimos anos. A grande preocupação de outrora era a avaliação dos conhecimentos gramaticais com comandos mais diretos como "Identifique o processo de formação de palavras dos itens abaixo", por exemplo. Atualmente percebemos que há mais questões que integram vários assuntos, podendo uma pergunta de morfologia depender do conhecimento de semântica do concursado. É nesse momento que a percepção da própria língua, por parte do candidato, fará toda a diferença para o seu sucesso.

A derivação imprópria, ou conversão, é um item que costuma figurar nas gramáticas dentro dos processos de formação de palavras. Em suma, trata-se do uso de uma palavra em uma classe gramatical diversa da original. Um caso típico é a transformação de verbo em substantivo com a anteposição de um artigo ou um pronome: "o cantar; meu cantar".

A linguagem coloquial é uma fonte em potencial desse processo. Basta observar frases retiradas do cotidiano tais como: "A garota era crânio" e "Esse Ricardo é muito comédia". Nelas, os substantivos em destaque assumiram valor de adjetivos: crânio pode ser substituído por inteligente e comédia por engraçado. Em “O preço do imóvel caiu bonito”, bonito é um adjetivo com função de advérbio de intensidade, se o interpretarmos como "muito", ou de modo se pensarmos em "rapidamente". Em "Soltou um caraca que o denunciou", uma interjeição típica de um falar regional, uma gíria, foi substantivada. E no exemplo "Vamos esperar papo de meia hora", papo, que é um substantivo, atua como preposição acidental (igual a "em torno de"). Por fim, em "Só aceito o sim como resposta", o advérbio de afirmação funciona como substantivo.

Poderíamos preencher um livro com várias sentenças desse tipo e, mesmo assim, não esgotaríamos os exemplos. A língua é dinâmica e, por isso, os estudantes devem constantemente analisar as expressões que ouvem no dia a dia, pois as bancas têm focado questões de interpretação cujas ferramentas estão nos conhecimentos morfológicos, fonéticos, sintáticos, entre outros e esse saber (eis aí um verbo como substantivo) é um grande diferencial que pode definir a classificação, ou não, do concursando. Por isso, atenção! Pode ser que um trecho do "papo cabeça" que você teve com um amigo apareça numa questão de prova. E, para não perder o ensejo, essa "cabeça" de natureza substantiva, aqui, atuou como adjetivo.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2011

sábado, 30 de julho de 2011

Crônica (08)

A SINTAXE DESIMPORTANTE
[por Pércio Faria Rios, cronista convidado - aluno do terceiro período do Instituto de Letras da UERJ]

Estava lendo Manoel de Barros, dia desses, numa tentativa semidesesperada de encontrar um tema possível para esta crônica sobre sintaxe. Fracassei. Fracassei com o Manoel, como fracassei com o Elomar, como fracassei com os palavrões; e descobri algo importante: não sou do mundo da sintaxe. Na poesia de Manoel de Barros não via sintaxe, só poesia; na música de Elomar só via música e beleza em sua linguagem dialetal sertaneza; quando pensei em palavrões, só conseguia relembrar a emoção de uma palavra “baixa” soltada numa hora alta, de extrema paixão. Senti-me parte das desimportâncias deste mundo, numa espécie de abatimento pitadinho de satisfação. Contudo, continuei lendo o poeta pantaneiro até que me veio o verso: As coisas que não levam a nada têm grande importância.O início, talvez, do meu desfracasso.

Pensei, imediatamente, nos tão desprezados termos acessórios da oração, sem tirar, no entanto, a poesia da cabeça. Esses termos são considerados dispensáveis no contexto oracional; são, em contrapartida, imprescindíveis para o entendimento de certos enunciados. Pensei: um momento! Poesia não se entende. Manoel concordou mais ou menos comigo. Para entender nós temos dois caminhos, disse ele: o da sensibilidade, que é o entendimento do corpo, e o da inteligência, que é o entendimento do espírito. Dei um ok, esperando pelo complemento do poeta, que logo veio: eu escrevo com o corpo. Por trás dessa fala do pantaneiro, entretanto, surgiu-me uma certa visão de uma certa dança: corpo e espírito, num bolero. Manoel escreve com o corpo. Só que não poderia dizer isso sem o auxílio do adjunto adverbial de instrumento, com o corpo. O poeta escreve, mas isso não é poesia. O poeta escreve com o corpo, e isso sim é poesia! Corpo e espírito: poesia e sintaxe!

O adjunto adverbial é esse termo acessório, dispensável, mas que introduz na oração uma circunstância, referindo-se geralmente ao verbo. É indispensável à poesia, que dispensa tudo, menos as coisas dispensáveis deste mundo.

Manoel de Barros não para por aí sua defesa dos oprimidos pela importância: as coisas que não pretendem: pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, se prestam para poesia. O poeta continua contando com as desimportâncias da linguagem para defender as desimportâncias da poesia: não poderia ele, sem o aposto pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, outro termo acessório da oração, fazer uma defesa tão bela. O aposto se relaciona com o termo anterior. Neste caso, o aposto que Manoel ab-usou é enumerativo, vem depois de dois pontos, para explicitar ou exemplificar qualquer coisa.

A poesia encontra-se, de fato, na periferia de todas as coisas, fora do núcleo, das obrigatoriedades. Diria o professor de Português: ah, é como o adjunto adnominal! Manoel mudaria de assunto. As crianças escutam a cor dos passarinhos, diria ele. O professor replicaria: pois é, Manoel, dos passarinhos é adjunto adnominal. Está fora do núcleo do objeto direto, a cor, e indica posse.

Pensei que a poesia delirante da palavra não se desse bem com a sintaxe e me enganei. Manoel de Barros me provou o contrário: os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe que os escorpiões de areia.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2011.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Resenha (01)

UM GUIA PARA A LEXICOGRAFIA PRÁTICA

ATKINS, B.T. Sue & RUNDELL, Michael. The Oxford Guide to Practical Lexicography. Oxford: OUPress, 2008, 540p.

A quantidade de obras voltadas para os aspectos práticos da lexicografia não é das mais numerosas. Na língua inglesa talvez esteja a maior possibilidade de se encontrarem livros que tratem especificamente da prática lexicográfica, na qual quase obrigatoriamente há sempre uma boa parte dedicada à discussão sobre como fazer e como não fazer dicionários, produto que, a princípio, é o que se espera de um lexicógrafo.

Citemos, entre os principais títulos em língua inglesa, os livros Practical Lexicography: as reader, editado por Thierry Fontenelle (Oxford: OUPress, 2008), Lexicography: an introduction, de Howard Jackson (London: Routldege, 2002), Modern lexicography: an introduction, de Henri Béjoint (Oxford: OUPress, 2000), Teaching and Researching Lexicography, de R. K. Hartmann (Essex: Longman, 2001) e Dictionaries: the art and craft of lexicography, de Sidney I. Landau (Cambridge: CUP, 2001).

Nenhum desses trabalhos tem tradução para o português, havendo em nossa língua um número bem mais discreto de obras publicadas nesse campo. Lembremos, a título de ilustração e homenagem, uma das primeiras contribuições para os estudos lexicográficos do português, o livro de Gladstone Chaves de Melo Dicionários Portugueses, publicado em 1947 (Rio de Janeiro: SD/MEC) e o trabalho de Átila de Almeida (e seu pai Horácio de Almeida), com o curioso título Dicionários: parentes e aderentes (João Pessoa: FENAPE, 1988), na verdade uma bibliografia de dicionários “e livros afins”.

O recente desenvolvimento dos estudos de lexicologia, lexicografia e terminologia no Brasil, sobretudo por conta da atuação do GT da ANPOLL que se dedica a essas três áreas, é uma espécie de contrapartida em relação à falta de iniciativa de nossas editoras de colocarem à disposição dos estudantes universitários a tradução das melhores obras publicadas no exterior, mas já podemos começar a encontrar colegas que se dedicam ao trabalho metalexicográfico (a lexicografia teórica), o qual é em síntese o tema do livro de Sue Atkins e Michael Rundell. Afinal, um guia sobre a prática lexicográfica não deixa de ser um estudo teórico sobre os que os lexicógrafos fazem (este é um dos subtítulos da introdução do livro).

Para nossos alunos de graduação, futuros profissionais especializados no emergente campo da dicionarística e na linguística de corpus, são referências hoje os livros de Francisco da Silva Borba, Organização de Dicionários: uma introdução á Lexicografia (São Paulo: UNESP, 2003), de Herbert Andreas Welker, Dicionários: uma pequena introdução à Lexicografia (Brasília: Thesaurus, 2004), e a coletânea de artigos organizada por Devino João Zamboim Estudos sobre lexicografia (Araraquara-SP: UNESP, 1993), além de vários estudos esparsos publicados em periódicos e revistas especializadas.

Sue Atkins e Michael Rundell são dois professores e pesquisadores com bastante experiência no assunto que abordam no livro publicado pela Oxford University Press. Atkins foi presidenta da Associação Europeia de Lexicografia (EURALEX) e desenvolveu um método pioneiro na elaboração de dicionários bilíngues extraídos de bancos de dados. Entre suas contribuições mais recentes para a linguística de corpus inclui-se a criação do British National Corpus.

Michael Rundell, autor de um conhecido Dicionário de Cricket (obviamente não no Brasil), também atua ao lado de Sue Atkins (e de Adam Kilgarriff) num projeto muito bem sucedido. Os três são consultores e professores em cursos e workshops sobre lexicografia e computação lexical oferecidos em várias partes do mundo e organizados pela Lexmasterclass (cf. www.lexmasterclass.com).

The Oxford Guide to Practical Lexicography é um livro-texto sobre a feitura de dicionários. A obra mostra o passo a passo de um curso de treinamento de lexicógrafos, mas também se propõe a refletir junto com os leitores sobre o trabalho das editoras e das universidades e sobre o ensino da lexicografia como disciplina acadêmica.

Dividida em três partes, focaliza em primeiro lugar a “pré-lexicografia” (p. 15-257), discorrendo sobre os tipos de dicionários e seus usuários, a evidência lexicográfica, métodos e pesquisas, o encontro entre a linguística teórica e a lexicografia, o planejamento de um dicionário e a decisão sobre as estruturas de entrada no dicionário. A segunda parte trata da “análise dos dados” (p. 261-380), discorrendo acerca da construção de bancos de dados, a partir, primeiro, das palavras e seus significados e, depois, das unidades lexicais. Por fim, a “compilação das entradas” (p. 383-514), que aborda as alternativas para a construção de entradas monolíngues ou bilíngues e para a etapa de tradução.
Os autores explicam a relevância e a aplicação de teorias linguísticas recentes, como a “teoria dos protótipos” (prototype theory), que postula não serem homogêneas as categorias da língua, e a “moldura semântica” (frame semantics), que consiste em considerar não ser possível compreender o significado de uma palavra sem acessar o conhecimento nela envolvido.

Ao final de cada capítulo, os autores apresentam sugestões de leitura específicas para o assunto principal nele focalizado e acrescentam outras indicações para aprofundamento de tópicos também abordados. Além disso, a Bibliografia final da obra é composta de uma exaustiva relação de referências (p. 514-530), e a ela se segue um índice por assunto bastante pormenorizado (p. 531-540).

“Aprende-se lexicografia fazendo lexicografia, preparando outras pessoas para fazer lexicografia e conversando sobre lexicografia com os colegas” (p. 9) – afirmam os autores logo no início do livro. Eis então três ótimas motivações para nossos estudos lexicografia.

Fonte: Revista MATRAGA, 26, jan.jun/2010 (Rio de Janeiro: Inst. de Letras, UERJ), p. 170-2.