quarta-feira, 29 de abril de 2015

Crônica (15)

CONTÁVEIS X INCONTÁVEIS, de CCH


“Na língua o que vale é o uso”, dizia o professor numa sala de aula, mas logo acrescentava: “o uso prestigiado pelas pessoas letradas”. Ele recomendava cuidado com os desvios estigmatizados e com as acusações promovidas pelos pseudoproprietários da correção de linguagem.

O conselho tinha sido motivado pelo debate trazido por um aluno, a partir da resposta encontrada num livro didático. O certo era “ele fez o máximo de cesta” ou “o máximo de cestas”? O livro dizia que era “cesta”, mas o aluno também queria aceitar “cestas”. Nessa hora, não vale adotar nenhum raciocínio lógico, filosófico sobre se a palavra pode ou não estar no singular (afinal, a ideia aí é plural). O caso não era de confronto entre certo e errado, pois se precisava verificar duas coisas: o uso e a tipologia dos substantivos nessa posição do sintagma.

Há uma diferença clara entre substantivos contáveis e não contáveis. São incontáveis nomes como sal, água, arroz, pipoca, honestidade... e são contáveis nomes como batata, livro, feijão, bala, sorriso... Assim, nunca (?) diremos “Coloque na comida o máximo de sais”, “Guardei no reservatório o máximo de águas”, “Você precisa agir com o máximo de honestidades”, etc. Por outro lado, poderemos dizer “Coloquei no prato o máximo de feijão/feijões”, “Enchi o bolso com o máximo de bala/balas”, “O jogador fez o máximo de cesta/cestas”.

A conclusão quanto a essas estruturas deverá mostrar que, quando se emprega um substantivo do grupo “não contável”, prevalece a forma singular. Prefere-se “Tenho um monte de pipoca para te oferecer” a “Tenho um monte de pipocas para te oferecer”, que não está errado (pois “pipoca” também se pode contar), mas não é a forma mais praticada. Ou “O armazém vendia um saco de arroz e outro de batata” a “O armazém vendia um saco de arrozes e outro de batatas”, que são igualmente corretos, pois “arroz” e “batata” também podem ser contados, embora dificilmente se veja alguém contabilizando quantos arrozes vão para a panela.

O mesmo critério de observação deve acontecer quando o substantivo pertence ao grupo das coisas “contáveis”. Parece que o uso preferido é o do plural, mas isso pode ser apenas um engano do ouvido autoritário de alguns. Devemos pedir um saco de balas e doces só porque esses substantivos são contáveis e porque o saco, obviamente, conterá um número plural de guloseimas? Se alguém pedir um saco de bala e doce, estará falando errado ou apenas exercendo o seu direito de usar a forma singular com valor plural?

Já dizia Mário Barreto, renomado filólogo da primeira metade do século passado: “A língua é o que é e não o que ela deveria ser ou o que quereríamos que ela fosse.” (Últimos Estudos, 1986, p. 229)

Ao final da aula, o professor mandou o máximo de lembretes (no plural) aos alunos, dizendo-lhes que deveriam fazer o máximo de esforço (no singular) para garantir com o máximo de certeza/certezas (no singular ou no plural) o que aprenderam sobre os usos prestigiados pela comunidade letrada.

Fiquem bem!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 29/04/2015

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Crônica (14)

QUATRO CRONISTAS CONVIDADOS
Mais quatro crônicas linguísticas para os leitores do blogue. 

As duas primeiras foram produzidas por alunas do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2014-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA, assunto de nosso curso.

01. FLEXÃO DOS POSSESSIVOS (por Jakeline de Melo Fenna)

O ano letivo estava começando, e Margarida, pela primeira vez, iria dar aula de Língua Portuguesa. Ela formara-se há pouco e estava muito nervosa. O assunto nem era tão complexo, mas como falar de  pronomes possessivos para adolescentes numa segunda-feira 7h da manhã?

Na faculdade, aprendera que um bom professor deve cativar, atrair a atenção dos alunos, que ele tem de ser, acima de tudo, um artista. Então, Margarida decidiu fazer de sua primeira aula uma diversão, algo bem marcante. Recortou de revistas e jornais exemplos de frases com uso dos possessivos. Fez cartazes coloridos  até com fotos de artistas. Selecionou algumas músicas em que os possessivos ganhavam destaque e preparou uma dinâmica de grupo para fechar "com chave de ouro" sua primeira aula.

Chegou então o aguardado dia. Margarida levou todos os cartazes, as músicas, explicou com muita clareza que os pronomes  possessivos expressam um vínculo qualquer, constante ou eventual, entre o objeto ou assunto de que se fala e cada uma das pessoas do discurso. Ainda acrescentou que as gramáticas escolares brasileiras em geral apresentam um paradigma de formas pronominais possessivas que não corresponde, como conjunto, nem mesmo ao uso padrão escrito corrente do  português do Brasil. Depois  dividiu a turma em três grupos para a dinâmica. Os alunos deveriam estourar os balões que continham tiras de papéis com frases e organizá-las. Venceria a competição o grupo que montasse primeiro e mais corretamente o texto, com direito a  brindes.

Foi uma diversão, balões estourando, alunos lendo as frases invertidas, tentando organizar o texto de forma coerente, uma confusão. Para surpresa de Margarida, dois grupos conseguiram montar o texto ao mesmo tempo e leram em voz alta: Os pronomes possessivos se flexionam em gênero e número, concordando com o substantivo (a parte possuída) que determinam, com exceção das formas dele, dela, deles, delas e de vocês, que concordam com o possuidor.

Quando o sinal soou anunciando o fim da aula, os alunos lamentaram e muitos se despediram de Margarida dizendo que estavam ansiosos pela aula seguinte.

Margarida não conseguiu esconder a emoção e, antes mesmo  de fechar a porta da sala, já começava a imaginar como seria a próxima aula.

02. UMA QUESTÃO DE GÊNERO (por Jorginete Roux da Costa)

Uma distinção amplamente utilizada nos estudos linguísticos é a que opõe formas marcadas (feminino) e formas não marcadas (masculino). Nessa distinção entre marcado e não marcado, um dos termos do par é o uso mais amplo e dominante do não marcado, enquanto o outro, o marcado, é mais restrito e limitado.

Trata-se, como se vê, de uma relação assimétrica. Sua utilidade foi reconhecida também para outras áreas de estudo, como a sociologia, a antropologia e os estudos culturais.

Quando o assunto é gênero, a forma considerada marcada é sempre a feminina. Por exemplo: quando alguém diz que tem onze filhos, no caso a minha própria mãe, heroína, por formar um time de futebol no próprio lar, a gente não sabe se todos são homens ou se há algumas mulheres. No entanto, se a pessoa disser que tem 11 filhas, a ambiguidade desaparecerá. Assim, como a forma não marcada é muito mais usual, ela é considerada neutra.

Vale aqui, então, ressaltar que a dominação da forma marcada (masculina) se reflete na língua de forma preponderante. Afinal, se quatro mulheres e um cachorro sofrem um acidente ao atravessar a rua, diremos que eles foram atropelados. Ou seja, basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de quatro mulheres e jogá-las dentro do mesmo "balaio de gatos ou de cães” da forma neutra do masculino.

Outra curiosidade importante de ser lembrada é que os textos pedagógicos sempre se referem aos professores, embora as mulheres constituam a esmagadora maioria da profissão docente. Existem, também, por todo o país sindicatos de trabalhadores domésticos, ainda que saibamos que 99,9% desses trabalhadores sejam do sexo feminino.

No Brasil, logo após a posse de Dilma Rousseff na presidência da República em 2011, um debate linguístico emergiu quanto ao uso da palavra presidenta usada para designá-la. O debate na verdade era de cunho sociocultural e político. A própria Dilma declarou que desejava ser chamada de presidenta, para deixar bem marcada a significação histórica, inédita, nunca vista antes na história do PT, quero dizer do Brasil, de uma mulher no cargo máximo de um país como o nosso.

Em suma, tudo gira em torno da questão do gênero, e isso muitas vezes exacerba os ânimos de maiorias e/ou de minorias que se sentem excluídas dentro desse status quo, querendo mudar um comportamento sociocultural que vem de longe na história da humanidade.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2014

As duas próximas foram produzidas por alunos de períodos variados de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2014-2 do Instituto de Letras). O tema era LÉXICO & SEMÂNTICA, assunto de nosso curso.

03. A LINGUAGEM DAS FIGURAS (por Anna Carolina Matos)

Quando peguei uma folha em branco para escrever esta crônica, não senti inspiração alguma. Sem ideias, parei, peguei, pensei... e dei de cara com um assíndeto e uma paronomásia. Mas falar sobre figuras de linguagem? Muito difícil! Continuei me concentrando. Distraída, passei direto por uma elipse pronominal e me questionei como os estudantes continuamos com essa falta de imaginação ainda na faculdade. A silepse de pessoa passou batida e me vi inerte sob a luz fria da luminária apoiada em minha bancada. Sem notar a sinestesia, olhei para a folha de papel na minha frente e vi que a caneta já havia rabiscado algumas palavras.

Nem me dei conta da personificação quando reconheci na tevê, que falava sozinha em um canto do quarto, o rei do futebol dando uma entrevista para um canal de esportes. Quase notei a antonomásia, mas bem a tempo me desconcentrei com o “toc-toc-toc” vindo do outro lado da porta fechada. Por meio segundo penso em onomatopeia, mas logo concentro minhas forças em reclamar: – Meu Deus! Dai-me paciência! Assim a bendita crônica não sai! – Mas o que sai é a apóstrofe no mesmo momento em que entra minha mãe perguntando: – Carolina, minha filha, vamos jogar preto no branco. Você vai ou não arrumar esse quarto? – Nem me preocupei com a antítese, com o zeugma muito menos. De que adianta? Não vou mesmo escrever sobre figuras de linguagem, ué.

Diz minha mãe que eu escrevo bem, mas sabe como é mãe, né... é puxa-saco, é incentivadora, é piegas. Pensando nessas coisas de mãe, perdi a inversão e a anáfora bem ali. E o tempo passava, e eu não me concentrava, e do namorado lembrava, e a inspiração não chegava. Fiquei nesse vai, vem, volta, vai não volta sei lá por quanto tempo. Cega, deixei passar polissíndeto e aliteração.

Concentrando-me para não chorar rios de lágrimas e alagar meu quarto, me escapava a hipérbole, mas decidi que, em vez de chorar, xingar e  me desesperar, eu deveria me render a um tema bem óbvio. Afinal (sem notar a gradação), a mim só me importava que a nota na tal crônica fosse tão boa como as das outras matérias. Um pleonasmo ali, uma símile aqui, e continuei seguindo. Pensei em olhar na internet, nesses “googles” da vida. Quem sabe alguma crônica pronta, de algum autor desconhecido? Mas achei melhor não. Eu realmente não queria fazer um bom texto utilizando meios ilícitos.

Eufemismos à parte, me desprendi lentamente dos braços da confortável cadeira em que estava e caminhei pensativamente até a estante em busca do bom e velho Aurélio. Estavam ali catacrese e metonímia, mas meu foco era o dicionário. Quem sabe eu não encontraria alguma palavra mágica que me inspirasse? Mas eu estava mesmo frita, nada me ocorria! Talvez o tema fosse óbvio e só eu é que não percebia. A metáfora também ficou esquecida. Como pode usarmos figuras de linguagem o tempo inteiro, e eu só me lembrar da ironia?

04. CRONIQUINHA (por Childerico Fernandes)

Garçom! A maquininha, por favor! A máquina usada em restaurantes para pagamento com cartão é pequena. O sufixo “-inha” cumpre sua função primária: diminuir o tamanho das coisas. Da mesma forma, existem casinhas de boneca, garfinhos de sobremesa, copinhos de plástico (aqueles que carregam comprimidos em hospitais), passarinhos e carrinhos de brinquedo. Entretanto, existem alguns outros empregos semânticos do diminutivo em nossa língua. Vejamos.

Oi, Samanta, sou eu, o Paulinho! Beleza? Tá a fim de pegar um cineminha? Quem sabe depois a gente vai naquele bistrozinho, senta naquela mesinha que a gente adora, bebe um vinhozinho, come uma coisinha... Cineminha? Vinhozinho? Comidinha? Tudo fofurismo. Paulinho não está necessariamente chamando a Samantha para ir ao Cine Joia. Nem beber uma versão em miniatura de um Merlot. Ao diminuir as coisas, Paulinho quer ser carinhoso, sedutor, fofo. Beber um vinhozinho sugere muito mais intimidade do que beber um vinho. Pegar um cineminha é muito mais gostoso do que pegar um cinema. Talvez Paulinho pegasse um cinema com seu amigo Paulão. Com a Samantha, ele pega um cineminha. Paulinho é fofo. Por isso lhe chamam de Paulinho.

Ao fim da sessão, Samanta diz ter odiado o filme. Que filminho, hem, Paulinho? Chatinho pacas, braveja. Samanta detestou "A Volta Da Múmia IV". Aqui, o uso do sufixo “-inho” amplifica o desprezo pelo filme e sua chatice. Aliás, Paulinho não sabe mais o que fazer para agradar a amada. Às vezes pensa: que namoradinha que fui arrumar! E assim vai levando sua vidinha, seu empreguinho e o transitozinho infernal que enfrenta todos os dias ao pegar a Brasil.

Existe o uso do diminutivo para enfatizar a inteireza de uma coisa, a completude de algo. Como na vez em que Paulinho ficou bebinho e teve uma baita de uma ressaca no dia seguinte. Samanta lhe fez um chá de boldo com alho e ficou muito feliz quando seu amado tomou tudinho. Tudinho mesmo. Não ficou uma gota de chá na xícara. Curou-se tão rápido que logo Samanta lhe entregou um balde e um esfregão pra limpar a vomitada que dera no corredor. Eu quero tudo limpinho, viu Paulinho!! Usa o Brilux pra lavar o pano depois. Quero ver ele branquinho!! Paulinho aprendeu sua lição. E hoje bebe direitinho.

De vez em quando, usa-se o diminutivo para atenuar uma qualidade ruim e diminuir o impacto da crítica. Quando falou do namorado para sua melhor amiga pela primeira vez e mostrou sua foto, Samanta disse que ele era feinho, mas supermegalegal, ser humano incrível, uma alma boníssima. Paulinho é um homem feio. Mas pra Samanta, ele é feinho. Paulinho tem um narigão. Pra Samanta ele é narigudinho. Barrigudo? Barrigudinho. Careca? Carequinha. Pesudo. Pesudinho. Paremos por aí.

Paulinho e Samanta vão se casar em breve. Já compraram uma casinha. Já juntaram um dinheirinho. Já escolheram os padrinhos e a cerimônia será numa igrejinha linda que fica pelos lados de Manguinhos. Será de tardezinha e a Samanta vai usar um vestidinho lindo! Vestidinho mesmo... curtinho... sabemos como são essas moças moderninhas. Paulinho já reservou um hotelzinho em Poços de Caldas para a lua de mel. Mas ele acha que ainda é muito cedo pra ter um filhinho; por isso, levará um estoque de camisinhas na viagem. Samanta concorda, os dois ainda são muito jovens e querem curtir a vida um pouquinho. 

Voltemos ao restaurante. O garçom traz a maquininha. Paulinho paga pelo jantarzinho com seu cartão e vão ele e Samanta de mãos dadinhas para casa. Mãos dadinhas? Não!!! Chega!!! Aí já é demais!!!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Crônica (13)

DOIS CRONISTAS CONVIDADOS
Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por dois alunos do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2013-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA, assunto de nosso curso.

GRAMÁTICA, VIDA E FLEXÕES (por Alberto Lopes)

Se repararmos bem, a vida humana e a gramática fazem paralelo em inúmeras situações. Na vida, há pessoas que agem sempre em prol da comunidade. Por isso, nas suas tomadas de decisão, levam sempre em consideração o respeito ao próximo, relativizando suas ideias, aparando arestas, cedendo e revendo seus conceitos, visando sempre chegar a um denominador comum com seus pares. Em contrapartida, há os ensimesmados, os que veem a vida de forma unilateral, absolutos nas ideias, porque – como diz Caetano – “Narciso acha feio o que não é espelho”.

Com a gramática não é diferente. Vejamos, por exemplo, o caso da flexão nominal em que substantivos e adjetivos são capazes de cederem, modificando-se para concordarem entre si em gênero e número, e os casos de derivações em que os nomes se modificam apenas para se destacarem dos outros. Em “o povo sábio unido jamais será vencido”, há concordância entre o substantivo “povo” e seus pares “sábio”, “unido” e “vencido”, mas em “o povo sapientíssimo unido jamais será vencido”, o grau superlativo absoluto sintético “sapientíssimo” difere dos outros elementos para atribuir uma qualidade elevada ao substantivo “povo”.

O interessante, nesse paralelo, é perceber quão descartável é tudo aquilo que vive isolado da sua comunidade. Quem se isola e vive olhando para o próprio umbigo não faz falta a ninguém, da mesma forma que o grau atribuído a uma classe gramatical para singularizá-la também é prescindível. É possível conviver pacificamente com todos os gêneros sociais em qualquer número, mas só até o momento em que uma das partes não se exalta diante da outra. A harmonia entre os termos de uma frase se faz justamente porque há nesses termos a capacidade de cederem para concordarem. Em “ o povo unido jamais será vencido” podemos perceber a ausência do morfema “s”, que só entrará em cena se o substantivo e todos os seus parceiros forem para o plural. Já em “sapientíssimo...”, o adjetivo “sapiente” agrega a si o sufixo “-íssimo”, ou seja, um substantivo ou um adjetivo não cedem para se graduarem, ao contrário, acrescentam para se graduarem e se graduam para se destacarem. Por isso, a única forma de uma palavra se graduar é não concordando com as outras, e só há concordância onde se é capaz de ceder. Flexão é solidariedade, derivação é soledade. Ser flexível é viver em sociedade e perpetuar a vida, ser ensimesmado é viver ilhado em uma autofagia finita.

Mas, se na gramática não há concordância do número e do gênero com o grau, na sociedade vislumbro uma possibilidade. É possível alguém ser graduado e viver em concordância com os outros gêneros sociais. Para isso, é preciso flexibilizar-se, abster-se dos superlativos que o distanciam do homem comum; dessufixar-se e desinenciar-se para relativizar as regras e horizontalizá-las; ter envergadura suficiente para mirar com bons olhos o que tem a seus pés. Quem sabe assim possamos realizar, na vida, um feito impossível no âmbito gramatical, que é concordarmos em gênero, número e grau, possibilitando a frase “O povívissimo, sapientíssimo unidíssimo, jamaisíssimo será vencidíssimo”.

Q VC DISSE? (por Pâmela de Paula da Silva)

Depois de muita relutância, decidi criar uma identidade no tal facebook. Não aguentava mais ouvir e não entender os meus alunos dizendo que mandariam o trabalho via “face”, perguntando se eu tinha visto a página tal, o comentário de não sei quem... E lá fui eu criar um perfil, como se não tivesse mais nada para fazer (naquele dia, eu realmente não tinha).

Minha primeira interação foi com a Carol, uma aluna que mandou a seguinte mensagem: “Oi, prof! Td blz?” Minha resposta foi outra pergunta: “Oi?” Do que ela estava falando? “Prof.” eu até entendi... Mas, o que era “Td” e “blz”? Carol só disse:”OMG! rsrs”. Tudo bem, amanhã vejo isso.

O assunto do dia seguinte era: Siglas e Abreviaturas. Comecei a aula explicando a importância que elas têm na comunicação escrita e também na falada, por conferir economia de letras ao enunciado e facilitar a comunicação entre diferentes línguas. Dei os exemplos clássicos como ONU, já que todos conhecem. Nem todos conheciam. Carol foi a primeira a perguntar o que era aquilo. Patrícia (Paty, como gostava de ser chamada) logo disse que também nunca havia escutado isso. Como assim? Algo tão importante como a ONU não era conhecido? Segui a aula falando das abreviaturas. Dei outros exemplos, clássicos também, como “masc.”, “fem.”, “admin.”... Só o último Paty conhecia. Falou que aparecia no “face”. Ah! O “face”! Lembrei do que Carol falou ontem e não consegui me segurar, fui no automático: “Carol, o que foi aquilo que você me disse ontem?”

Todos riram. Não achei graça. Acho que ela já tinha espalhado a notícia. Mesmo assim, não via motivo para o riso. Jorge, que se mostrava o mais compreensivo entre os colegas, falou: “É a economia, professora!” “Hã?” “É que, quando falamos pelo “chat”, também usamos siglas e abreviaturas para o texto não ficar muito grande. É comum. A professora não sabia porque fugia da internet. Agora, já sabe. Viu? Também podemos ensinar algo!” E deu aquele sorriso maroto.

Quando cheguei a minha casa, abri o facebook. Vi uma mensagem do Jorge: “É q qnd falamos pelo chat, tbm usamos siglas e abrev. p/ o texto ñ ficar mto grd. É comum. A prof ñ sabia pq fugia da net. Agr, já sabe. Viu? Tbm podemos ensinar algo! rsrsrsrsrs”

A lição que tirei disso? De que adianta teoria se não a usamos na prática cotidiana?

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2013

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MORFOLOGIA - PREFÁCIO DA 4a EDIÇÃO



A fase de transição das reformas na nossa ortografia, a fim de ficar paralela com o calendário adotado em Portugal, foi prorrogada até o final de 2015. Essas mudanças, porém, estão de tal modo consolidadas em nosso País que este Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica precisa retomar seu trajeto e se atualizar. A assinatura do Decreto que promulgou o Acordo Ortográfico resultou na necessidade de que modificássemos este livro em relação às três edições anteriores. A mais importante dessas mudanças é a que decorre das determinações do Acordo quanto ao emprego (e ao não emprego) do hífen. Assim, revimos minuciosamente todas as passagens em que os assuntoscomposição de palavras” e “derivação prefixal” estão envolvidos, mas também foi precisorearrumar” muitas afirmações que se referiam a outros aspectos teóricos.
O texto do Acordo interveio na descrição gramatical e gerou situações embaraçosas para o pesquisador, professor, estudiosoespecialmente nos assuntos de morfologia. Por exemplo, não é mais permitido o uso de hífen depois dos elementosnão” e “quase”. Antes, se escrevia “não-agressão”, “não-eu” ou “quase-contrato”, “quase-irmão”. Agora, essas palavras se escrevem sem hífen. Um pequeno problema seria identificar, após a mudança, qual a classe gramatical de “não” e “quase” nesses sintagmas (advérbios? palavras denotativas?). Problema maior mesmo, porém, é explicar quenão” e “quase”, embora separados das suas palavras parceiras por espaço em branco, continuam sendo chamados de “prefixos” (sic) nas páginas de nossas leis ortográficas... Criou-se então a estranha figura do prefixo que não está agregado ao radical (in+feliz = infeliz) nem está separado dele por hífen (pré+barroco = pré-barroco). Existe (?) agora o prefixo que se separa do radical por um espaço em branco (não + cooperação = não cooperação).
Além disso, há casos que apresentam a identificação, descrição e classificação de morfemas pela tradição praticada em Portugal, colocando em xeque o que se consolidou em nossas terras. Pelo texto do Acordo, lê-se que prefixos são elementos que atuam na composiçãoquando para nós, diferentemente, prefixação é um caso de derivação. São situações que precisam ser esclarecidas, como também as que envolvem antigos substantivos compostos (pé-de-moleque, mula-sem-cabeça), que assumem o status de locuções substantivas, expressões idiomáticas ( de moleque, mula sem cabeça). Perdem, portanto, a condição de “palavra”, que o desaparecimento dos hifens tirou delas a feição de unidade lexical.
Outro dado relevante sobre esta edição se refere à atualização das informações bibliográficas, à inclusão da questão de morfologia proposta no Enade 2011 e à inserção de um Índice por Assuntolacuna resolvida com a competente ajuda do colega André Conforte.
*
O leitor desta quarta edição deve então considerá-lo sob essa perspectiva.
Em resumo: novas explicações, novos comentários e novos exercícios, pois também nos estudos da línguaViver é etcétera”...
O Autor

sábado, 18 de maio de 2013

Crônica (12)

DUAS CRONISTAS CONVIDADAS
Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por duas alunas do sétimo período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2012-2 do Instituto de Letras). O tema era GRAMÁTICA+LITERATURA, assunto de nosso curso.

ANDORINHA (por Isabela Fornazier)

Nunca fui da poesia, dos poemas. Muito menos do estudo deles. Mas, ao entrar numa faculdade de Letras, estudá-los e lê-los tornam-se obrigação. Eis que entrei. Passei a sê-lo menos ainda.

Os primeiros contatos não foram muito bons, como era de se esperar. Eles repeliam-me, o que eu podia fazer? Passaram desordenados Gonçalves, Casimiros, Mários, Adélias, Castros – Cruzes! Nem sequer Machado, de cuja prosa sempre fui grande admiradora, deu-me jeito. Poesia, para mim, apenas dissolvida na prosa. Chegou então o Manuel.

Andorinha, andorinha, minha cantiga não é mais triste, não! No momento certo, o Manuel chegou-me com a Andorinha. Poema breve: duas estrofes, dois versos em cada uma. Na primeira estrofe, a andorinha lá fora e seu dia à toa, à toa. Na segunda, o eu lírico lá dentro e sua vida à toa, à toa. Separação de estrofes e de melancolias. Enquanto lia repetidas vezes, eu me lembrava do pensamento clichê que me impulsionara, felizmente, para tantas decisões na vida. Foi como se o Manuel, com o perdão pelo infame trocadilho, tivesse hasteado uma enorme bandeira na minha memória, que tendia a falhar, dizendo: cante, andorinha.

No encontro com a tal ave, não houve modo de não a relacionar também à vida de seu autor. O vocativo criado possivelmente serviu-lhe de reflexo ao que o perseguiu ao longo de sua vida longa: a iminência da morte desde os dezoito. E numa outra época, lugar e situação, estava eu, lendo, lendo, lendo, lidando não mais com a iminência da poesia; ela já havia me alcançado.

A partir dos quatro versos-bandeira, deixei que o resto do livro passasse todas as suas páginas amareladas diversas vezes pelos meus olhos e mãos. E foi impossível não lhes ser: não satisfeito em passá-las, entranhou-as em mim. Ainda eu não era de todos os poemas da literatura (quem os é?), mas ali aparecia o que parecia a primeira faísca de uma talvez futura fogueira.

Se uma andorinha não faz verão no lugar-comum, naquele momento que vivi ela o fez. A andorinha do Manuel, vazia, só, de cantiga triste, ironizada melancolicamente pela cantiga do eu lírico, carregava em si mais um dos dias manuelinos. Para mim, essa mesma andorinha carregou o meu vazio e me trouxe a clareza de volta. Por pura coincidência, era verão lá fora. Agora, era também aqui dentro.

Nunca fui da poesia, dos poemas. Muito menos do estudo deles. Mas, ao entrar numa faculdade de Letras, estudá-los e lê-los tornam-se obrigação. Eis que entrei. Passei a ser andorinha feliz.

NO MEIO DO CAMINHO (por Vanessa Gomes Teixeira)

Um dia qualquer. Uma ida qualquer ao trabalho. Sete horas da manhã. O ônibus lotado. Um trânsito infernal. Parece que houve um acidente e há um carro no meio da pista. Ao organizar esse pensamento, lembro imediatamente do poema do Carlos Drummond de Andrade, aquele que fala sobre a pedra no meio do caminho. Entediada por causa do calor e dos carros que não andam, fico com estes versos na cabeça: “tinha uma pedra no meio do caminho” / “no meio do caminho tinha uma pedra”.

Por que será que Drummond repete tantas vezes as palavras “pedra” e “caminho”? Apesar de o poema ter apenas dez versos, “pedra” é repetida sete vezes e “caminho” é repetida seis vezes... Afinal, o que será que essa observação do poeta significa? Sei que há estudos que explicam que a pedra, na verdade, é uma metáfora dos problemas da vida... E se for, será que o poema fala que os problemas nunca acabam, já que, na própria estrutura textual, a pedra bloqueia o caminho antes e depois nos versos? Será que essa sequência “tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra” cria obstáculos que se desencadeiam sem fim? Além disso, se a pedra representar mesmo os problemas da vida, será que esse trânsito é a pedra do meu caminho?

Tenho meu pensamento interrompido por um barulho de buzina e percebo que o ônibus se aproximou do local do acidente. Na verdade, também tinha um caminhão envolvido na batida: pessoas recebendo ajuda médica, vidros quebrados no chão e muitos espectadores observando de longe (o que causava todo o transtorno, por sinal). Paro para pensar e me questiono de novo: será que os veículos são realmente as pedras no meio do caminho ou sou eu o obstáculo que impede que a ajuda chegue mais rapidamente para os feridos? Concluo que, talvez, "ter problemas" seja uma questão de ponto de vista, já que eu me preocupava apenas em chegar ao trabalho enquanto pessoas tentavam sobreviver a uma tragédia. No final das contas, me sinto mal por ter me preocupado com uma pedrinha enquanto pessoas a poucos metros de mim enfrentavam um pedregulho.

Novamente meu raciocínio é interrompido, agora por um barulho de ambulância. Escuto um passageiro perguntando se alguém teve ferimentos graves: para o alívio de todos, as vítimas estavam bem. Após passar por essa experiência, vou para o trabalho refletindo que, assim como o poeta, acho que nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão estressadas por causa da rotina. Talvez a grande lição de Drummond para nós não foi ter colocado um obstáculo no caminho e, sim, ter colocado a pedra no meio dele, para que pensemos sempre sobre como retirá-la e continuar seguindo a nossa estrada até o fim.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Crônica (11)

ELA ME IRRITA, MAS EU GOSTO
[por Gabrielle Martins Soares, cronista convidada - aluna do quinto período do Instituto de Letras da UERJ]

Não! Respondi sem titubear quando a proposta me foi feita. Como eu poderia aceitar o convite para ser professora de língua portuguesa de um pré-vestibular comunitário, se ainda não me sentia preparada para solucionar as questões problemáticas desse emaranhado de normas que formam a chamada língua culta – ou padrão, para quem tem um maior apreço pelas variações linguísticas?

Para não perder a oportunidade de ganhar o título de professora, peguei a turma de redação, e há três anos me mantenho frente a ela. Ledo engano para quem achou que saber a necessidade de uma introdução, três argumentos e uma conclusão seria o suficiente para dar aulas de produção textual. Ao longo desses anos de “casa”, descobri que, se eu não quisesse me deparar com dúvidas complexas acerca da língua, deveria ser professora de matemática.

Ainda este ano, tive que tirar do bolso a fatídica frase – vou pesquisar e na aula que vem eu te digo – para responder por que malvado é com l, logo após explicar a diferença entre mau e mal. Muitas “aulas que vem” se passaram e eu ainda não descobri. Eventualmente, amorfologia se mostra um problema. Contudo, o que realmente me confunde é a sintaxe, essa bondosa malvada coordenadora de palavras e orações, que assusta desde os pré-vestibulandos até os professores da língua.

Sempre escutei que “nunca se separa sujeito de predicado numa frase escrita na ordem direta” e nunca não permite exceções. E lá estava eu, de frente para um livro que deveria solucionar minhas dúvidas, tentando compreender as regras de subordinação de orações, quando me deparo com um “Quem tudo quer, nada tem”. Opa! Pode isso, Arnaldo? O que aquela virgulazinha está fazendo ali entre o sujeito e o predicado? No canto superior esquerdo do livro está a minha resposta escrita a lápis: a vírgula é por estilo e é permitida. Quando eu escrevi isso? Quando eu aceitei essa explicação sem fazer um escarcéu? A regra é clara. Nunca é nunca. A coordenadora das relações oracionais não deveria permitir isso, mas quando a chefe da empresa, a senhorita Estilística – solteira, nunca se vincula – diz que pode; então, pode.

Eu defendia a ideia de que “toda a regra tem uma exceção”; só que, pelo visto, não ando em consonância com o que costumava afirmar. Não gosto de abrir concessões em alguns casos. Isso me irrita. O verbo ser serve para designar estado, condição, é o famoso verbo de ligação: liga o sujeito ao seu predicativo. Entretanto – tinha que ter um porém –, quando for usado para indicar tempo ou fenômenos meteorológicos, fará parte de uma oração sem sujeito. Em “são duas horas”, por exemplo, são deveria ser verbo de ligação, mas não o é, afinal, está ligando o que, se não há sujeito? E duas horas? Não sendo predicativo, nem objeto direto ou indireto, é o quê? Para finalizar, a parte mais interessante dessa pequena estrutura oracional é que o verbo concorda com o sintagma duas horas, o que quer que este seja. Dentre todos os verbos impessoais que definem tempo, somente o verbo ser varia de acordo com a expressão numérica. Até Hamlet se questionava sobre isso: “Ser ou não ser, eis a questão”.

Expostas algumas das minhas picuinhas com a sintaxe da língua portuguesa, devo confessar que paradoxalmente eu gosto disso tudo. O que me irrita me atrai e quem desdenha quer comprar. O importante é saber que sempre terei uma “aula que vem” e gramáticas não irão me faltar. Dessa vez, quando vier um convite para dar aulas de português, a resposta será sonora. Sim!!!

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012.

terça-feira, 6 de março de 2012

Crônica (10)

LOUCOS SOIS, ADVERBIAIS
[por Allex Machado, cronista convidado - aluno do quarto período do Instituto de Letras da UERJ, turma de Morfologia de 2011/2]

Se ter um prazo a cumprir torna qualquer tarefa escrita árdua pelo peso de seu compromisso, um problema maior do que este está justamente em não saber exatamente sobre o que se quer escrever. Tal indecisão faz imaginar-me, então, na posição do colunista morfológico cujas obrigações são de expor, semana após semana, curiosidades, lições, estudos, ensinamentos e experiências gramaticais, faça chuva ou sol. Não tenho dúvidas de que em tal posição meu imediatismo me faria ter como principal alternativa, sempre, a minha sinceridade.

E vos digo: a morfologia é uma ciência extensa – e isso não é novidade para ninguém, eu sei. Mas, se na teoria parece simples escolher um tema dentro dela, sendo tantos, na prática nem sempre o é. E então, por circunstância de tal dúvida, acabei ficando debaixo de uma chuva de papéis com temas morfológicos... Acabei pegando alguns antes que eles tocassem o piso. Foi difícil. Mais simples seria esperá-los encostar o chão; porém, não tive tempo para isso, o que fez com que os temas escritos nos papéis pairassem no texto.

O primeiro papel que catei falava dos pronomes: palavras substitutas, suplentes, praticamente dublês dos substantivos: astros que não banalizam sua imagem e que se usam dos pronomes, coitados, para que façam o trabalho de agir por eles. Pronomes que podem ser até mesmo caracterizados como a morfologização da malandragem, como ocorreu no famoso caso do aluno, que, tentando se omitir ao professor, que havia lhe pedido para que dissesse dois pronomes, respondeu: “Quem? Eu?”. Deus salve tal classe tão operária das palavras.

O segundo papel falava sobre verbos deficientes, ou melhor, especiais. Verbos defeituosos, digo, defectivos, que não são conjugados em todos os tempos e pessoas. Verbos que são por vezes proibitivos - e até opressores! - e que impedem, por exemplo, que minha amada irmã, linda e saudável criança em desenvolvimento, colora um belo desenho. Coitada, desenha, mas não pode colori-los.

O terceiro e último papel falava sobre verbos irregulares: verbos mutantes, que foram mutilados e modificados e aglutinados e misturados – e tudo a que se tem direito – de acordo com o tempo e com as mudanças de nossa língua. Digo isso por crer ser bom saber das agruras pelas quais essas palavras passaram para entender que não foi por acaso que Jardel, ex-atacante do Grêmio, se confundiu tanto ao explicar como havia feito um de seus gols, dizendo que “chutou a bola e ela foi fondo, foi fondo, e iu!”.

E assim é não só a morfologia como toda a gramática: viva. Uma volátil chuva volátil de morfológicos papéis picados que nem sempre chegam ao chão e estagnam-se; que às vezes não se cansam de voar por aí se misturando e se modificando com tudo que passa pelo ar.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2012.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Crônica (09)

DUAS CRONISTAS CONVIDADAS

Mais duas crônicas linguísticas para os leitores do blogue. São textos produzidos por duas alunas do quarto período de Língua Portuguesa da UERJ (turma de 2010-2 do Instituto de Letras). O tema era MORFOLOGIA do português, assunto de nosso curso.

A VIDA COM OS ADJETIVOS (por Vanessa Gomes Teixeira)

Acabo de inventar um movimento novo de libertação. Resolvi libertar a classe de palavras mais injustiçada da língua portuguesa, os adjetivos. Não apenas por esse motivo, mas também porque eles são os seres mais bipolares da nossa gramática.

Os adjetivos são tão bipolares que, se não modificarem o substantivo, mudam de classe, como no caso: “Esse homem está doente” e “O doente foi atendido pelo médico”. Na primeira frase, a palavra “doente” funciona como adjetivo, porque modifica o substantivo “homem”; na segunda, como substantivo, pois não muda ninguém, apenas designa o ser sobre o qual queremos falar. Outro exemplo são as frases “O menino rápido comeu seu lanche” e “O menino comeu rápido seu lanche”. Na primeira, “rápido” é adjetivo porque atribui uma característica ao menino citado; já na segunda frase, a palavra desempenha o papel de advérbio porque, nessa sentença, “rápido” não está se relacionando com o substantivo “menino” e sim expressando o modo como ele comeu. O adjetivo muda tanto que, além de mudar o substantivo, ele pode modificar seu próprio sentido – dependendo da posição que ocupa: a expressão “uma menina pobre”, por exemplo, tem o sentido diferente da expressão “uma pobre menina”, mesmo sendo ambas compostas pelas mesmas palavras.

Segundo as gramáticas tradicionais, a definição de adjetivo é “palavra que modifica o substantivo, atribuindo-lhe uma característica”. Vendo dessa forma, ele parece apenas um figurante, que serve de apoio para o protagonista que “designa os seres em geral”. Mas será que ele é um somente um acessório?

O parceiro do adjetivo é o substantivo, classe que tem sua própria independência. Substantivos têm seu sentido completo, adjetivos precisam dos nomes com que irão se relacionar. Porém, não são apenas enfeites, pois afinal são os termos que dão a personalidade de tudo que existe no mundo.

Se a primeira coisa que fizemos foi nomear as coisas, a segunda, com certeza, foi caracterizá-las. Se os substantivos nos permitem categorizar e organizar o mundo, os adjetivos nos permitem especificar esse mundo no qual vivemos. Eles também nos possibilitam esclarecer qual a posição em que nos colocamos ao construir uma sentença e qual é a nossa intenção ao expressá-la. Falar “A menina viu o menino” é bem diferente de “A menina insensível viu o menino triste”. Isso ocorre porque os adjetivos nos permitem demonstrar qual é a nossa visão ao analisarmos uma pessoa ou situação.

Outro recurso que também nos ajuda no processo de posicionamento é a capacidade que essa classe de palavras tem de comparar dois seres ou ressaltar uma qualidade: assim como o comparativo dos substantivos, o superlativo dos adjetivos nos ajuda a individualizar o nome, apresentando características que somente eles possuem ou que eles têm em maior quantidade do que resto do grupo.

De modo geral, os adjetivos não qualificam apenas os nomes, eles transformam a regra em exceção, ou seja, transformam um simples “mais um” em algo único no mundo. Isso porque todos somos categorizados como objetos ou seres, homens ou animais, machos ou fêmeas; mas cada um de nós possui características que nos diferenciam do resto, aquelas que ninguém mais tem e que nos fazem ser exatamente quem somos.

LÍNGUA DINÂMICA (por Claudia Regina de Oliveira)

O perfil das provas de língua portuguesa, seja nos vestibulares, seja nos concursos públicos, vem mudando nos últimos anos. A grande preocupação de outrora era a avaliação dos conhecimentos gramaticais com comandos mais diretos como "Identifique o processo de formação de palavras dos itens abaixo", por exemplo. Atualmente percebemos que há mais questões que integram vários assuntos, podendo uma pergunta de morfologia depender do conhecimento de semântica do concursado. É nesse momento que a percepção da própria língua, por parte do candidato, fará toda a diferença para o seu sucesso.

A derivação imprópria, ou conversão, é um item que costuma figurar nas gramáticas dentro dos processos de formação de palavras. Em suma, trata-se do uso de uma palavra em uma classe gramatical diversa da original. Um caso típico é a transformação de verbo em substantivo com a anteposição de um artigo ou um pronome: "o cantar; meu cantar".

A linguagem coloquial é uma fonte em potencial desse processo. Basta observar frases retiradas do cotidiano tais como: "A garota era crânio" e "Esse Ricardo é muito comédia". Nelas, os substantivos em destaque assumiram valor de adjetivos: crânio pode ser substituído por inteligente e comédia por engraçado. Em “O preço do imóvel caiu bonito”, bonito é um adjetivo com função de advérbio de intensidade, se o interpretarmos como "muito", ou de modo se pensarmos em "rapidamente". Em "Soltou um caraca que o denunciou", uma interjeição típica de um falar regional, uma gíria, foi substantivada. E no exemplo "Vamos esperar papo de meia hora", papo, que é um substantivo, atua como preposição acidental (igual a "em torno de"). Por fim, em "Só aceito o sim como resposta", o advérbio de afirmação funciona como substantivo.

Poderíamos preencher um livro com várias sentenças desse tipo e, mesmo assim, não esgotaríamos os exemplos. A língua é dinâmica e, por isso, os estudantes devem constantemente analisar as expressões que ouvem no dia a dia, pois as bancas têm focado questões de interpretação cujas ferramentas estão nos conhecimentos morfológicos, fonéticos, sintáticos, entre outros e esse saber (eis aí um verbo como substantivo) é um grande diferencial que pode definir a classificação, ou não, do concursando. Por isso, atenção! Pode ser que um trecho do "papo cabeça" que você teve com um amigo apareça numa questão de prova. E, para não perder o ensejo, essa "cabeça" de natureza substantiva, aqui, atuou como adjetivo.

Fonte: Instituto de Letras, UERJ, 2011